Correio da Cidadania

Bolívia: pais, órfãos e viúvas do massacre de Sakaba exigem justiça e fim da ditadura


Familiares de Roberto Sejas, cujo "tiro foi na cabeça, entrou e saiu”. "Vamos nos mobilizar até a saída desta maldita presidenta" 

“Era uma sexta-feira, 15 de novembro e vínhamos, milhares, numa Marcha Pacífica desde o Trópico quando fomos barrados na ponte Huayllani, em Sakaba, impedidos de seguir com as nossas Wiphalas [bandeiras da identidade e da autoestima dos povos indígenas ] rumo a Cochabamba. Os policiais nos disseram: esperem, pois em meia hora vão poder passar. Mas logo surgiram quatro ou cinco aviões de guerra para assustar e, do nada, os soldados começaram a nos gasificar desde os helicópteros e a abrir fogo com os seus fuzis. Não tínhamos com o que nos defender, nem como proteger nossas famílias. Havia crianças. Até o momento são dez mortos, mais de 200 feridos (80% à bala) e nove companheiros continuam presos sendo humilhados diariamente”, relatou Juan Fernandez, coordenando a chegada dos pais, viúvas, órfãos e vizinhos, que se somaram à manifestação de solidariedade por justiça.

No local em que o terrorismo de Estado dos golpistas demonstrou toda sua covardia, os familiares das vítimas tomaram a frente nesta segunda-feira e, em meio a um mar de flores, de pranto e de ódio, exigiram justiça e o fim da ditadura de Jeanine Áñez na Bolívia. Ao mesmo tempo querem a prisão imediata de Luis Camacho, o fascista de Santa Cruz de la Sierra, e do ex-presidente Carlos Mesa, pela atuação à frente dos bandos criminosos.

Juan me leva para ver o irmão, Leopoldo, que está deitado dentro de um carro a cerca de 50 metros da concentração. Não pode se mover, a perna foi completamente destroçada por um projétil de grosso calibre que o governo golpista continua alegando jamais ter sido disparado.

“Estou todo despedaçado por conta de armas de guerra. Fiquei com uma fratura terrível e não posso caminhar, não posso sentar nem ir ao banheiro. Me sinto um nada”, contou Leopoldo Fernandez, que “era rádio-taxista em Eterazama, a quatro horas daqui e vim protestar pelo que é nosso e nos foi tirado”.

A seu lado, a esposa Marina Orella carregava no colo o filho Johan, um dos quatro do casal, descrevendo “o horror que tem sido esses dias em que Leopoldo não pode ir ao banheiro, caminhar ou sorrir, pois está traumatizado. Cuido dos pequenos e não há quem possa trazer dinheiro para a casa”. “Até meus filhos estão traumatizados, são pequenos e choram todo o tempo. Todos nos sentimos bastante feridos, porque as pessoas não sabem desse banho de sangue e do tamanho dessa dor. Os meios de comunicação não dizem nada, nada informam e isso é injusto”, frisou.

Marina recordou de “todo horror” daquela sexta-feira, pois pensou que seu companheiro havia tombado, como tantos outros. “Ele ligou e conseguiu me falar só duas palavras: estou ferido. Imagina o inferno que foi daí em diante, horas de angústia. Lutamos agora para sobreviver”, relatou.