Estados Unidos-Brasil: esperanças renovadas no diálogo

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Posses de dignitários ensejam, além da clara satisfação dos votantes do lado vencedor, a oportunidade singular de reflexão sobre a conjuntura e seus desdobramentos, em especial se o vitorioso reelegeu-se.

No alvorecer de 2015, a coligação trabalhista celebrava seu quarto triunfo consecutivo, embora já acompanhado de indeléveis pontos de crise econômica e, por conseguinte, política, ao ter por desfecho a destituição com relativa facilidade da presidente no ano vindouro, fruto do descontentamento de parte de sua própria base.

A cada vinda para festejar o momento específico do trabalhismo na capital federal, o número de pessoas na cerimônia diminuía. Na daquele ano, estimava-se o comparecimento de menos de cinquenta mil participantes.

Poucos dignitários fora da América do Sul costumam comparecer ao evento de empossamento pátrio, por causa da ingrata data para longos deslocamentos aéreos – primeiro de janeiro. Na época da segunda investidura da dirigente Dilma Rousseff, a Casa Branca foi representada pelo vice-presidente Joe Biden.

Sua presença em solo nacional deveu-se também ao fato de desejar encaminhar dois tópicos especiais: a visita da mandatária a seu país, aguardada desde o final de 2013, e a situação de aproximação diplomática de Washington com Havana, depois de meio século de rompimento, propiciadora da possibilidade de retorno de Havana até a Organização dos Estados Americanos (OEA) – a ilha havia sido excluída do organismo em janeiro de 1962 na conferência de Punta del Leste, momento no qual a delegação brasileira e argentina, entre outras, haviam optado pela abstenção.

De maneira simbólica, reforçava a intenção de robustecer o contato a indicação do embaixador junto à Casa Branca, Mauro Vieira, para a titularidade do Itamarati. A governante, após o primeiro termo, não era avaliada como entusiasta da denominada diplomacia presidencial, expressão por meio da qual se valoriza a liderança – nem sempre de modo realista, porém com propósito mercadológico - nas lides exteriores.

A expectativa seria a de que a regularidade entre Havana e Washington encerraria a Guerra Fria na região. Consequência imediata disso poderia ser a diminuição da tensão entre o descendente eixo bolivariano, em decorrência do enfraquecimento financeiro progressivo da petrodiplomacia de Caracas, e o estável arco neoliberal.

Todavia, os democratas seriam substituídos pelos republicanos, ainda mais conservadores, em janeiro de 2017 na Casa Branca e o processo de reconciliação cubano-americano se interromperia. Nas considerações do governo estadunidense, a debilidade econômica venezuelana influenciaria a derrocada cubana.

No encontro de cúpula da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC), ao cabo de janeiro de 2015, Dilma Rousseff solicitou o encerramento do embargo econômico a Cuba pelos Estados Unidos, porém isso somente seria possível caso o Congresso aceitasse – naquele período, os democratas não tinham maioria no parlamento, ao ter menos de 190 representantes na Câmara e apenas 45 no Senado Federal  - http://www.biblioteca.presidencia.gov.br/presidencia/ex-presidentes/dilma-rousseff/discursos/discursos-da-presidenta/discurso-da-presidenta-da-republica-dilma-rousseff-durante-a-2a-sessao-plenaria-da-iii-cupula-da-comunidade-de-estados-latino-americanos-e-caribenhos-celac

Por último, a mandatária brasileira elogiou a iniciativa dos dois dirigentes, dispostos a superar uma querela bastante antiga, sem encaixe adequado na nova ordem internacional, ao remeter-se à coragem de ambos, ainda que sem muito efeito prático, haja vista a divisão de poder naquela altura entre as duas grandes agremiações partidárias norte-americanas -  http://agenciabrasil.ebc.com.br/en/node/945377 

Virgílio Arraes

Doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.

Virgílio Arraes

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