Correio da Cidadania

Chile: cinquenta dias nas ruas – a corrida do futuro

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Manifestantes derrubam estátua de Pedro de Valdívia em Temuco. Foto: EFE


‘Voltamos a ser povo’: dizia um sensato cartaz pintado sobre papel, colocado por uma comunidade de vizinhos sobre a Avenida Grécia. É um grito de protesto contra o neoliberalismo que transformou as pessoas em simples consumidoras. Mas também conforma todo um programa político e uma ética de vida, em apenas quatro palavras.

Não muito longe dali, a central Praça da Dignidade, nome com o qual a revolta chilena rebatizou a Praça Itália, parece uma zona de guerra. Os comércios estão fechados em várias quadras, cobertos de pichações e grafites multicoloridos denunciam a repressão e incitam a revolta contra as mais diversas opressões. Os(as) jovens não querem abandonar. Sustentam que o dia que o protesto abandone as ruas, tudo estará perdido. Uma lógica implacável, mas difícil de sustentar depois de 50 dias de mobilizações.

A maioria das pinturas em muros da região, e em muros de todo o Chile, centenas de milhares, denunciam a violência dos Carabineros. “Nos estupram e nos matam”, “Chega de abuso”, “Pacos assassinos”, “Paco culiao” (‘Paco é um apelido pejorativo dos carabineiros; ‘Culiao’ é um xingamento como a palavra em português que assemelha), e assim indefinidamente. Sobre uma lágrima de sangue que resvala por uma parede, podemos ler: “Viver no Chile custa um olho da cara”.

Os meios de comunicação da direita destacam que os muros ‘vandalizados’, que podem ser vistos até nos mais remotos rincões do Chile, sujam Santiago. Como parece suceder, concedem maior importância às perdas materiais do que aos olhos retirados de 230 manifestantes, cegados por balas dos carabineiros, e do que às vidas das quase três dezenas de pessoas assassinadas pelas forças repressivas desde outubro.

Além dos dedicados aos carabineros, abundam também os muros feministas, onde se ataca frontalmente a violência machista e o patriarcado. Pintados em tons roxos e lilás que se entremisturam com as denúncias da repressão. Mas o ápice de criatividade dos protestos chega a performance “Um violador em teu caminho”, criada por Las Tesis, um coletivo interdisciplinar de mulheres de Valparaiso. Foi reproduzida milhões de vezes nas redes e replicada em quase todas as capitais latino-americanas e europeias.

Inclusive os meios de comunicação do sistema (da Radiotelevisión Espanhola e CNN, até o Clarín argentino) tiveram de dar conta dessa intervenção de rua, uma denúncia em ritmo de rap que põe na mira tanto o governo como os juízes e a polícia. O acompanhamento massivo que despertou mostra tanto a indignação mundial com a selvagem repressão no Chile, como a crescente influência do feminismo nos protestos, com vozes e estilos próprios.

As estátuas são um assunto à parte. Diz-se que trinta figuras de militares e conquistadores foram grafitadas, em Arica, na fronteira com o Peru e Bolívia, quando o país vizinho perdeu sua saída ao mar. Em Arica, os manifestantes destruíram uma escultura de pedra de Cristóvão Colombo, que levava mais de um século no lugar. Em La Serena, rodou a estátua do colonizador e militar Francisco de Aguirre e em seu lugar os vizinhos colocaram uma escultura de uma mulher diaguita. Em Temuco removeram o busto de Pedro de Valdívia e sua cabeça foi pendurada na mão do guerreiro mapuche Caupolicán.

Pedro de Valdívia está na mira dos manifestantes. O militar, que acompanhou Francisco Pizarro na guerra de conquista e extermínio no Peru, fundou, com o mesmo método, algumas das principais cidades do Chile, de Santiago a La Serena até Concepción e Valdívia. É uma das figuras mais odiadas pela população. Sua estátua esteve a ponto de ser derrubada na centralíssima Praça de Armas.

Mas o feito mais simbólico aconteceu em Concepción, 500 km ao sul de Santiago. Centenas de jovens se concentraram na Praça da Independência, onde derrubaram a estátua no mesmo dia, 14 de novembro, que se comemorava o primeiro aniversário do homicídio de Camilo Catrillanca, comunero mapuche morto pelos carabineros. O crime suscitou uma ampla reação popular durante mais de 15 dias. Um ano depois, a bandeira mapuche é a mais tremulada nos protestos chilenos.

Trawün mapuche em Santiago

No último sábado de novembro, a Coordenação de Nações Originárias, nascida durante o estalar dos protestos, convocou um trawün (encontro, em mapudungun, o idioma mapuche), no centro cerimonial de Lo Prado, na periferia da cidade. Compareceram mapuches de diversos bairros de Santiago (Puente Alto, Ñuñoa, Pintana, entre outros), onde já havia sido realizados outros trawünes locais. O encontro se inicia com uma cerimônia dirigida por três longkos (autoridades comunitárias), seguida com cânticos e rezas de umas sessenta pessoas sob o sol vertical. E logo que a Pachamama lhes concedeu a permissão, se iniciaram as discussões em dois grupos para abordar como devem posicionar-se nos debates sobre uma reforma da Constituição.

As mulheres, engajadas com trajes tradicionais, participaram tanto ou mais que os homens, que usavam adereços azuis. Rapidamente se constataram duas posições. Uma propunha participar nas eleições para a Convenção Constituinte a ser celebrada em abril. Como os partidos que assinaram o pacto acabaram com a possibilidade de que os povos originários tenham um distrito eleitoral especial, o debate se transladou para discutir os caminhos a seguir. Esta posição veio crescendo após o estalar das manifestações, ainda que tenha nascido há quase duas décadas, e recebe o nome de ‘plurinacionalidade’.

