“Aguarda-se que Biden não crie justificativas para falta de empenho em propor alterações em prol da população”

Scientists relieved as Joe Biden wins tight US presidential election
A vitória do democrata Joe Biden sobre o republicano Donald Trump gerou uma sensação de alívio nos mais variados setores políticos e ideológicos, dos mais sinceros antiautoritários e antirracistas até aqueles que surfam na onda de sua vitória ao mesmo tempo em que localmente se mantêm alinhados ou submissos a grupos similares àquele derrotado nos Estados Unidos. Na entrevista ao Correio, Virgílio Arraes, professor de relações internacionais da UnB e especialista em temas norte-americanos, explica as principais dinâmicas que deram a vitória a Biden e o que o mundo pode esperar de seu mandato.

“Depende de como o governo democrata se situará na questão do enfrentamento ao racismo como política pública e no curto prazo em face dos efeitos deletérios persistentes da pandemia do vírus corona – a vacinação seria, por exemplo, gratuita? Além disso, a reforma do sistema policial irá avançar no Congresso, vez que Trump fez pouco?”, indagou.

Arraes é enfático em afirmar que a extrema-direita continuará forte no cenário local e, mesmo fora da presidência, não abaixará suas bandeiras, afinal, ainda tem forte influência no Senado e na Suprema Corte. Dessa forma, Arraes cita Franklin Roosevelt e sua política de combate à Grande Depressão como parâmetro necessário a Biden no enfrentamento ao ultraconservadorismo.

“Com ou sem Trump, a direita acentuada continuará muito presente nos Estados Unidos. Como os democratas, a partir de Bill Clinton no começo dos anos 90, passaram a disputar o espaço de modo mais incisivo com os republicanos na direita, estes, ao invés de rumar ao progressismo, como no início do século 20, optaram por inclinar-se mais à direita ainda”, contextualizou.

No plano internacional, o entrevistado sugere que haverá mudanças, mas nada que signifique uma ruptura da tradição estadunidense em suas relações internacionais. Quanto ao Brasil, apontou a ineficácia de sua política externa de submissão.

“O governo apostou no ‘trumpismo’, ao identificá-lo similar ao ‘bolsonarismo’ e antes mesmo das eleições presidenciais de novembro já havia perdido, vez que a tentativa de aproximação nada trouxe, a não ser corrosão política. O nacionalismo aludido lá não existe aqui. Há muitos anos o comércio bilateral é deficitário para o Brasil”.

A entrevista completa com Virgílio Arraes pode ser lida a seguir.


Correio da Cidadania: Como avalia a vitória de Joe Biden sobre Donald Trump, primeiro presidente não reeleito desde George H. W. Bush em 1992?

Virgílio Arraes: A eleição significou a rejeição do eleitorado – ao menos momentânea - ao extremismo político, encabeçado pelos republicanos de Trump. Em 2016, funcionou de maneira inesperada, haja vista que a candidatura dele nas primárias havia sido considerada no início mais uma forma de promoção pessoal que participação competitiva na disputa interna da agremiação.

O aparente nacionalismo de Trump apresentado de modo exaltado em 2016 ao criticar a globalização aproximou-o dos setores decadentes do ponto de vista econômico da população, em especial os das áreas outrora bem industrializadas, incapazes de resistir à pujança da China, anos antes do Japão e da Coreia do Sul.

A crítica à política exterior também o ajudou cativar o eleitorado, vez que a sociedade norte-americana encontrava-se desanimada com a presença militar ineficiente no Oriente Médio e adjacências – Iraque e Afeganistão - apesar da redução de efetivos promovida pelos democratas à frente do poder.

Outro ponto - extremamente polêmico - chamou a atenção do eleitorado conservador, situado na fronteira com o México: a extensão do muro com aquele país, sob justificativa de dificultar a imigração ilegal, basicamente de latino-americanos de renda baixa, e de conter o narcotráfico e por conseguinte diminuir a violência.

O projeto inicial havia sido originado durante o segundo mandato de Bush filho. Mais simples que a proposta posterior de Trump, contou com o voto de 80 senadores, entre os quais os de Barack Obama, Joe Biden e Hillary Clinton. Reviver o tema dez anos depois em plena campanha presidencial foi maneira de constranger o liberalismo – progressismo – apregoado dos democratas.

Correio da Cidadania: Que disputas no interior da sociedade estadunidense se revelaram neste pleito?

Virgílio Arraes: Três em essência: a de saúde, materializada no desprezo de Trump pelos efeitos devastadores da pandemia do coronavírus. O proceder deste modo custou a vida de milhares de cidadãos, muitos dos quais sem plano de saúde e portanto impossibilitados de se tratarem de forma adequada. Assistência médica é o ponto fraco da classe média norte-americana. Não há um sistema público similar ao do Canadá e da Europa Ocidental. No início de agosto, o número de casos de corona havia declinado, mas em meados de setembro voltou a aumentar.

