Correio da Cidadania

Pesquisa divina


O Todo Poderoso participa das atividades de um laboratório celestial de análise de fatores indutores de felicidade nos seres humanos. Perplexos, seus discípulos perguntam a Ele: “sendo Vosso Santíssimo ou Vossa Santíssima, conhecedor ou conhecedora de todo o futuro, por que fazer esta análise”?

O Divino responde: “Quero testar o livre arbítrio dado aos humanos e este teste só pode ocorrer se Eu não souber nenhuma informação sobre as decisões futuras deles. Como tudo posso, eu me proíbo de saber o futuro deles. Tomem como amostra para esta pesquisa uma pequena parcela dos habitantes da diminuta área, chamada de cidade do Rio de Janeiro, do minúsculo globo que os humanos chamam de Terra. Estes terráqueos se dividem, estupidamente, por áreas deste pequeno globo.”

Depois de algum tempo para os discípulos, pois, para a Divindade, o tempo não corre, fazem nova reunião, para apresentar o resultado da coleta da amostra. Assim, um dos discípulos começa: “A pequena amostra é esta aqui.”

Experimento no 8.451: natimorto, sexo masculino, branco, ao nascer tinha o cordão umbilical enrolado no pescoço, sua mãe não tinha feito pré-natal por falta de dinheiro, a maternidade pública não tinha obstetra na hora.

Experimento no 29.432: 5 anos, garoto, preto, mora na favela do Dendê, sua mãe é diarista, fica na casa da vizinha, que não o trata bem, enquanto sua mãe trabalha, sente muita dor de cabeça pois tem fome e, por isso, choraminga, ainda não sabe se expressar.

Experimento no 308.792: 52 anos, homem, mulato, mora em São Gonçalo, analfabeto, foi boia fria, hoje, mendiga pelo centro do Rio, que tem mais “dadantes” que São Gonçalo. Tem fome, vive bêbado.

Experimento no 885.200: 20 anos, mulher, branca, nordestina, casada com um porteiro em Copacabana, tem dois filhos, mora em um cômodo com banheiro e cozinha, é feliz porque não tem que fazer roça, mas sonha em voltar para o Nordeste.

Experimento no 1.590.392: 14 anos, adolescente, preta, mora na cidade de Deus, acabou de ser violentada por um traficante, não conta para ninguém porque não adianta, parou de estudar por medo, o estuprador disse que ela ia ser uma de suas mulheres.

Experimento no 4.691.708: 48 anos, homem, preto, mora no morro São Carlos, analfabeto, faz biscates como bombeiro, o dono de uma loja de ferragem no Andaraí o indica, tem dia que ganha até R$ 400, bebe muito, não sabe onde estão a mulher e os filhos.

Experimento no 4.781,024: 42 anos, homem, branco, os pais lhe contaram que chorou logo depois que nasceu, teve boa educação, sobressaiu nas escolas que frequentou, fez um mestrado na COPPEAD e pretende seguir para o doutoramento, acredita na competição e no capitalismo como as formas de organização econômica que melhor satisfazem a sociedade, porque “os homens são naturalmente competitivos”, classifica os seres humanos em vitoriosos e perdedores, acha estupendo o programa de privatizações do Guedes e que todo sindicalista é um preguiçoso, quando não é mau caráter.

Experimento no 4.877.344: 39 anos, mulher, branca, separada do marido, três filhos, funcionária publica, quer vender comida congelada para aumentar a renda, mas o fogão é pequeno e não tem freezer, gosta do Datena e do Bolsonaro, sente-se atraída por uma colega do trabalho, mas nunca se declarou, por ter medo da reação.

Experimento no 4.894.841: 32 anos, mulher, preta, prostituta, faz ponto na Avenida das Américas, “Deus me ajudou”, segundo ela, “esse meu corpo atrai muito puto”, vive numa favela ao lado da lagoa de Marapendi, cafetões querem privatizá-la, mas ela luta contra e, por isso, tomou uma surra, recentemente, ela se diz profissional liberal.

Experimento no 6.569.311: 25 anos, homem, moreno, mora no Salgueiro, sua mãe é doente, ela tem pensão do INSS, que a salva, não conhece o pai, é biscateiro e, atualmente, é entregador, seu dinheiro mal dá para comer e, por isso, rouba comida dos pratos que deve entregar, há pouco, foi chamado para participar de assalto a uma boca.

Experimento no 8.136.004: 19 anos, homem, branco, mora no Borel, bissexual assumido, semianalfabeto, controlador do tráfico, gosta de andar com a AR 15 e o tênis Nike, sua vida se resume em lutar contra a gangue rival e a policia, e fazer sexo, dorme com medo de não acordar mais.

