Correio da Cidadania

Israel armou e treinou ditadura no banho de sangue de 250 mil guatemaltecos

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A Catedral Metropolitana da Guatemala e sua lista de vítimas de massacres: terrorismo de Estado (Joka Madruga/ComunicaSul)

A participação sionista chegou a tal ponto que, em 1977, quando os EUA cortaram parte da ajuda à ditadura guatemalteca, “em questão de meses” Israel passou a ser o seu principal fornecedor de armamento e tecnologia militar, enviando ao país centro-americano aviões, carros blindados, fuzis de artilharia, submetralhadoras Uzi e fuzis de assalto Galil, assim como técnicos e instrutores que treinaram os Esquadrões da Morte

A participação decisiva do governo dos Estados Unidos na derrubada do presidente nacionalista Jacobo Árbenz na Guatemala, em 1954, e a ação de Israel na sustentação terrorista dos governos entreguistas que se seguiram estão fartamente documentadas em 80 milhões de páginas.

A memória do crime, abandonada para ser decomposta pela umidade e pelo tempo em um velho paiol abandonado no centro da capital guatemalteca, foi depositada em pilhas de mais de três metros de altura, nos cinco edifícios antes pertencentes à Polícia (anti)Nacional. A rica trajetória da resistência popular deixada para ser roída.

O que era para ser a investigação de uma denúncia sobre “explosivos mal armazenados”, transformou-se no dia 5 de julho de 2005 na maior descoberta sobre a política de terrorismo de Estado praticada pela oligarquia, com apoio da CIA e de Israel.

A lembrança escondida pela principal “seção” das “forças de segurança” durante as mais de três décadas de guerra suja (1960-1996) é que foram regimes títeres, cuja sangrenta manutenção custou a vida de 250 mil mortos e desaparecidos, conforme apuraram as organizações de direitos humanos. Há quem aponte 400 mil as vítimas de matanças, torturas, estupros em massa e mutilações.

Retratos de um país convertido “numa imensa sepultura sem nome”, nas palavras do diretor do projeto de Documentação da Guatemala, Kate Doyle. Parte da lista de “Vítimas dos massacres” está lapidada na Catedral Metropolitana da Guatemala.
“Eram armários inteiros classificados segundo o tema: Assassinatos, Desaparecidos e Homicídios. Havia fotografia de corpos e presos, listas de informantes, com nome e foto, fitas de vídeos e disquetes de computadores”, admite a arquivista-chefe e conselheira do Arquivo de Segurança Nacional dos EUA, Trudy Huskamp.

E mais, listas com nomes de filhos de guerrilheiros mortos e das famílias que os adotaram como seus ou simplesmente para servi-los. Em meu livro “A CIA contra a Guatemala – Movimentos sociais, mídia e desinformação” (Editora Papiro, Maio de 2015), prefaciado pelo amigo Paulo Cannabrava Filho, recordo as vitórias obtidas pela revolução guatemalteca (1944-1954) e denuncio seus inimigos.

Foram avanços históricos, aponto, resultado de um processo iniciado em 1945 pelo presidente Juan José Arévalo com a implantação do Código do Trabalho e da Seguridade Social, e aprofundado radicalmente pelo seu sucessor, Jacobo Árbenz, com as nacionalizações, os investimentos na infraestrutura e na reforma agrária.

O que foi um marco para o continente, imortalizado na poesia do chileno Pablo Neruda e nos murais do mexicano Diego Rivera, infelizmente virou um apagão inoculado na desmemória coletiva pelo Latifúndio midiota (nome de outro livro de minha autoria).

A popularidade e o êxito das medidas, nas barbas do Tio Sam, incomodavam os estadunidenses que em seu viciado modelo bipartidarista atuou em favor do golpe, mobilizando títeres como Somoza (Nicarágua) e Trujillo (República Dominicana) para dar o apoio logístico aos seus matadores de aluguel.

Mas era preciso alimentar mais do que com ração e empréstimos o terrorismo de Estado. Foi aí que entraram os nazi-israelenses com os seus “especialistas” e armamentos como o fuzil Galil, a submetralhadora Uzi e os aviões Aravá, essenciais para sustentar a ditadura. Até uma fábrica de armas foi erguida para fazer frente à revolta dos patriotas.

“Por meio de Israel, o Estado guatemalteco tinha o aporte do regime racista dos generais sul-africanos”, recordou a historiadora estadunidense Cindy Foster, denunciando que “a polícia israelense, dotada de uma longa experiência em repressão à população palestina nos territórios ocupados, treinou a Polícia (anti)Nacional e os grupos parapoliciais, como o Mão Branca e o Esquadrão da Morte”.

