Uma não-avaliação sobre as difíceis saídas

Eleições 2020: Resultados do 2º turno das capitais do Brasil | Atualidade |  EL PAÍS Brasil
Foto: Raphael Alves / EFE

Este texto não é uma avaliação das eleições municipais de 2020, tarefa a que os cientistas políticos se dedicam com mais afinco e credibilidade. Tento apenas: 1) trazer alguns pontos que chamaram atenção em uma observação atenta das eleições municipais; 2) comparar com o que foi o período 2016-2018 no Brasil e, especialmente; 3) procurar saídas do principal fantasma (Bolsonaro) que nos piora um quadro que já seria grave pelo espírito do tempo presente com uma pandemia que não cessa e promete ir para além de 2021, uma “crise estrutural” do sistema que aperta o parafuso a cada volta mais que dá e uma descrença na representação política que parece se intensificar.

As eleições municipais trazem um retrato da configuração política e dos vetores de força político-partidária que estão em jogo em um determinado momento, mas proponho que não se estabeleça um link direto entre elas e as eleições presidenciais.

Por esta regra de que “as municipais são o ensaio das presidenciais”, fechadas as urnas em 2016 tudo levava a crer que a vitória em 2018 seria da articulação golpista, provavelmente com os tucanos à frente e muitas dificuldades para o campo esquerdista. Nada indicava que a extrema-direita, ou bolsonarismo, fosse ser vitoriosa em 2018.

Tanto a Lava Jato minou essa possibilidade quanto uma vertente minoritária em manifestações orquestradas pelo Vem Pra Rua e MBL em fins de 2016, depois das municipais daquele ano, se fez vitoriosa, com seus dizeres de intervenção militar e discurso homofóbico, que foram abraçados pelo mercado e pelos liberais, em especial quando viram que o tucano Alckmin derreteria, tendo Bolsonaro como símbolo.

Podemos dizer que o julgamento de Lula e o assassinato de Marielle foram determinantes na decolagem de Bolsonaro já em 2018, tendo esse se estruturado ao longo de 2017. Portanto, volto ao ponto: as eleições municipais não determinaram, mas deram um panorama dos caminhos para onde as presidenciais podem ir.

E quais são esses caminhos na semana seguinte ao segundo turno das municipais?
O Centrão, que é a direita que sempre esteve no poder, foi o maior vitorioso. Como alguns muito bem apontam, Kassab é um dos nomes vitoriosos. O fisiologismo é algo a se combater, mas sempre deixado pra algum momento melhor de se fazer isso, como vimos ao longo dos governos do PT. Enquanto isso, eles permanecem em todos os governos desde a chamada redemocratização.

No flanco da direita liberal, o DEM está tão forte quanto seus parceiros tucanos (será que aptos a ensaiar uma reedição de 1994-98?), que tem em Dória um nome cada vez mais forte.

Também não posso deixar de relacionar entre os vitoriosos uma esquerda que se mostrou renovada, mesmo nas disputas eleitorais que perdeu, algumas por bem pouco, com o surgimento de novas lideranças e algumas possibilidades pela frente no campo institucional, ao contrário do que a grande mídia tenta destacar, em especial focando no PT. Houve um renascer das cinzas em comparação com 2016.

É preciso ter alguma cautela ao falar de derrota do bolsonarismo, pois se o presidente perdeu em São Paulo, de forma acachapante com Russomano, no Rio de Janeiro a derrota do fundamentalista Crivella só fez mudar o aliado, com o aceno de Eduardo Paes logo após sua vitória nas urnas. Fora isso, permanece bem vivo, como em Vitória, e apesar das derrotas em Belém e Fortaleza teve uma presença bem destacada. A questão de Bolsonaro é como ele se ajeita com o Centrão, que não é um aliado confiável, pois os militares vão com seu projeto, e este envolve Bolsonaro, até o fim, pelo visto.

Para completar o quadro geral, a abstenção recorde (29,5%) não se deve à pandemia. Notem que, nos EUA, houve votação recorde com pandemia. A despeito das diferenças entre os dois países e sistemas eleitorais, colocar a abstenção na conta da pandemia é empurrar mais uma vez um problema que, pelo menos desde junho de 2013, vem assombrando o sistema político e a ciência política de forma geral, que é a repulsa relacionada aos partidos, governos e à representação dita democrática. Não entro nem no mérito de ser uma contestação, pois nem sempre é. Mas, sem dúvida, é um ponto que deve ser sinalizado em qualquer análise da política institucional hoje, e merecer ser pesquisado com mais atenção do que se foi até então.

Talvez pelo distanciamento a que me propus, o quadro geral não me parece ter mudado tanto com as eleições municipais, com trocas de posições entre aliados pretéritos e futuros ao sabor das conveniências: Centrão (direita fisiológica) / direita liberal (tucanos e DEM) / extrema direita. Por outro lado, a esquerda se renovou e não repetiu o estrago que foi 2016, recuperando algumas posições e, mesmo que o PT seja o foco das críticas da grande mídia, cuja obsessão é enterrá-lo, existe um caminho para sonhar em alternativas. No mais, é desse conjunto que sairão os postulantes para as eleições presidenciais em 2018, não tem como inventar muito, no máximo um outsider como Huck/Moro.

Mas aí reside o principal problema, que não terei espaço nem condições para enfrentar neste ensaio e um exercício coletivo talvez seja mais adequado para pensa: as alternativas.

Uma pergunta longa se faz necessária para começar a pensar nisso e remete a uma questão mais estrutural: quais saídas encontrarmos que não sejam voltar ao passado desenvolvimentista ou de pleno emprego como meta, em um contexto global que estará sob choque da pandemia (que será vivenciado mais à frente, talvez de forma bem mais aguda do que em 2020)? Da mesma forma, como lidar com um mundo que se move cada vez mais para um ajuste sistêmico marcado por implantação de tecnologia e corte de pessoas, que passariam a ficar dependentes de programas como a renda básica universal, instrumento cada vez mais estrutural para conter a revolta com a piora das condições de existência?

Essa pergunta deixo no ar, pois parece que o buraco é mais em cima.