O voluntarismo de Roosevelt e o determinismo Hoover diante de crise sem precedentes

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How FDR Served Four Terms as U.S. President - HISTORY
Em plena pandemia por que passa o globo, há o debate constante sobre o grau necessário de intervenção dos governos no cotidiano para preservar em primeiro lugar o bem estar dos cidadãos e resguardar a atividade produtiva.

O que diferencia o estadista do mero governante é a capacidade de percepção da amplitude do problema e a posterior disposição para enfrentar o problema, sem fiar-se em prescrições já postas. A cada crise, uma solução. A de 1929 é um parâmetro, sem dúvida, disso.

Herbert Hoover e Franklin Delano Roosevelt (FDR) enfrentaram-se na eleição presidencial de novembro de 1932. Os republicanos estavam na Casa Branca havia três mandatos, fase na qual proclamavam a maior era de prosperidade do país, até em outubro de 1929 haver a quebra da bolsa de Nova York. Os dois eram políticos bastante experientes:

Hoover, geólogo por Stanford, disputava a reeleição. Antes, havia-se destacado na iniciativa privada, ao trabalhar no próprio país, Austrália, China e Inglaterra, e pública, ao contribuir para uma gestão democrata, a de Woodrow Wilson na I Guerra Mundial, e duas republicanas, a de Warren Harding e a de Calvin Coolidge.

Em cada passagem, sua eficiência era mais reconhecida, em decorrência da capacidade de organização, a ponto de em 1920 seu nome ter sido avaliado para candidatar-se à Casa Branca.

Entre 1920 e 1921, ele tinha dois convites à mesa: um do grupo Guggenheim para tornar-se diretor do setor de mineração e outro para ser Secretário/Ministro de Comércio. Aceitou este, apesar do salário ser cerca de 30 vezes menor que o daquele, afora os eventuais bônus.

Roosevelt, historiador por Harvard, frequentou direito em Colúmbia, mas sem concluí-lo, vez que passaria no exame de admissão da ordem dos advogados. Logo após, decidiria ingressar na política, ao disputar o senado estadual. Renunciaria menos de dois anos depois para ser o comandante-adjunto da Marinha, posto que civil.

No cargo, acompanhou próximo a I Guerra Mundial. Ao retornar da França em setembro de 1918, descobriu estar com a ‘gripe espanhola’ – nome controverso até os dias atuais - e quase faleceria na viagem. O próprio Wilson teria a doença, ocultada dos jornais por questão de segurança nacional.

1921 foi momento marcante para FDR: sairia da vida pública temporariamente, após a derrota dos democratas na Casa Branca, e contrairia pólio ao veranear com a família no Canadá, ainda que hoje se acredite ter sido outra doença. Em 1929, seria eleito governador de Nova York.

Em 1929, Hoover e Roosevelt começavam suas gestões. Os anos 20 assinalavam prosperidade inédita nos Estados Unidos, com consumo recorde de automóveis, telefones, eletrodomésticos etc., a despeito de parte da população estar sob severas leis de segregação.

Com a afluência, a especulação também aumentou e seduziu segmentos da sociedade, em especial a classe média. Pessoas hipotecavam imóveis – às vezes, o único da família - e com o dinheiro obtido investiam em ações, cujas cotações elevavam-se de maneira geral até o baque da bolsa de Nova York em outubro.

Hoover de início ajudou estados, corporações e bancos, reduziu impostos e estimulou obras públicas como represas e rodovias. Ele acreditava que a depressão estaria superada em menos de um ano. Antes do impacto negativo da bolsa, estimava-se que a taxa de desemprego estava entre 3% e 4%; em 1932, ela se encontraria próxima de 25%.

Hoover adquirira fama de eficiente desde 1900 quanto ao auxílio de necessitados. Na China, quando houve a Revolta dos Boxers ou da Sociedade dos Punhos Harmoniosos; na Inglaterra, no alvorecer da I Grande Guerra.
Depois, nos Estados Unidos, como responsável pela assistência aos europeus, alemães e russos inclusive, e pela Secretaria/ Ministério de Comércio, ao trabalhar pela melhora de condições de trabalho nas fábricas. O cabedal político durante mais de 25 anos o habilitou a disputar com êxito a presidência da república.

Contudo, diante da (grande) depressão, ele não teve a mesma presciência, de sorte que o povo logo desanimaria em função de sacrifícios tão extensos sem o amparo e o estímulo adequado por parte do governo federal, convicto de ser o revés passageiro.

Roosevelt, por outro, foi incisivo no enfrentamento da questão, ao estabelecer a Agência de Auxílio Emergencial e Temporário que estenderia socorro a mais de um terço da população do estado de Nova York. A repercussão positiva ajudaria a ser o nome democrata em 1932.

Enquanto Hoover acreditou que a superação da crise viria quase por si, haja vista a observação de ciclos econômicos anteriores, Roosevelt enxergou que, para aquele momento, outra forma de atuação se impunha, de modo que, ao vencer o pleito presidencial, ele já tinha o ‘rascunho’ do Pacto Novo (New Deal): as medidas implementadas em Nova York, epicentro da depressão, em sua gestão.

Ao aperfeiçoar e ampliá-las na Casa Branca, com o importante auxílio de professores oriundos de instituições de porte como Harvard e Columbia, elas seriam decisivas para a recuperação socioeconômica do país e para a preservação da democracia diante do robustecimento de regimes autoritários na Europa.

 

Virgilio Arraes

Doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.

Virgílio Arraes

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