Momentos desafiantes

A Reforma Administrativa e a classe trabalhadora brasileira - Universidade  à Esquerda
Por incrível que possa parecer, a situação política de um número razoável de países do mundo aponta para condições que lembram o ambiente econômico, social e político dos anos 1940: tendências mundiais e locais fascistas, forte ofensiva do capitalismo para elevar suas taxas de lucro, e preparativos e ameaças de transformar disputas econômicas e comerciais em ações bélicas. Na atualidade, ingressar numa guerra com armas que podem simplesmente transformar a humanidade em história passada.

No Brasil, o governo Bolsonaro se empenha, por um lado, em demonstrar subserviência ativa e completa aos Estados Unidos trumpista e, por incrível que pareça, até em casos que prejudicam a grande burguesia agrária, como é o caso da importação do etanol norte-americano. Por outro lado, o governo mantém certa atitude “diplomática” em relação à China.

Afinal, o acirramento do anticomunismo governamental brasileiro nas relações com aquele país pode causar o caos nas exportações brasileiras e, também, prejuízos consideráveis nos investimentos provenientes do exterior, assim como na importação de alguns produtos vitais para o atual momento de pandemia descontrolada, a exemplo das vacinas contra o coronavirus.

Para complicar, a situação de isolamento público no combate ao Covid19, assim como a ausência de sistemas e redes de comunicação mais amplos, diversificados e eficazes, por parte das oposições mais firmes ao governo protofascista, têm impedido um aproveitamento mais eficaz das contradições que envolvem as tentativas ditatoriais bolsonaristas, assim como os planos neoliberais da burguesia.

Há pouca comunicação oposicionista, seja para aprofundar a crise do lavajatismo, seja para denunciar a retomada das ações que atropelam as leis em vigor, assim como para esclarecer com mais empenho a irrupção de inúmeros casos de corrupção explícita nas hostes governamentais, e para esclarecer a miríade de diretivas econômicas que, além de não conseguirem levar adiante as reformas neoliberais desejadas pelas burguesias dominantes, estrangeiras e nacionais, estão promovendo um verdadeiro nó de marinheiro na economia nacional.

Paralelamente a isso, por incrível que possa parecer, uma das tendências visíveis em algumas das oposições democráticas e populares presentes no atual cenário político brasileiro, tem se orientado no sentido de isolar o PT. De certo modo, por considerá-lo carta fora do baralho da política nacional, ou, em grande medida, por considerar que a direção desse partido parece não saber para onde ir.

É evidente que a proclamação de Lula foi uma demonstração de que ele e o PT ainda representam uma força com perspectiva positiva. E que a tentativa de elaborar um programa de mudanças democráticas e populares para o país representou um passo positivo em relação ao futuro. No entanto, a evidente ausência de um plano de difusão, discussão e mobilização em tal proclamação e tal programa, tarefa normalmente a ser cumprida pela direção partidária, parecem uma demonstração evidente de algum desligamento, não só entre a direção petista e suas bases, mas também entre essa direção e sua liderança mais importante.

Em outras palavras, diante do crescimento das condições que apontam para situações perigosas pela frente, tanto nacionais quanto internacionais, torna-se cada vez mais evidente uma situação em que o petismo parece não conseguir acertar as contas com seus erros políticos gerais. Isso é especialmente evidente no distanciamento do trabalho diuturno com as principais camadas da base social do país, ocorrido no curso dos últimos 20 anos, assim como em sua incapacidade de construir uma estrutura de comunicação que, pelo menos, consiga orientar e congregar seus quadros dirigentes e uma parcela significativa da militância de base.

Por incrível que possa parecer, o petismo parece incapaz de compreender alguns dos principais desafios da atualidade, em especial a necessidade de realizar um forte redirecionamento de sua direção no sentido da militância de base e das grandes camadas de trabalhadores (tanto empregadas quanto desempregadas). O que inclui empreender pesquisas constantes sobre as atuais condições reais de vida dessas camadas e, com base nos resultados de tais pesquisas, tomar o trabalho de organização e luta delas como núcleo principal das atividades partidárias.

Sem se voltar para tais camadas sociais, e para o trabalho constante entre elas, não será possível superar o vácuo que se criou desde que a direção petista decidiu dar prioridade absoluta às atividades institucionais, parlamentares e governamentais. Afinal, faz parte da experiência histórica o fato de que a construção da unidade de ação das camadas populares, através de suas lutas locais, é a base para a construção da unidade política de enfrentamento global contra a exploração capitalista, e contra as atuais tentativas governamentais de liquidar os direitos democráticos e impor um regime fascista ao país.

Sem lutas locais disseminadas, que coloquem em evidência prática as questões políticas gerais, torna-se difícil construir a unidade com outras forças políticas de esquerda, mesmo em âmbito municipal. Ao mesmo tempo, é esse vácuo de ações populares de base que facilita a criação de teorias diversas a respeito da possibilidade de alianças com forças do centro e mesmo da direita, inclusive bolsonaristas, por incrível que isso seja.

Dizendo de outro modo, a ausência de um pensamento comum, que tenha por base a luta prática e disseminada das camadas populares da sociedade contra a ação diária da burguesia capitalista e de seus representantes políticos, acaba por produzir pensamentos e ações que mistificam os reais inimigos, confundem os aliados, e acabam produzindo resultados contrários aos reivindicados pelas grandes massas trabalhadoras da população.

É provável que os resultados das eleições municipais deste ano coloquem em evidência tais debilidades e fraquezas políticas apontadas acima e, também, em sentido contrário, as potencialidades que tiveram por base um trabalho de base consistente e duradouro. Com isso, sempre sobra a esperança de que renasça no petismo a capacidade de analisar criticamente os resultados eleitorais e suas consequências políticas na luta geral contra as atuais ameaças à frágil e incompleta democracia brasileira.

Wladimir Pomar

Escritor e Analista Político

Wladmir Pomar

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