Correio da Cidadania

Dois métodos e uma decisão: a poesia do futuro ou os fantasmas do passado?

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Lênin em Górki, entre agosto e setembro de 1922. Fotografia retirada do caderno de imagens do livro Reconstruindo Lênin: uma biografia intelectual, de Tamás Krausz


“Já é tempo de renunciar à ideia de que esse manual
tinha previsto todas as formas de desenvolvimento futuro
da história mundial. Já é tempo de declarar aqueles que
pensam desse modo como simples imbecis”.
Vladímir Lênin, sobre o Manual de Kautsky, em janeiro de 1923.

Uma das principais diferenças entre as revoluções no geral e a revolução proletária é o papel representado pelos chamados fatores subjetivos, isto é, o papel dos seres humanos que conscientemente querem transformar o mundo.

Sabemos que toda revolução é a combinação de determinações objetivas e subjetivas. No entanto, no caso da revolução burguesa presenciamos um longo processo histórico no qual as condições de seu domínio econômico antecederam os movimentos políticos que a levaram ao poder. Já no caso da revolução proletária, ainda que a materialidade aponte para a base sobre a qual será possível desenvolver novas relações sociais, vemos uma dura e persistente luta em condições materiais nas quais os trabalhadores não podem exercer ainda sua predominância econômica, uma vez que isso exige mudanças significativas nas formas de propriedade e nas relações sociais, o que por sua vez pressupõe a derrota política da atual classe dominante.

Isso implica em uma dimensão muito mais acentuada do fator consciente, e um verdadeiro problema para quem quer mudar o mundo. Marx intui esse fato de forma bem precisa em seu O 18 de brumário de Luís Bonaparte quando afirma que a revolução proletária não pode tirar sua poesia a não ser do futuro. Nas suas palavras: “ela não pode começar a dedicar-se a si mesma antes de ter despida toda a superstição que a prende ao passado”. (p. 28).

Ocorre que os seres humanos enfrentam os problemas que se impõem com as armas e os meios dos quais dispõem no momento – não podem ir buscá-las no futuro, como dizia Brecht, sendo assim obrigados a comer a nova carne com velhos garfos. Quando nós, os velhos seres humanos da ordem do capital, travamos nossa luta contra essa ordem e buscamos construir o futuro, corremos o risco de recriar o passado em nova forma. Mas, como reconhecer o que é velho e deve ser superado e o que é novo em nossa construção do futuro?

Estamos convencidos de que essa tarefa exige um caminho e ferramentas precisas, isto é, requer um método adequado que nos foi legado por Marx, Engels e aqueles que os seguiram nessa estrada. Não somos idealistas e, portanto, não acreditamos que um método filosófico pode mudar mundo, mas alimentamos a certeza, duramente aprendida nos ensinamentos da história, de que sem um método adequado estamos condenados a cair em armadilhas do passado que se reapresenta.

Lênin, sem dúvida, foi um dos revolucionários em que as duas dimensões da ação revolucionária se encontram de maneira mais precisa, tanto a clara compreensão da teoria revolucionária como da dimensão prática e suas armadilhas. No entanto, diferente das visões mistificadas e ideológicas, Lênin não nasceu com essa capacidade teórico/prática, era, como todos, filho do seu tempo e o trazia marcado em sua subjetividade.

Ele mesmo nos descreve em seus estudos filosóficos o quanto o estudo da dialética hegeliana foi essencial para a compreensão precisa do método e as implicações práticas que pode gerar. Podemos medir o impacto da apreensão correta da dialética em Lênin em momentos marcantes como as Teses de Abril, ou na afirmação, posterior à revolução ao falar com jovens comunistas, que o verdadeiro marxista deveria formar uma espécie de clube de amigos materialistas da dialética hegeliana.

Em outra passagem, de forma ainda mais incisiva, Lênin dizia que “é impossível compreender completamente O capital, de Marx, sobretudo o capitulo 1, sem ter estudado a fundo e sem ter compreendido toda a Lógica de Hegel. Como consequência, meio século depois, nenhum marxista compreendeu Marx!” (Cadernos filosóficos, p. 191)

O que nos interessa diretamente aqui não é a exigência incontornável da dialética no método de conhecimento da realidade, mas sua implicação na ação política. Podemos ver esse fator de forma clara na polêmica sobre o Estado e a participação ou não no governo provisório, ou na definição do caráter desse governo, ou ainda na avaliação da política de alianças com os camponeses e na definição do momento da insurreição. Escolheremos como objeto de nossa reflexão aquilo que denominamos “método político” – isto é, Lênin como dirigente bolchevique no terreno duro e árido de momentos revolucionários decisivos, seja no caminho do poder, seja na construção do socialismo.

Uma leitura atenta de seus cadernos filosóficos permite compreender que Lênin via como um dos fundamentos mais essenciais à compreensão da dialética a unidade e a identidade dos contrários. Como a contradição é o fundamento do próprio movimento, ela se apresenta como absoluta, mas é acompanhada de seu oposto, a unidade e identidade dos contrários (sempre relativa, temporária transitória etc.).

