Correio da Cidadania

Qualquer maneira de tirar Bolsonaro vale a pena?

Ibrape/Cadaminuto: pesquisa traz os números para presidente nas eleições  2022 e avalia popularidade de Bolsonaro em Maceió
Sim, com certeza, por vários motivos Bolsonaro se transformou no mal maior e deve ser retirado de qualquer maneira. Começar um artigo sem suspense talvez não seja a melhor forma de atrair o leitor, mas quando os horizontes estão tão rebaixados a ponto a resposta se torna fácil (sem termos muita noção do que virá depois disso).

Hoje existem como possibilidades, não necessariamente nessa ordem de prioridade: 1) Bolsonaro sai; 2) saindo já, continua o arranjo militar com Mourão à frente; 3) saindo com as eleições de 2022, provavelmente volta Lula ou, em caso de nova puxada no tapete dele e no PT, alguém “juridicamente mais aceito”. De outro lado, temos de considerar: 4) Bolsonaro continua. No fundo estamos, literalmente, entre as opções 1 e 4, com grande possibilidade de a número 3 acontecer.

O rebaixamento dos horizontes políticos é tão evidente que o maior sonho de consumo daqueles que não estão no terço fiel ao presidente é, além de tirá-lo, “voltar ao que era antes”. Aliás, tenho muitas saudades do que éramos até 2014. Mas sabemos que não se volta ao que éramos e que não existe futuro que se faça sem que tenhamos um presente, e parece que o presente se esvai, nos atropela e não nos deixa pensar em um futuro.

Escrever isso só faz sentido se considerarmos que um eventual governo do PT, que é o partido favorito hoje para o cenário (3), não será mais uma simples “gestão da barbárie” como os mais críticos, como Marildo Menegat e Paulo Arantes, apontavam, mas um governo sob terra arrasada, vindo depois de um governo de destruição das instituições, das políticas públicas e do fazer político republicano que restava ou que se tinha. Portanto, cabe perguntar: o que fazer depois que a barbárie foi disseminada?

Eis a questão que deveria permear os debates. É preciso cultivar a esperança de outra forma, mas ao mesmo tempo não perder de vista que os discursos e posições contam muito em um processo eleitoral e de formação de um governo. Concessões demasiadas nos arranjos que se costuram para chegar ao poder nos farão no máximo voltar ao estágio “gestão da barbárie”, e talvez seja o melhor que conseguiremos em um planeta em que a catástrofe ambiental é iminente, agora atravessado por uma pandemia cujas consequências serão sentidas por muito tempo.

Considerar essas dimensões vai além de mero exercício especulativo, considera o espírito do tempo em que vivemos de forma prática, sem falar nos limites da democracia representativa, da representação política eleitoral e do aumento das desigualdades que ficam evidentes, por exemplo, na distribuição das vacinas ao redor do mundo. É nesse sentido que, talvez, uma frente ampla, como alguns bem cotados aventam, não tem seu lugar no contexto brasileiro, salvo para radicalizar o projeto de extrema-direita turbinado pelos militares. No máximo, uma frente de esquerda conseguirá pontuar o que é necessário para começar o trabalho de construção, pois não acredito que reconstruir seja o caso.

Em suma, a garrafa em que estavam presos nossos algozes não os abriga de volta, precisamos lidar com eles, ou eles não deixarão de vencer, mesmo que pareçam democraticamente derrotados. Um primeiro passo, talvez, seja enfrentar a “tutela militar” que nos acompanha no que chamam de “redemocratização” nunca concluída. Mas isso pode implicar não ser “autorizado” a concorrer no arremedo de democracia que temos. Eis os dilemas para se poder falar em democracia e esse o estágio em que (ainda) estamos.

Marcelo Castañeda é sociólogo e professor da UFRJ.