Com vocês, a Namoradinha de Auschwitz - e outras histórias

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Créditos: Nando

Crônicavírus in Brazil 3

A primeira semana de maio nem acabava e uma inserção bem particular do programa do Palhaço Bozo em um canal satélite, cujos donos e diretores são amigos pessoais do nosso palhaço e sua familícia (importante lembrar), roubou a cena de maneira espetacular e precisou de um pouco mais de espaço em nossa série de crônicas.

E isso ocorreu em um momento muito interessante, no qual a Rede Goebbels escolheu apoiar a transmissão de um virtual futuro programa de palhaçadas, supostamente protagonizado pelo recém demitido Super-Pato, ao invés do Palhaço Bozo, dada a decadência deste último. Dessa forma, tem dado menos destaque ao programa de Bozo do que dava na época de sua ascensão, o que divide a audiência e causa a ira do nosso palhaço, de sua Loucademia de Milícia e seus fãs.

Quem diria que a Rede Goebbels, assim como o nazismo, seriam de esquerda? “Fogo no soviete do Jardim Botânico!”, teria gritado um ‘gordinho-selva’ qualquer por aí.

E no meio disso tudo, as piadas do Super-Pato após sua demissão quebraram a grande audiência do Palhaço Bozo no meio. Ele saberia de um vídeo de uma reunião da produção, onde Bozo teria entregado sua preocupação com a segurança dos seus três bozinhos e, com isso, promete sacudir a próxima semana no New Brazil.

De toda forma, essa perda de prestígio da Rede Goebbels rendeu até mesmo uma interferência na transmissão do seu principal telejornal no exato momento em que falaria sobre o vídeo do Palhaço Bozo. Liberem o vídeo pelo bem do New Brazil! A piada precisa continuar!

Mas logo falaremos mais do Palhaço Bozo. Voltemos ao quadro adjacente do qual falávamos, pois nele foi entrevistada a maravilhosa, a única... ninguém mais, ninguém menos que ela, a nossa Namoradinha de Auschwitz!

Ela que há pouco assumira seu lugar como diretora cultural do programa do Palhaço Bozo no lugar do diretor antigo, o Amiguinho de Auschwitz, que acabou muito criticado após um quadro de humor exibido com maestria pouco antes do Cronicavírus chegar e nos tomar de assalto, como se fosse um cabo e um soldado no STF. Mas de todo jeito, com a chegada da nossa musa da tortura (física e mental), a direção cultural do programa continuou com a mesma relevância e nível. Tudo em casa, e o trabalho liberta! – como diriam os cartazes no portão.

A conversa, cheia de piadas de muito mau gosto, era esperada pela audiência, pois a nova diretora devia algumas explicações sobre seu sumiço, após trágicos eventos devastarem a cultura nacional. Entre eles a morte do gênio(*1) que inventou o conceito de Brazil que usamos nestas crônicas, como de outros grandes mestres que nos deixaram por conta da pandemia e não receberam a mesma palavra de carinho da nossa namoradinha, como receberam alguns senhores, não tão gênios, nem tão importantes assim.

Mas o que vocês e a maioria da audiência talvez ainda não tenham entendido é que no New Brazil nada disso importa. “E daí? Não queremos carregar um cemitério nas costas”, oras bolas! E quem gosta de osso é cachorro, tá oquei? E a plateia vai à loucura. Vai entender...

Antes de irmos propriamente à entrevista da Namoradinha de Auschwitz, é digno de nota ainda o comentário de um dos generais da produção do programa do Palhaço Bozo sobre o quadro. “A Namoradinha de Auschwitz demonstrou quem ela é: uma pessoa sensível, humana, doce e preocupada com o New Brazil”, declarou no último final de semana para a imprensa soviética que insiste em não aderir aos bons modos da nova ordem – ainda que demonstrem ter estômago pra isso.

A entrevista com a Namoradinha de Auschwitz

Pois bem, a participação da Namoradinha de Auschwitz já começou no melhor estilo New Brazil: com declarações de afeto entre entrevistador e entrevistada, elogios à diferença de opinião e bom humor ao se vangloriar da habilidade de ‘desviar das pedras’. Dito e feito.

É claro que tudo isso devia ser refogado com a declaração de que se sentiu representada e sensibilizada por um poema do Virjão da CNN, um dos nossos expoentes de intelectualidade do New Brazil ao lado dos estimulantes liberais da 5a C, Gordo Selva e Loira do Banheiro Nazista (ver edições anteriores). Dizia o poema:

Cronicavírus quando nasce
Faz parar o coração
Namoradinha de Auschwitz
Fecha um monte de caixão

E bem, me recuso a reproduzir o restante da obra, mesmo com o ódio-criativo que a quarentena me proporciona estando ‘a milhão’(sic). E de repente ainda podem me cobrar os direitos autorais. Mas a Namoradinha de Auschwitz se derreteu ao vivo com tanta doçura e disso precisamos nos lembrar. Foi de encher o coração.