O subjetivismo, o dogmatismo, a sofística e outras formas não dialéticas dela se distinguem segundo o autor pelo fato de que na dialética a diferença entre o relativo e o absoluto é ela mesma relativa, isto é, no relativo há o absoluto e no absoluto há o relativo, enquanto que para o subjetivismo só há o relativo e para o dogmatismo só há o absoluto.

Quando observamos tal fundamento na prática política, vemos um dirigente que, ainda que extremamente duro e implacável na defesa de suas posições e na polêmica com seus adversários, compreendia as diferentes posições apresentadas como aspectos diversos da realidade que constituíam as forças em luta num jogo de contradições, que encontrava sua unidade numa síntese que deveria apontar o caminho a seguir.

Assim, por exemplo, defende a necessidade da insurreição proletária tomar o poder na janela de oportunidade que se abria depois das jornadas de junho, e nisso polemizava com Trótski, que apresentava a necessidade de fazê-lo com o apoio dos sovietes, que naquele momento insistiam na defesa do governo provisório. Podemos ver duas posições que se excluem mutuamente, ou ver, como Lênin, uma contradição e relações recíprocas entre elas.

A síntese não é uma mera combinação entre duas posições. A urgência da tomada do poder impõe a ação militar e sua dinâmica própria e, portanto, a busca do apoio político dos sovietes tem que se dar no tempo da insurreição, mas deve ser buscada como uma condição importante para a consolidação da ação militar.

Em outro exemplo, podemos ver a intensa polêmica sobre a forma de gestão das fábricas, debate no qual se chocam as posições de Trótski, Kollontai e Lênin. Podemos entender a contraposição da militarização dos sindicatos à tese do controle operário defendida pela oposição operária, como um contraponto de duas posições antagônicas. A posição de Lênin, que implicava na defesa da gestão de um homem só (que a meu ver estava equivocada e traria efeitos muito negativos no seu desenvolvimento(1)), não é um mero acordo entre as duas posturas, mas a tentativa de uma síntese que implica nos elementos essenciais apresentados, ainda que sempre há de predominar um aspecto sobre o outro (neste caso a determinação do “controle operário” e não do “poder operário”).

O importante a ser ressaltado naquilo que estamos chamando de método político, é que ao final da polêmica os interlocutores continuam vivos, mais que isso, assumem tarefas no sentido dos aspectos que apontavam como necessários, como a busca do apoio político dos sovietes por Trótski e do fortalecimento das comissões de fábricas e sindicatos por Kollontai.

Agora imaginemos um método diferente. Imaginemos uma polêmica na qual um determinado dirigente não expõe suas posições, manobra e navega utilizando as contradições dos envolvidos, mais para desacreditá-los do que para apontar problemas em suas formulações, para ao final, uma vez derrotados seus opositores, assumir na essência a proposta dos derrotados como se fosse sua.

Um método que busca se cercar daqueles que pensam de forma igual, que elimina o dissidente, que se utiliza de aliados para depois descartá-los como inimigos, ainda que para tanto tenha que usar da manipulação, da falsificação e da mentira.

Um método que precisa esconder seus erros e falhas, transformando-os em geniais e heroicos desfechos, enquanto culpabiliza bodes expiatórios descartáveis. Para tanto é essencial a mistificação, a personalização do líder infalível, do guia genial. O primeiro método político podemos ver claramente em Lênin, o segundo encontra em Stálin sua precisa personificação, e no stalinismo todas as nefastas consequências teóricas e práticas.

Enquanto em Lênin encontramos a dialética viva em sua plena manifestação (o que não implica que não haja erros e desvios), em Stálin presenciamos uma negação expressa da dialética, uma positivação dogmática, a volta de esquemas, leis gerais, princípios imutáveis. Essa miséria teórica se expressa em várias formas. Destacamos aqui apenas duas: a separação esquemática e antidialética entre o chamado materialismo histórico e o dialético – na verdade uma forma de erradicar a filosofia do método (como apontaram corretamente Korch e Lukács) –, e a criação de uma verdade oficial e um parâmetro de julgamento do que seria o “verdadeiro marxismo” na forma do “marxismo-leninismo”, que tem pouco ou nada a ver nem com Marx nem com Lênin.

No entanto, não se trata de mero desvio cognitivo derivado de uma adesão acrítica a um método desfigurado em seus fundamentos, uma vez que, concordando com José Paulo Netto, o chamado “marxismo-leninismo” se converte em uma ideologia. Nas palavras dele:

“O resultado desse processo conduz a um marxismo teoricamente tão estreito e vulnerável quanto o da Segunda Internacional, mas socialmente mais degradado: agora, ele é objeto de uma lógica de deformações que, facilitada pela via burocrático-administrativa, transita francamente para o arbítrio e a falsificação” (José Paulo Netto, Capitalismo e reificação, 2015, p. 44).

Uma ideologia, no sentido preciso de Marx, tem por elementos essenciais a ocultação, a inversão, a naturalização e a legitimação, de maneira a apresentar o interesse particular como se fosse geral. Nesse sentido, o stalinismo é uma ideologia que “convalida uma determinada estratégia política (de poder)”.