Já que os mapuches não querem ser eleitos pelos partidos existentes, alguns participantes (incluindo muitas mulheres) propuseram a formação de um partido eleitoral mapuche. Esta corrente de pensamento tem maior arraigo nas cidades, particularmente em Santiago, onde vivem centenas de milhares de mapuches. Seu núcleo está nas e nos universitários que emigraram do sul e hoje estão estabelecidos na capital. Emite um discurso coerente e potente, e argumenta que há pouco tempo para tomar esse caminho, já que a convocatória para eleger constituintes se concretizará em abril.

A outra corrente defende a autodeterminação e a autonomia, posições tradicionais das comunidades mapuches do sul, as mais afetadas pela repressão do Estado chileno, pela militarização dos seus territórios e pelo despojo pelas mãos das empresas florestais. Essas são também as comunidades que encabeçam a recuperação de terras e as que mantêm viva a chama da nação e da identidade tradicional mapuche. Durante o trawün, uma mulher de meia idade recordava que “já temos nosso próprio governo e nosso parlamento, não precisamos dos políticos”. E um jovem perguntava veementemente: “Realmente queremos ter um assento dentro da política winka (branca)?”

Assembleias, bairros e classes

O coletivo Caracol, que trabalha em educação popular nos espaços e territórios das periferias, sustenta em sua análise que o “acordo de paz” assinado na madrugada de 24 de novembro por todo o arco-íris político – menos o Partido Comunista – outorgou ‘uma sobrevida’ ao governo de Piñera (Coletivo Caracol, 25/11/19).

O próprio nome do pacto delata seus inspiradores. Se trata-se de paz, diz o Caracol, é porque houve uma guerra, que é o que vem dizendo Piñera desde o primeiro dia de manifestações. A convocatória a uma convenção constituinte acordada contra uma assembleia constituinte como a defendem os movimentos impõe vários filtros.

“Esta Convenção não estará composta por cidadãos nem representantes dos movimentos sociais e populares, senão por aqueles que designem os partidos existentes”, estima o Caracol. Agrava a situação ao que devem se somar os dois terços requeridos para que se aprove qualquer proposta, o que supõe um veto maior para as propostas das ruas. “Demonstraram que os caminhos abertos que se desenvolveram por todo o Chile não lhes interessam, porque não lhes interessa a deliberação popular”, prossegue o coletivo Caracol.

Daniel Fauré, fundador da organização, analisou em diálogo com o semanário Brecha que a decisão do governo de convocar uma constituinte foi tomada quando contemplou a confluência entre o protesto de rua e a paralisação nacional, a unidade de ação entre trabalhadores sindicalizados, pobladores e jovens rebeldes. “É o boicote às assembleias territoriais, cabildos abiertos (assembleias de rua) e trawünes”, apontou.

Chegados a esse ponto, devemos recordar que a ditadura de 17 anos de Augusto Pinochet se advogou a uma profunda reconstrução urbana com fins políticos. Quando Salvador Allende chegou ao governo, em novembro de 1970, quase a metade da população de Santiago estava composta por “acampamentos”, espaços tomados e autoconstruídos pelos setores populares, que desse modo se configuram como sujeito político, sob o nome de “pobladores”, e foram centrais no processo de mudanças cegado pela ditadura.

Na atualidade, e segundo um mapeamento do coletivo Caracol, existem em Santiago umas 110 assembleias territoriais, organizadas em duas grandes coordenações: a Assembleia das Assembleias Populares e Autoconvocadas, na zona periférica, e a Coordenadoria Metropolitana de Assembleias Territoriais, na zona central. Estas assembleias contrastam, e às vezes competem, com as mais institucionalizadas juntas de vizinhos. Ainda que houve um trabalho territorial prévio importante, a maioria dessas organizações se formou durante as manifestações. Realizam atividades culturais recreativas, organizam debates entre vizinhos, dão assistência a feridos e detidos nas marchas e promovem panelaços contra a repressão. Muitos dos seus integrantes participam nas barricadas noturnas.

Mas como nos tempos do ditador, tampouco o Chile pós-pinochetista pode aceitar o ativismo dos pobladores. A classe dominante chilena não pode conceber que os ‘rotos’ saiam dos seus bairros, que falem e ocupem espaços. Um relato do Caracol sobre um enfrentamento ocorrido a finais de novembro, quando um grupo de pobladores foi se manifestar em um shopping do setor mais exclusivo de Santiago, disse tudo: “Bastou que um grupo de pessoas da classe popular aparecessem no pátio do seu templo de consumo em La Dehesa para que a classe alta saltasse despavorida chamando-os a ‘voltar às suas populações e bairros de merda, rotos conchesumare” (equivalente ao ‘filho da puta’ – coletivo Caracol 25/11/19).

É certo que a revolta de outubro de 2019 encerra o ciclo iniciado em setembro de 1973 com o golpe de estado de Pinochet, também deve ser certo que se abre um novo ciclo, do qual ainda não sabemos suas principais características. Pelo que se pode ver nas ruas de Santiago, este ciclo terá dois protagonistas centrais: o Estado policial – braço armado das classes dominantes – e os setores populares, afincados em suas poblaciones e em Wall Mapu, ou território mapuche. A corrida entre ambos configurará o futuro do Chile.


Raúl Zibechi é cientista político e pensador uruguaio.
Texto publicado em espanhol no semanário uruguaio Brecha e na Correspondencia de Prensa da revista L’Encontre.
Traduzido por Raphael Sanz, para o Correio da Cidadania.