“Cara, desculpa, vou falar assim... na humanidade não para de morrer gente”, respondeu com o sorriso de uma docilidade sem-igual ao questionamento do repórter-amigo sobre seus chefes exaltarem o obscurantismo de outrora no programa do Palhaço Bozo. O repórter, sem jeito, não conseguiu fazer nada além de abrir um sorriso amarelo e refazer a pergunta de uma maneira ainda mais docilizada.

Ao que respondeu: “Sempre houve tortura, meu Deus! Stalin! Hitler! Não quero pensar nos mortos do passado, meu Deus! Vocês carregam um cemitério nas costas, poxa vida! Estamos leves, vivos, por que olhar pra trás? Meu Deus”, e após repetir “meu deus” por três vezes, como se fosse uma profecia bíblica, o quadro foi ficando cada vez mais dramático sempre que ela era indagada sobre sua falta de empatia com a violência estatal que permeia as histórias tanto do Brasil, quanto do New Brazil – e que seu programa de palhaçadas insiste em escarnecer, ou melhor, ‘escrotizar’, nas palavras do Palhaço Bozo.

Assim, a dramatização foi aumentando até que veio a explosão. “Deixem a minoria gritalhona pra lá”, bradou. Afinal de contas, nada disso estava combinado. É um verdadeiro absurdo esse relaxo do roteirista! Concordo contigo, Namoradinha.

Mas como a senhora disse, a primeira instrução a gente nunca esquece, não é mesmo? Não esqueceremos, e daqui alguns anos quando gravarmos A Gambiarra da Destruição, um documentário sobre o programa do Palhaço Bozo, espero que a senhora possa atuar no próprio papel. Seria enriquecedor.

Churrasco dos 10 mil no Jet Ski

Mas o Palhaço Bozo também aprontou das suas. Ainda no final de semana do dias 9 e 10 de maio cumpriu sua promessa de comemorar as 10 mil mortes por cronicavírus in Brazil com um churrasco. E o fez com uma graça tremenda e digna de um meme decadente como ele é: em cima de um jet ski.

Isso porque havia anunciado o churrasco dias antes em uma das piadas do seu programa, para desviar o foco de alguma paspalhice mais séria, e após muitas críticas, apontou que não o faria mais. E sua audiência, muito frustrada com a negativa, não tomou as ruas nesses dias com o mesmo entusiasmo e falta de medicamentos psiquiátricos como nos outros finais de semanas de pandemia.

Mas como o grande palhaço que é, Bozo surpreendeu a todos com suas trapalhadas em cima do jet ski. Montado sobre as águas, encostou na lateral de um iate onde haviam pobres e sofridos empreendedores, que vão de mal a pior com a quarentena, tadinhos, como pudemos ver. De um deles o Palhaço Bozo ganhou seu pedacinho de carne na frente das câmeras, lembrando a todos nós que devemos nos unir em torno de tão linda solidariedade entre seres humanos.

“Todo mundo vai ser infectado, mas não dá nada”, disse Bozo tirando risos dos homens do iate, que tinham um quê de mercenário americano do filme Bacurau da Vida Real.

A audiência foi ao delírio! E esse quadro do programa de fim de semana superou em muito as piadas e palhaçadas do início da semana. Suas aparições também estiveram moderadas, relegando a seus grotescos personagens secundários o protagonismo do show nesses dias. Isso porque as piadas sobre os três bozinhos que o Super-Pato afirmou ter em fita realmente fizeram o Palhaço Bozo pensar em como o atacaria em seguida.

Pensava, é claro, no contrato de seu programa que logo poderia sofrer tentativas de quebra na Justiça comum. Afinal de contas, tratar uma coisa tão banal como uma pandemia com alguma seriedade jamais passaria pela cabeça dos roteiristas de um programa tão vulgar de palhaçadas televisivas.

Os 299 do New Brazil

União Bozo-Moluscowski? Os liberais da 5a C bem que tentaram e já saíram disparando suas sandices em forma de piada nas redes. Mas o rápido humor pueril dos jovens liberais estridentes logo perdeu a graça com o advento dos 299 do New Brazil, coordenados sob a voz da nossa já conhecia Loira do Banheiro Nazista. Mesmo sendo grandes expoentes da intelectualidade do New Brazil, os liberais da 5ª C vão ficar para uma próxima. Se houver...

Pois bem, eram os 300 do New Brazil até que um dos seus líderes, o Sargento Bigode, uma figura grotesca das pantanosas redes sociais bozistas, acabou contraindo cronicavírus e desfalcou a mais nova milícia democrática, que teve de mudar de nome, mas não trocou seus pertences e segue acampada em frente aos estúdios do Palhaço Bozo, armada até os dentes segundo ela própria.

Seu adoecido comandante cansou de declarar na internet que coordenava comboios armados que iriam direto para o Congresso, ao lado dos Estúdios Bozo. Tamanha piada chocou a audiência, entre aprovação e rechaço, mostrando como boa parte de nós tem um apreço enorme em chafurdar na bosta. Além disso, cansou de declarar suas saudades de tempos horrorosos.