Experimento no 8.414.320: 20 anos, homem, branco, nordestino, trabalha e mora em uma obra no Recreio, aos sábados vai para o forró do lado de fora da feira de São Cristóvão, onde arrumou uma quenga, quer voltar para o Nordeste.

Experimento no 8.984.448: 17 anos, mulher, branca, mora no Pavão-Pavãozinho, dança nos bailes funks do morro, gosta de causar ciúmes no namorado, um bandido do morro, que manda olheiros para fiscalizá-la, gosta de transar, por isso, faz sexo com vários parceiros, é bissexual e não gosta de ouvir tiros, porque cada um pode significar um amante morto.

Experimento no 9.004.038: 35 anos, mulher, branca, muito bonita, herdou ações que dão o controle de um grande grupo empresarial, administradora, conhecida também pela habilidade política, já foi convidada para assumir órgãos públicos, mas nunca aceitou, pois prejudicaria seus negócios privados, prefere “terceirizar a ocupação destes órgãos com fieis aliados”, reclama dos homens que a cortejam e, depois do sexo, ficam exigindo exclusividade. É bolsonarista pela utilidade econômica dele.

Experimento no 9.182.435: 54 anos, mulher, branca, nasceu em uma família da classe média, estudou em colégios públicos, formou-se em Economia em universidade pública, é reconhecidamente capaz, trabalha em uma estatal, posição conquistada por concurso, é marxista, acha que, se as pessoas se esforçarem, ainda existem oportunidades, a solidariedade também ajuda, se dedica a debater participação e cidadania em comunidades, comparativamente, não procura muito satisfação sexual.

Experimento no 9.214.708: 60 anos, mulher, branca, não vê o marido há muito tempo, tem dois filhos criados que quase não os vê, mora em Japeri, diarista na Zona Sul, anda muito de transporte coletivo, adora assistir novela enquanto faz os serviços da sua casa a noite, vive cansada, sente dores, mas o atendimento no posto é lento e ela não pode faltar ao trabalho, pessoas do seu trem morreram de COVID, tem medo.

Experimento no 9.215.931: 69 anos, mulher, branca com traços indígenas, viúva, vive com um filho, tem artrite nas mãos que são todas deformadas, o marido morreu cedo na cadeia, criou esse filho com muito esforço, ele é seu orgulho, não se casou de novo, quer ver seu filho casado para ter netos, mas ele não ajuda.

Experimento no 9.816.884: 32 anos, homem, moreno, gay, ocupa cargo de nível médio, recentemente assumiu sua opção sexual e tem sentido certa “perda de confiança” por parte dos amigos, estudou pouco, acha que os gays só são respeitados se ligados à arte ou se têm estudo, gosta de carnaval e desfila na Sapucaí.

Experimento no 10.711.024: 29 anos, homem, mulato, dorme em ruas de Copacabana, não se sabe muito da sua história, esteve algumas vezes em unidades UPA, resistente, pois não morre, vive da solidariedade alheia, o que levou um jovem a dizer: “a caridade só aumenta o sofrimento dele”.

Experimento no 10.930.176: 22 anos, homem, branco, drogado, rouba carros para traficante que lhe paga com droga, é soro positivo, não quer se internar porque acha que não sairá nunca mais de lá, tem inveja de quem tem vida, gosta de ler poesia e tenta escrever algumas.

Experimento no 11.020.345: 10 anos, garota, morena, vive nas ruas, junto com outros garotos, assaltam turistas e velhos, deixam parte do roubo com o adulto que lhes extorque, uma vez, um cara parou o carro e lhe prometeu brinquedos para ela entrar.

Depois do levantamento dos dados da amostra e de muitos cálculos dos discípulos, o Poderoso convoca uma reunião com estes para saber dos resultados. Ele continua proibindo a si próprio de saber qualquer informação sobre esta pesquisa.

O discípulo coordenador do grupo começa a falar: “Pela amostra colhida de dados representativos da cidade do Rio de Janeiro, que já são do conhecimento de todos e, possivelmente, próximos dos dados do Brasil, aplicando a metodologia aprovada por todos, chega-se a resultados decepcionantes e constrangedores. O grau de felicidade médio dos cariocas foi de 1,6 em uma escala de zero a cinco, sendo cinco a felicidade máxima.”

O discípulo falou ainda por mais tempo, contudo, a seguinte frase, dentre várias dignas de observação, resume o aspecto mais importante da explanação, qual seja: “Pelo menos para o Brasil, não seria preciso realizar esta pesquisa, pois se observa, a olho nu, que, nele, falta solidariedade e sobra competição. E, se os habitantes deste país forem representativos com relação aos da Terra, então, é triste pertencer à espécie humana.”


Paulo Metri é conselheiro do Clube de Engenharia

Paulo Metri

Conselheiro do Clube de Engenharia

Paulo Metri