Era necessário ocultar as contradições próprias da transição socialista atrás do biombo da inexorável marcha da história, produzir inversões de modo a afirmar que é o Estado que conduz a sociedade e não a sociedade que se expressa em formas políticas, assim como substituir a classe pelo partido, este pelo seu bureau político, depois por seu secretário geral, o guia genial e infalível.

Torna-se fundamental naturalizar todo o processo para legitimar a burocracia, e suas funções pretensamente essenciais à marcha da história, ainda que sobre os corpos daqueles que a construíram (2). O sentido mais profundo dessas ocultações, inversões e legitimações é apresentar os interesses particulares da burocracia como se fossem os interesses gerais do proletariado.

Uma vez que rejeitamos as visões psicologizantes que procuram atribuir tal desvio unicamente à personalidade de sua principal personificação, ainda que tais características tenham contribuído para a adequação do personagem ao fenômeno, devemos nos perguntar sobre as determinações desta deformação.

Há um evidente parentesco entre as formas mais determinantes da sociedade czarista e as formas políticas expressas no stalinismo (o culto à personalidade e sua infalibilidade, a excessiva centralização e a onipresente burocracia que assim se exige, o culto da superioridade russa, a proteção do líder mítico e o descarte dos bodes expiatórios, entre outros aspectos), da mesma forma as deformações positivadas que agora se expressam de forma mais insidiosa, já estavam presentes na Segunda Internacional (como o evolucionismo, o etapismo, o economicismo vulgar etc.). No entanto, todos esses aspectos estavam presentes também em Lênin e nos demais bolcheviques. Da mesma forma as condições materiais adversas nas quais a transição foi obrigada a se realizar joga papel decisivo na forma e no conteúdo das deformações verificadas.

Ocorre que sobre essa materialidade, herdada do passado e que constitui o campo prático em que somos obrigados a atuar, os seres humanos agem orientados por sua consciência, constituída de valores, representações e ideias (entre elas a teoria que escolhem como sua) e essa representação ideal não apenas corresponde à materialidade da qual derivam, como também das contradições que indicam os caminhos possíveis do devir.

É neste ponto em que uma visão dialética pode ser um diferencial importante, nos permitindo ver na contraditoriedade do real os caminhos de sua superação, identificando as armadilhas de um passado reapresentado como se fosse o novo. O método político de Lênin, pleno de todas as contradições entre o velho e o novo, aponta para a poesia do futuro, enquanto o stalinismo enquanto método político é a conjuração de um passado mal superado. Não se trata do passado czarista, mas do passado em geral, das mazelas da pré-história da sociedade, da divisão antagônica da sociedade em interesses opostos de classe, do fetichismo e da alienação.

A vantagem de se abordar nesta perspectiva é que assim compreendido o stalinismo pode se desvencilhar de sua forma imediata e ser identificado, em sua substância, em manifestações insuspeitas de práticas políticas nefastas que infestam a luta de classes contemporânea, com seus novos cultos a personalidades, seus mitos de líderes infalíveis cercados de asseclas irresponsáveis, o apagamento e a falsificação histórica, a manipulação que visa destruir as pessoas e não debater suas ideias, as taras burocráticas que querem abolir a contraditoriedade do real a golpes de votação e formação de maiorias.

A decisão importante para nós que queremos mudar o mundo é qual método escolheremos com todas as dimensões práticas, políticas e éticas que tal decisão envolve. Não se trata, portanto, de reabilitar ou demonizar uma figura histórica, buscando infantilmente os lados bons ou obscuros do personagem, mas de uma autocrítica necessária e urgente que possa mudar nossa forma de ser no presente e na direção que construímos nosso futuro.

Neste sentido não há e não pode haver conciliação possível com o stalinismo, em suas velhas ou novas formas, que não escorregue inevitavelmente no pântano da justificativa e da legitimação de erros e crimes que não podem ser esquecidos.

Dizem haver uma polêmica sobre Alexandre, o Grande: se ele foi um civilizador que levou a cultura helênica para o mundo conhecido ou um bárbaro e brutal conquistador, implacável e sanguinário. Todos sabem, no entanto, que uma coisa é certa: todos aqueles que ele matou continuam mortos.

Nota:

1 Ver, a este respeito, meu artigo “La Revolución rusa y los próximos cien años“, em: 100 años de revoluciones y golpes – Simpósio Internacional, diciembre de 2017, (Assunción: Germinal, 2018), pp. 13-44.

2 “Nas farsas judiciárias montadas, os “Processos de Moscou”, foram condenados como traidores comunistas sinceros e abnegados como Zinoviev, Kamenev, Piatakov, Radek, Rakoviski, Bukharin e Ricov […] Uma ilustração: 70% do Comitê central eleito no XVII Congresso, de janeiro-fevereiro de 1934, foram presos”. José Paulo Netto, 1981, p. 42.


Mauro Iasi é professor adjunto da Escola de Serviço Social da UFRJ, pesquisador do NEPEM (Núcleo de Estudos e Pesquisas Marxistas), do NEP 13 de Maio e membro do Comitê Central do PCB.
Publicado originalmente em Blog da Boitempo.

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