“Não, ô seu velho decrépito! Não confunda sua infância com o período histórico na qual ela se encontra!”, gostaria de lhe dizer. Mas como sabemos, no New Brazil nada disso importa.

É isso que dá esse parnasianismo da literatura do velho Brasil que aprendíamos na escola. Aquela coisa doentia da infância que não volta mais. Esse fetiche por sair com pessoas bem mais novas também pode entrar aí, assim como a neurose de boa parte da audiência em se parecer jovem eternamente. Não que funcione, mas mais nazista do que isso, impossível. Pra maioria esmagadora das crianças tanto no velho Brasil como no New Brazil a infância é dura e muito difícil. Muitas vezes com pais ausentes e passando necessidades. Infelizmente, essa falta de vergonha na cara dos arautos do New Brazil vem como apenas mais um reflexo não apenas do que somos, mas principalmente do que nos deixamos meter. Sem a menor resistência.

Da mesma forma, a presença dos 299 do New Brazil em praça pública também diz muito sobre tudo ‘isso daí’. Fora do horário do programa do Palhaço Bozo, mandaram a polícia lá averiguar a presença de armas e pedir, com educação, que aquelas pessoas saíssem de lá. Ao chegarem, senhoras em nome da Família, de Deus e dos Humanos Direitos, se ajoelharam e começaram a rogar ao altíssimo pela saída dos policiais que, por sua vez, não podiam desacatar tamanha autoridade.

Infelizmente, tamanha compreensão da autoridade divina não foi vista nas inúmeras vezes em que este escriba acompanhou senhoras do povo rogando por suas vidas em despejos de ocupações e favelas. E mais uma vez o velho Brasil e o New Brazil se fundem.

Devolvemos o 7x1 (*2)

E no mundial de Cronicavírus vamos ganhando posições. Se há uma semana nos faltavam cerca de 50 mil casos para superar nossos algozes alemães e franceses, hoje os ultrapassamos em 25 e 22 mil casos confirmados, respectivamente. Que feito: em uma semana nos livramos da final de 98 e do 7x1. Salve a Seleção!!

Entretanto, os russos também dispararam essa semana no quesito principal da competição, que são os casos confirmados, e estão 60 mil pontos na nossa frente. Ainda que estejamos jogando um cronicavírus-arte, atingindo já a marca dos 14 mil mortos, enquanto os russos têm míseros 2 mil e quatrocentos, ainda vamos demorar algumas semanas para superá-los.

Antes disso, podemos confirmar as freguesias italiana e britânica, já que com mais 30 mil casos confirmados, os superaremos com facilidade. Quem sabe na próxima crônica já tenhamos os ultrapassado. Ainda que eles tenham o dobro de mortes do que nós, seu fino da bola foi gasto nas primeiras rodadas do campeonato, e nós estamos em, pra liberal nenhum botar defeito, viés de alta. Pra frente, Brazil!

Com a mudança na direção técnica deste time promovida nesta sexta-feira pelo Palhaço Bozo, que já promete decretar o fim da quarentena no sábado em que esta crônica é publicada, temos tudo para assumir a vice-liderança em poucas rodadas e seguir o líder!

A vingança do Palhaço Bozo

Lembram-se da vingança do Palhaço Bozo? Aconteceu involuntariamente (ou não, o que é mais provável) na última sexta-feira (15), quando apareceu demitido o novo – que se tornou velho – técnico da nossa seleção em meio ao mundial de Cronicavírus. Nem os ótimos resultados que vimos na última semana o salvaram da demissão. A dança dos técnicos em meio de campeonato parece ser algo que o New Brazil importou do velho Brasil.

“Já fui atendente de farmácias em Miami”, afirmou com seriedade Eduxinho, um dos três bozinhos, pleiteando o cargo de treinador. E risos e mais risos da plateia.

O Palhaço Bozo ainda não sabe quem vai contratar para o lugar do antigo treinador, que já até esquecemos o nome. Tudo indica que ele deve contratar um dos generais de sua produção, ainda que o nazi-humorista Paulo Gordura também apareça no páreo, para acabar de vez, como vimos anteriormente, com essa piada maldita de quarentena que ele detesta.

“Não vamos ganhar o mundial com essa retranca toda”, gracejou o Palhaço Bozo.

Notas

*1: Descanse em paz, Aldir Blanc – assim como todos os outros gigantes que nos deixaram recentemente

*2: Os dados de contaminação são da última sexta-feira, 15 de maio, do site World Do Meters: https://www.worldometers.info/coronavirus/ 

Leia as outras crônicas desta série:

Cronicavírus in Brazil: tudo do pior que podemos apresentar

Cronicavírus in Brasil (2): milicianos, terraplanistas e outros seres da lata de lixo da história rumo ao Hexa!

Raphael Sanz é jornalista e editor-adjunto do Correio da Cidadania.

Comentários   

+2 #1 RE: Com vocês, a Namoradinha de Auschwitz - e outras históriasMichel dos Reis 18-05-2020 10:30
Excelente!
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