Estados Unidos-Brasil: reaproximação via educação superior

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Em abril de 2015, os mandatários Barack Obama e Dilma Rousseff valeram-se da 7ª Cúpula das Américas, no Panamá, para sepultar de maneira simbólica as consistentes mágoas da dirigente pátria sobre a espionagem revelada ao mundo por ex-funcionário de prestadora de serviço da National Security Agency (NSA) em 2013.

Encontros de cúpula são períodos de confraternização política entre autoridades de primeiro escalão, porquanto simbolizam a realização dos esforços dos trabalhos prévios de diplomatas e de outros segmentos das sociedades participantes daquele evento, com a finalidade de ampla aproximação em várias áreas.

Na prática, revelam-se como protocolos de intenção estas tratativas, dado que a implementação das medidas, quando ocorre, é bastante vagarosa. Em alguns casos, os acordos assinados ainda irão ser analisados e eventualmente ratificados pelos parlamentos – por lá, dormitam os tratados, às vezes, muitos anos.

Conquanto fosse período dos primeiros passos do segundo mandato da presidente trabalhista, já não havia clima de otimismo no governo federal, aturdido com o evoluir da crise econômica e também da política.

Naquela altura, renegar o Brasil o diálogo com os Estados Unidos só entusiasmava os mais bonacheirões, envolvidos em nacionalismo até sincero, porém ingênuo, ou os relacionados de maneira partidária com a coligação presidencial, já em início de fragmentação.

Achegar-se a Washington poderia representar a perspectiva de incrementar as exportações e de reduzir o déficit comercial. Significaria também acenar para setores menos doutrinários da aliança política, esperançosos de maior pragmatismo no segmento exterior.

Se fosse possível, os investimentos se direcionariam para o campo energético – o do pré-sal seria o mais atraente. O preço do barril em abril daquele ano estava acima dos cinquenta dólares e encerraria em patamar superior aos cinquenta e cinco dólares - https://www.eia.gov/dnav/pet/hist/LeafHandler.ashx?n=PET&s=RBRTE&f=M 

Outrossim, haveria o interesse de agradar a classe média alta nacional com a possibilidade de diminuição da burocracia para viagens de turismo aos Estados Unidos – ponto fora da pauta de Washington naquela fase. Seria o desejo de ingresso de Brasília no programa Global Entry.

Outro tópico de atenção da dirigente se referia ao ensino técnico, ao ter como exemplo o modelo das chamadas Community Colleges, instituições quase bicentenárias em solo estadunidense. Na realidade, seria a elevação dos estudos profissionalizantes nacionais ao grau superior, com bacharelados de apenas quatro semestres e com o recebimento de título correspondente ao Brasil de tecnólogo.

Nos Estados Unidos, tais estabelecimentos voltavam-se para pessoas sem renda suficiente para frequentar boas – e bem caras – universidades, mesmo quando pertencentes às unidades federadas, e com o tempo de conclusão dos estudos secundários ocorrido há muitos anos.

Seus campi não costumavam contar com infraestrutura similar à dos institutos tradicionais, nem o corpo docente recebia remuneração substantiva. Expandiram-se estas faculdades com o advento da Guerra Fria graças aos subsídios da Casa Branca voltados para a formação de reservistas das suas forças armadas.

O índice de bacharéis e de licenciados da população do Brasil situava-se em catorze por cento (14%), ao passo que a média da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) beirava os trinta e cinco por cento (35%) - https://www.oecd.org/brazil/Education-at-a-glance-2015-Brazil-in-Portuguese.pdf

Portanto, havia condições para a expansão do ensino superior pátrio, mas faltava – como até o momento – definir o modo e para qual propósito, haja vista a crise econômica do país já ter ultrapassado meia década.

Virgílio Arraes

Doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.

Virgílio Arraes

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