Estados Unidos-Brasil: ecos do passado em 2019

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Manifestações de insatisfação socioeconômicas ocorrem em vários países ao redor do globo há quase uma década, com participação da sociedade em grau distinto e com resultados também diferenciados, ainda que os processos tenham por base comum a frustração da população.

Na larga extensão territorial entre o norte da África e o Oriente Médio, iniciou-se em 2010 a posteriormente chamada Primavera Árabe, enfeixada na severa oposição a duradouros governos autoritários ou ditatoriais, alguns dos quais oriundos do período da Guerra Fria como era o caso no Egito.

Nos Estados Unidos, desencadeou-se no final do ano seguinte o Occupy Wall Street (OWS) e, na Europa, a França acompanha desde 2018 a movimentação dos coletes amarelos, relativa à taxação da venda de combustíveis. Embora mais discretos, a retirada da Grã-Bretanha da União Europeia (UE) tem suscitado atos públicos a datar de um pouco antes - 2016.

Na América do Sul, o Brasil assistiu em 2013 a protestos contra o reajuste das tarifas do insuficiente sistema de transporte público ao passo que no Chile descortinaram-se os brados de reclamação social, reprimidos de modo violento pela administração de Sebastián Piñera. Lembre-se de que o país era apresentado até a emergência disso como eventual símbolo do continuado e equilibrado crescimento econômico do continente.

Sem dúvida, tais acontecimentos têm influenciado as eleições gerais, como as do Brasil em 2018. Após quatro mandatos à frente do Planalto, sendo um dos quais incompleto, o trabalhismo neoliberal foi defenestrado do poder de maneira embaraçosa, através da destituição via Legislativo.

Em seu lugar, emergiria uma coligação ainda mais conservadora, liderada por deputado de formação militar, desejosa de maior proximidade com os Estados Unidos, desde que representados por um dirigente republicano – Donald Trump, ele mesmo crítico dos efeitos econômicos da globalização.

Encontra-se na história recente nacional dois exemplos com perfil ideológico similar, quer no conservadorismo (marechal Eurico Dutra), quer na aproximação incontida com os norte-americanos (marechal Humberto de Alencar Castelo Branco):

Na primeira gestão, ocorreram dois eventos significativos em menos de seis meses em 1947: o Partido Comunista Brasileiro (PCB) teve seu registro extinto e as relações diplomáticas com a União Soviética (URSS) foram encerradas.

Nenhuma das duas medidas aconteceria no outro lado do Atlântico – a agremiação de esquerda lá completou em 2019 seu centenário de atividade ininterrupta. As iniciativas pioneiras do Rio de Janeiro no alvorecer da Guerra Fria não trouxeram ao país tratamento especial algum de Washington, preocupada com a recuperação econômica da Europa Ocidental e do Japão.

Na segunda, aflorou no Planalto o posicionamento de afastar-se da diversificação política e geográfica da administração predecessora, com o propósito de centrar a atenção na Casa Branca, malgrado ser o mandatário de extração democrata, Lyndon Johnson. De novo, não haveria gratificação ao Brasil pelo comportamento de maior alinhamento.

Nos dias de hoje, a gestão social-liberal encerrou o ciclo do Ministério do Trabalho enquanto a republicana, não – Eugene Scalia é filho de falecido magistrado do Superior Tribunal Federal (STF). Washington vangloria-se do baixo desemprego, ao passo que não há até o momento o mesmo empenho por parte do Ministério da Economia – acima de 11%.

Por último, não há precedente histórico de indicação de familiar de presidente para ser o titular de representação diplomática nos Estados Unidos. Conquanto a proposta não tenha logrado apoio do Congresso, não existiu da Casa Branca nenhum gesto especial de afeto ou de retribuição diante de tamanha estima.

Destarte, a busca por parceria privilegiada com os norte-americanos não tem acarretado de modo algum reconhecimento político ou benefícios econômicos aos brasileiros. Ao mesmo tempo, tal postura deságua contrariamente à tradição da política externa pátria que é a de reciprocar, não a de tomar a iniciativa de forma isolada em suas atividades.

Virgilio Arraes

Doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.

Virgílio Arraes