Correio da Cidadania

Porfirio Cochi: “CIA, Áñez e coronavírus são o tripé da morte contra a Bolívia”


“A Agência Central de Inteligência (CIA), as políticas privatistas e excludentes da autonomeada presidenta Jeanine Áñez e o avanço do coronavírus são o tripé da morte contra a Bolívia, que mais do que nunca necessita da unidade e da reflexão das suas lideranças e da mobilização do seu povo”, afirmou o pesquisador e cientista social Porfirio Cochi, em entrevista exclusiva.

Na avaliação de Cochi, que encontra-se confinado na cidade de El Alto, da mesma forma como fez o Movimento Ao Socialismo - Instrumento Político para a Soberania dos Povos (MAS-IPSP) ao longo dos seus 14 anos de governo, “é preciso fortalecer o sistema público de saúde, erguer hospitais, investir em equipamentos e recursos humanos para combater e vencer o covid-19”.

“Necessitamos impedir que uma elite cada vez mais disposta a converter-se em títere do imperialismo roube a nossa identidade enquanto povo e agora despreze a nossa própria vida com uma política irresponsável diante do avanço do coronavírus”, sublinhou.

Leia a seguir a entrevista completa.

Temos hoje números extremamente desencontrados em relação à quantidade de bolivianos mortos ou contaminados e o governo golpista culpa o presidente Evo Morales pela ausência de uma estrutura de saúde pública. Ao mesmo tempo, Jeanine Áñez se propõe a injetar uma quantia expressiva de recursos públicos no setor privado. Como é isso?

Nos 14 anos de governo do Movimento Ao Socialismo - Instrumento pela Soberania dos Povos (MAS-IPSP), o presidente Juan Evo Morales Ayma desenvolveu uma política de fortalecimento do sistema público de saúde, que ganhou força com a ministra Ariana Campero por meio da implementação do “Plano Hospitais para a Bolívia”. Este plano, iniciado em setembro de 2015, veio acompanhado pelo Decreto Supremo nº 3293 que autoriza a criação da Agência de Infraestrutura em Saúde e Equipamento Médico (Aisem) para fiscalizar as construções e o fornecimento de materiais aos novos estabelecimentos construídos.

Para demonstrar como o investimento público em saúde havia sido historicamente relegado pelos governos neoliberais, vale lembrar que até 2006, ano da chegada do MAS ao poder, existiam 2.900 estabelecimentos de primeiro nível - consultórios familiares com até cinco profissionais, com um médico, um enfermeiro, dois auxiliares de enfermagem e um odontólogo. Na gestão do MAS foram construídos mais 1.039. Estes consultórios correspondem a 48% de todos os estabelecimentos de saúde existentes no país, alcançando mais de 3.900 funcionando com equipamentos e recursos humanos. Os 14.500 servidores públicos que trabalhavam com estabilidade em 2005 saltaram para 30.000 com emprego fixo, além dos contratos por tempo determinado, e as 558 ambulâncias se multiplicaram, chegaram a quase quatro vezes mais, alcançando 2.072 ambulâncias.

O “Plano Hospitais para a Bolívia” tinha como meta a construção de 49 hospitais de quarto, terceiro, segundo e primeiro nível. Os de primeiro nível são centros de saúde comunitária, básicos, que servem de entrada ao sistema; os de segundo nível são estruturas médias que contam com salas de cirurgia e especialidades como medicina interna, ginecologia e obstetrícia, cirurgia geral e pediatria, que atendem as 24 horas dos 365 dias do ano; e os de terceiro nível, que são hospitais e institutos de maior capacidade e que também funcionam sem parar. Em La Paz, de terceiro nível, temos o Grande Hospital Geral, o Hospital da Criança e o Hospital Operário. Em El Alto, cidade vizinha à capital, temos dois hospitais de terceiro nível e três de segundo nível. Desses, do total até junho mais de 15 já estavam em pleno funcionando e os demais em processo de construção ou contratação de pessoal e equipagem.

No plano, 12 hospitais em nível nacional são de terceiro nível e 33 de segundo nível, estando distribuídos 11 em La Paz e El Alto, nove em Santa Cruz, oito em Cochabamba, sete em Potosí, quatro em Tarija, quatro em Beni, três em Chuquisaca, dois em Oruro e o fortalecimento do hospital de Pando.

Infelizmente, este plano encontrou dura resistência no famoso e ilustre “colégio médico da Bolívia” que, encabeçado pelo seu presidente Luis Larrea, não apenas se opôs à construção dos hospitais como desenvolveu ações políticas contrárias ao governo dizendo que o fazia “pelo país e por nossos filhos”. Com esse discurso atentou contra a solidariedade internacional e a presença dos médicos cubanos que trabalhavam em todo território nacional e, particularmente, nas regiões mais distantes e necessitadas. Atualmente Larrea é vice-ministro de Saúde do governo golpista, tendo a seu lado vários proprietários de hospitais e clínicas privadas como Marcelo Navajas, ministro de Saúde.

Apesar de todo tipo de sabotagens e resistências, o plano conseguiu concluir mais de 15 estabelecimentos de saúde, hospitais de terceiro e segundo níveis. Outros foram interrompidos pela política neoliberal dos golpistas que também vêm inutilizando a infraestrutura já disponível do governo anterior.

Como esta inutilização tem se dado na prática?

No município de El Alto contamos com dois hospitais de terceiro nível: o hospital do Norte, em pleno funcionamento, que pela pressão da comunidade converteu-se em centro de referência para atenção e tratamento de covid-19, e o do Sul, que se encontra fechado porque o governo não dá prosseguimento ao processo de aquisição de equipamentos nem de contratação de pessoal. O que dizer de quem inutiliza recursos materiais e humanos em tempos de emergência sanitária?

Infelizmente, há experiências de abandono espalhadas por todo o país: hospitais construídos e concluídos que não estão sendo aproveitados para a luta contra a propagação do coronavírus. E isso é algo ainda mais terrível no momento em que as contaminações se multiplicam a cada dia.