Lições de Marighella

Marighella | Trailer Oficial - YouTube

Minha dica: assista ao filme Marighella, do corajoso e talentoso Wagner Moura. Eu cresci nos anos 70 e 80 sob o trauma dos relatos e das sequelas familiares de parentes próximos feridos das mais diversas formas pela ditadura: vida desestruturada, tortura, amigos assassinados, exílio.

Conforme os anos foram passando e fui amadurecendo, não conseguia entender o que levara aqueles jovens a acreditar no impossível: que seriam capazes de, sem estrutura alguma, derrotar o Estado assassino brasileiro, financiado e apoiado pelos EUA.

A cena do filme em que Marighella e Almir (não vai ter spoiler...) convencem o Frei Henrique de que a luta armada fazia sentido ("Deu certo em Cuba e deu certo no Vietnã. Vai dar certo aqui também!") me fez entender como tudo era diferente no final dos anos 60. Havia o sonho. Era diferente e era por outro lado igual.

O sentimento de angústia das pessoas de bom coração contra o capitalismo, um sistema injusto e explorador dos mais frágeis, era o mesmo de hoje. Mas meus tios e seus companheiros tinham algo que não temos hoje: a real crença na possibilidade de derrotar esse sistema. Havia dado certo em Cuba e havia dado certo no Vietnã.

Quando estive em Cuba, em 1999, 30 anos após o assassinato de Marighella, ainda era possível sentir resquícios dessa poderosa crença nas palavras dos dedicados jovens da Unión de Jóvenes Comunistas, UJC, que receberam a comitiva de estudantes brasileiros em Havana: "Se nós conseguimos isso em Cuba, imagina se vocês conseguissem no Brasil. O comunismo só vai funcionar quando for global", ouvi, fitando olhares cheios de vida e esperança.

Não sei se esses olhares brilham tanto hoje quanto brilhavam 20 anos atrás. Não adianta nos debatermos: nós perdemos, eles venceram. O que será de nós agora, que os sonhos morreram?