“O terror se transformou num espetáculo”

Como descreve Greg Grandin no livro “A revolução guatemalteca”, (Editora UNESP, 2004), os movimentos de resistência da nação maia foram cruelmente combatidos, principalmente nos anos 70 e 80. “Na Guatemala, o terror se transformou num espetáculo: soldados, comissionados e patrulheiros civis estupravam as mulheres diante dos maridos e dos filhos. O zelo anticomunista e o ódio racista se disseminaram no desempenho da contrainsurgência. As matanças eram inconcebivelmente brutais. Os soldados matavam crianças, lançando-as contra rochas na presença dos pais. Extraíam órgãos e fetos, amputavam a genitália e os membros perpetravam estupros múltiplos e em massa e queimavam vivas algumas vítimas”, apurou.


Muros exortam “Memória” e denunciam genocídio perpetrado durante décadas por governos entreguistas (Joka Madruga/ComunicaSul)

Vale lembrar, destacou o autor, que “as práticas ensaiadas na Guatemala – como as desestabilizações e os esquadrões da morte dirigidos por agências de inteligência profissionalizadas – propagaram-se por toda a região nas décadas subsequentes”.

O fato destas “empresas” estarem entre as principais doadoras das bilionárias campanhas eleitorais estadunidenses não é um mero detalhe. Assim como o fato do secretário de Estado norte-americano Foster Dulles, advogado/acionista da United Fruit Company, ter comandado a campanha – ao lado de seu irmão Allen Dulles, chefe da CIA – pela derrubada de Árbenz, consumada em 28 de junho de 1954. O motor do golpe que levou ao poder o coronel Castillo Armas foi a nacionalização de terras da “Frutera” e sua distribuição a camponeses pobres e a indígenas.

Propaganda de guerra

No momento em que o Império retoma a propaganda de guerra contra o povo russo e seu governo, é essencial refletirmos sobre os padrões da manipulação. Uma “amnésia oficial” patrocinada pelos grandes conglomerados privados de comunicação para dissipar a responsabilidade estadunidense na deposição de governos nacionalistas como o de Árbenz, bem como a parceria nazi-israelense.

Nos EUA, lembra Grandin, “a CIA se serviu de práticas tomadas de empréstimo à psicologia social, a Hollywood e à indústria publicitária para erodir a lealdade” e gerar aversões, numa “campanha de desinformação concertada” em favor da United Fruit, grande latifundiária e também proprietária das rodovias, ferrovias e portos do país.

Com riqueza de dados e citações, se desnuda os meandros da participação de Israel como coringa ianque ao longo da agressão, desde o começo dos anos 70, até o período “mais cruel da repressão”, entre 1982 e 1983, com a chegada ao poder do general Efrain Ríos Montt.

É neste momento, recorda o autor, “quando os massacres se tornaram simultaneamente mais precisos e mais horrendos”. Na visita à Guatemala pudemos ouvir testemunhos eloquentes sobre tais sevícias.

Como não comparar com a prática nazi-israelense dos ventres abertos à ponta de baioneta, quando lembramos os 30 anos do massacre do campo de refugiados palestinos de Sabra e Chatila? Como esquecer dos soldados sionistas, em pleno século 21, praticando tiro ao alvo nos olhos das crianças palestinas, vazados pelas balas de aço revestidas com borracha? Como calar diante do genocídio praticado atualmente pelas tropas de Benjamin Netanyahu na Faixa de Gaza, com mais de 33 mil mortos e 76 mil feridos – milhares deles mutilados? E das mais de oito mil vítimas civis, principalmente mulheres e crianças, que se encontram soterradas sob os escombros?

Estupros coletivos

Em maio de 2013, no julgamento em que Ríos Montt foi condenado por “genocídio” pelas atrocidades cometidas, a juíza Jazmín Barrios possibilitou que 149 mulheres da etnia ixil rememorassem o horror dos “estupros coletivos” praticados contra suas aldeias há três décadas. “O primeiro que perguntaram foi se dávamos comida aos guerrilheiros. Respondi que sequer os conhecia. Na casa estava minha filha, de uns 17 anos, e dois dos seus irmãos pequenos. Os soldados arrancaram sua roupa, separaram suas pernas com força e começaram a estuprá-la em frente às crianças, que choravam de medo”.

A contundência da narrativa de senhoras de 50 a 60 anos amplificou a denúncia que transborda dos informes da Recuperação da Memória Histórica (Remhi) da Conferência Episcopal Guatemalteca (CEG), e da Comissão de Esclarecimento Histórico, patrocinada pelas Nações Unidas. “Os estupros foram utilizados como instrumento de tortura e escravidão sexual, com a violação reiterada da vítima”.

“Se tens marido, então te estupram entre cinco e dez soldados. Se és solteira são 15 ou 20”. “Meu tio ia por um caminho com sua filha e uma neta, quando uma patrulha militar conseguiu agarrar as meninas. A criança de sete anos mataram, porque foram tantos os soldados que passaram sobre ela…”. “Alguns soldados estavam doentes de sífilis ou de gonorreia. A ordem foi que estes passassem por último, quando os sãos já tivessem estuprado”.

Soam ridículas as alegações d