Donald Trump: a interrupção do extremo conservadorismo norte-americano


Em novembro de 2016, a vitória de Donald Trump sobre Hillary Clinton assinalou um padrão inesperado na campanha presidencial norte-americana. O republicano, outrora democrata, superou a oponente com críticas à globalização e ao belicismo, estandartes consagrados da política exterior do país, a despeito de quem estivesse à frente da Casa Branca.

À primeira vista, tais julgamentos sobre a postura costumeira de Washington seriam conectados a segmentos de pouca representatividade nos democratas, embora progressistas, e em outras agremiações de menor expressão, mas chamariam a atenção dos meios de comunicação naquela altura, até pela maneira histriônica de Trump ao enunciá-los.

A classe média empobrecida e desesperançada concedeu aos republicanos os suficientes votos da vitória, em especial a das áreas noutro tempo industrializadas e afluentes como parte do nordeste e do centro-oeste do país. Naquele momento, a caracterização de questionador do sistema beneficiou-o, apesar da polêmica em torno de seus negócios e de suas reais convicções políticas.

Em 2016, o produto interno bruto (PIB) estadunidense, de acordo com o Banco Mundial, mal superou um por cento e meio, depois de quase chegar a três por cento no ano anterior. Portanto, a perspectiva de um terceiro mandato aos democratas seria difícil, malgrado se reconheça que o índice de desemprego se reduzia de modo gradativo desde o final de 2010.

Na política internacional, a corrosão continuou por causa da instabilidade no Oriente Médio e cercanias – frustração das populações com a Primavera Árabe, guerra civil na Síria, estada, mesmo reduzida, de efetivos norte-americanos no Iraque e no Afeganistão – da oficiosa disputa comercial com a China, do desinteresse político com a América Latina e com o Caribe, à exceção de Venezuela e Cuba etc.

Com o republicano à testa do poder em janeiro de 2017, declarações controversas ao público seriam constantes, até com grosserias a dirigentes de países aliados como Grã-Bretanha ou Alemanha e com o menosprezo ao crescente aquecimento global, enquanto reformas internas necessárias como as da imigração, de sorte que se regularizasse de maneira definitiva a presença de milhões de pessoas lá de todo o planeta, da saúde – alto preço de remédios para grande parte do povo, carente de assistência médica - e da tributação – taxar mais os de renda maior - não avançariam.

Trump demonstrou pequeno apreço por acordos ou organismos internacionais tais como a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) ou o próprio Tratado Norte-Americano de Livre Comércio (NAFTA). No plano interno, outrossim, faltou-lhe empatia com as vítimas da violência policial e com seus familiares. A despeito dos amplos e contínuos protestos populares, ele manteve o comportamento inadequado.

Sua contumaz soberbia contribuiu para levá-lo ao patíbulo de um processo de destituição em dezembro de 2019 por abuso de poder e desrespeito ao parlamento; no entanto, seria salvo da execução em poucas semanas por conta da maioria dos votos no Senado ser de sua agremiação. Com isso, não seria possível alcançar os dois terços necessários para o afastamento definitivo.

No Brasil, alguns se iludiram ao acreditar que seria possível uma aproximação maior com os Estados Unidos nos últimos dois anos, via bajulação incomum de dirigentes e alardeio sem trégua de ideologia conservadora compartilhada – embora isso não tenha sido inédito, haja vista a tentativa da ditadura militar durante a década de sessenta, que jamais trouxe os resultados aguardados.

Propagandear uma suposta relação próxima ou admiração entre mandatários impressiona o eleitorado no dia a dia, porém por curto tempo.

A postura diplomática norte-americana é a de pragmatismo, herdada da britânica. Não importa a ela a rubrica partidária ou a convicção do chefe de Estado de determinado momento. Caso seja necessário, agrados públicos como declarações ou fotos conjuntas ocorrerão.

Se partidários do atual governo brasileiro decepcionaram-se com Donald Trump, por não corresponder política e economicamente ao esperado, os de gestões passadas também. Basta citar o impacto das memórias do presidente Barack Obama, lançada no segundo semestre de 2020.

Mesmo diante do desgaste do quatriênio, os republicanos esperavam obter a reeleição, dada a ausência de oponentes à altura – Sanders e Biden, postos de lado na eleição de 2016, se destacavam por não haver o que perder em uma disputa como a da Casa Branca.

Todavia, o injustificável posicionamento de negação de Trump dos efeitos nocivos do espraiamento acelerado do vírus corona acarretar-lhe-ia o isolamento no cenário internacional e de maneira paralela a perda do pleito presidencial. À proporção que o vírus se disseminava, a desilusão dos habitantes o acompanhava.

O índice de desemprego baixo deixaria de continuar em pouco tempo; o crescimento da economia não ocorreria e sem planos de saúde, em função dos preços, dezenas de milhões de norte-americanos não poderiam receber tratamento apropriado se infectados.

Com a continuidade da pandemia, os republicanos não souberam se contrapor a isso. Em face da derrota eleitoral em novembro, mantiveram até dezembro a teatralidade de não aceitar o resultado final. A poucos dias da saída da Casa Branca, eles recobraram de forma tardia parte da consciência pública: iniciaram a vacinação da população. Que sirva de exemplo a governantes da América do Sul.

Virgílio Arraes

Doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.

Virgílio Arraes