Correio da Cidadania

Cuba e suas prioridades


Enfermeiras saindo em missão para Barbados

Nesta semana partiu para Barbados mais uma equipe das brigadas Henry Reeve, com 101 enfermeiras, para ajudar a pequena ilha do Caribe na sua luta contra o coronavírus. Lá já são 56 infectados e uma morte foi registrada. E é sempre bom lembrar que Barbados é uma nação independente, mas que está ligada ao Reino Unido, tendo como chefe de Estado a Rainha da Inglaterra. Com essa equipe já são 15 grupos de médicos e enfermeiros que saem de Cuba, num total de 700 pessoas, para prestar socorro médico nos mais diversos países do globo (15 até o momento, embora haja pedidos de mais 40).

Essa é uma prática que o país vivencia desde o final dos anos 60. E por quê? Primeiro porque inspirada na ação revolucionária do médico argentino Ernesto Che Guevara, que foi um dos revolucionários históricos da revolução cubana. Médico, ele nunca se furtou a atender a população quando fosse necessário. Depois, na África, igualmente, muitas vezes trocou o fuzil pela maleta de médico, garantindo atenção à população abandonada. Mais tarde, quando a ilha já formava sua primeira geração de médicos, as brigadas de ajuda tornaram-se sistemáticas.
Assim, já são 60 anos de ação médica, com a participação de mais de 30 mil médicos, isso sem contar os demais profissionais sanitários como enfermeiros e agentes de saúde.

Com a revolução em 1959, Cuba saiu da órbita dos Estados Unidos e passou a vivenciar um sistema próprio de governo no qual a educação foi pilar essencial. Junto com a formação dos cubanos a revolução foi estruturando também o sistema de saúde que é público, gratuito e universal. Os recursos para esse setor chegam a quase 30% do orçamento geral. Lá, o sistema de saúde conta com nove médicos para cada mil habitantes, bastante superior a países europeus, por exemplo, que tem uma média de 3 ou 4 médicos para cada mil habitantes.

A preocupação com a saúde é tanta que nem mesmo durante o período especial, quando da queda da União Soviética, parceiro importante da ilha, jamais o governo fechou um hospital ou um posto de saúde. Pelo contrário. Quanto mais a ilha é atacada, mais o governo pensa em como proteger o seu povo, sendo bastante conhecido e reconhecido o seu programa de médico de família.

A prevenção de doenças é prioridade e a população é instruída, tanto pelos médicos e enfermeiras, como pelos milhares de agentes de saúde, a se manter saudável. Os problemas com o bloqueio econômico são tantos que um corpo sadio é fundamental para o enfrentamento com o império. Cuba também mantém uma escola latino-americana de Medicina, na qual forma médicos, com estudantes vindos de vários países do continente e também da África. Isso faz com que o número de profissionais seja grande e permite o envio das brigadas por todo o planeta. É bastante conhecida a ação de Cuba durante o surto de Ebola na África, como também durante a crise da cólera no Haiti. Os médicos cubanos vão aonde ninguém quer ir.

Atualmente, com a pandemia mundial do coronavírus a ilha socialista mais uma vez se diferencia de seu antagonista principal – os Estados Unidos. A primeira ação do governo estadunidense quando a crise eclodiu na Europa foi mandar 30 mil soldados, tropas militares, para sabe-se lá o quê. Cuba enviou e segue enviando médicos.

Agora, quando a crise chegou também aos Estados Unidos, de novo é possível perceber as diferenças entre um sistema socialista, que garante saúde universal, pública e gratuita, e o sistema capitalista/imperialista comandado pelos EUA. Lá, a pandemia segue sem controle, com mais de 300 mil infectados e quase 10 mil mortos (até 5 de abril). As pessoas que não têm seguro saúde somam mais de 40 milhões, estão entregues ao deus dará, e outros tantos milhões que possuem seguros de baixa cobertura também estão na mão. Qualquer atenção médica na rede privada estadunidense custa uma fortuna e há quem se recuse a ir para o hospital por medo da conta que será apresentada ao final.

Essa é uma hora trágica para a humanidade e na grandeza desse drama humano fica muito fácil perceber o quanto o capitalismo é nocivo à maioria da população, aos trabalhadores. Dia após dia, vai se percebendo que para os governantes o mais importante é a roda da economia girar, com as pessoas ficando em segundo lugar. Donald Trump, por exemplo, sem pejo, disse que estará tudo bem se morrerem 100 mil estadunidenses. Será preço a pagar para que o capital siga se expandindo. Não há um plano para salvar as gentes, mas sobram planos para salvar bancos e empresas.

Enquanto isso, a pequena e mal/dita Cuba socialista vai mostrando o que realmente é importante para seu governo e para o sistema que ali se plantou em 1959: sua gente, bem como os trabalhadores de todo o mundo. Mantém com segurança o seu sistema de saúde interno e ainda manda médicos pelo mundo todo, salvando vidas.

Elaine Tavares é jornalista e colaboradora do Instituto de Estudos Latino-Americanos.