Em segundo, a desigualdade, firmada no racismo continuado da sociedade estadunidense. A taxa de desemprego em outubro último dos afroamericanos era quase o dobro da dos caucasianos – 10.8% x 6%. A dos latino-americanos estava próxima de 9%, ao passo que a dos ásio-americanos em torno de 7.5%.

A omissão política diante da brutalidade policial como no caso do assassínio de George Floyd e a insensibilidade diante dos protestos populares em prol da garantia dos direitos civis assinalaram o distanciamento de Trump das reais demandas da sociedade.

Em terceiro, a economia, concretizada no crescimento acelerado do desemprego. O baixo índice até a emergência da pandemia era o ponto basilar dos republicanos para a reeleição. Em fevereiro, estava em torno de 3.5%; em abril, próximo de 15%. Embora em outubro estivesse em torno de 7%, a instabilidade era grande, haja vista o crescimento da pandemia. Muitos receavam ter de interromper as atividades de novo.

Correio da Cidadania: Trump perdeu, mas recebeu mais votos que em sua vitória de 2016. Que leitura você faz deste aspecto? Ele representa um movimento que se manterá ativo?

Virgílio Arraes: Sim. Com ou sem Trump, a direita acentuada continuará muito presente nos Estados Unidos. Como os democratas, a partir de Bill Clinton no começo dos anos 90, passaram a disputar o espaço de modo mais incisivo com os republicanos na direita, estes, ao invés de rumar ao progressismo, como no início do século 20, optaram por inclinar-se mais à direita ainda. O resultado disso seria a eleição de George Bush, filho, e, depois do interregno de Barack Obama, a de Donald Trump. O espectro político de Jimmy Carter assombrou os democratas por muitos anos.

A perspectiva de uma presidência com menos ostentação e com maior respeito aos direitos humanos foi avaliada como desastrosa, haja vista a forma da derrota na eleição de 1980 diante de Ronald Reagan, responsável por implementar posteriormente o neoliberalismo no país.

O próprio Carter com o crescimento da inflação e do desemprego internamente e com o desgaste do país diante do segundo choque do petróleo, da humilhação do Irã com crise dos reféns norte-americanos, da invasão do Afeganistão pela União Soviética e das queixas das ditaduras sul-americanas em face da preocupação com direitos humanos daria uma guinada conservadora infrutífera no final do mandato.

Correio da Cidadania: Que balanço você consideraria adequado para os quatro anos de Trump na Casa Branca, dentro e fora dos Estados Unidos?

Virgílio Arraes: Na política exterior, a impossibilidade de conter a ascensão econômica global da China. Retirar-se da Parceria Transpacífica não trouxe vantagens ao país. No Oriente Médio e adjacências, a permanência sem frutos na região, malgrado a promessa de retirar as tropas completamente do Iraque e do Afeganistão, onde o fundamentalismo persiste, mesmo depois de quase duas décadas.

O intento político da Grã-Bretanha de recolher-se da União Europeia e aproximar-se dos Estados Unidos avançou, embora pouco. Do ponto de vista comercial, tem sido, no entanto, bom para os Estados Unidos.

Com a Rússia, a relação foi ambígua em termos políticos, à medida que havia uma identificação entre os dirigentes principais dos dois países, sem que significasse benefícios aos Estados Unidos, ao mirar-se no crescente déficit comercial.

Na América do Sul, a continuação do bolivarianismo na Venezuela, apesar do desmoronamento político e econômico, foi um constrangimento para a diplomacia estadunidense, a despeito dos esforços para prestigiar alguns nomes.

Afastar-se de Cuba, após a aproximação efetuada por Barack Obama, não trouxe desgaste para Havana, mas garantiu a ele a vitória, ainda que apertada no voto popular, entre os delegados da Flórida.

No Cone Sul, três dos quatro países situam-se no arco mais conservador, embora a Argentina, apesar da ilusão de parte da esquerda no Brasil, também não seja tão diferente na prática quanto à economia.

Correio da Cidadania: Quais expectativas podem-se ter para o mandato de Biden? Suas pautas mais progressistas e ligadas a interesses e necessidades das classes populares e trabalhadoras não tendem a ser bloqueadas pela força que o Partido Republicano conserva nas duas casas?

Virgílio Arraes: Mudanças poderão advir na questão ambiental, o que é importante para o mundo, e na saúde, um dos pontos caros aos democratas – desde Lyndon Johnson, com passagens por Clinton e Obama.

Espera-se uma alteração na política imigratória, de modo que se melhore o tratamento concedido àqueles que desejam instalar-se no país.

Aguarda-se que o governo democrata não utilize o Senado, de maioria republicana no momento, porque daqui a dois anos haverá novas eleições para parte da câmara alta, e principalmente o Superior Tribunal como eventuais bodes expiatórios para justificar a falta de empenho em propor alterações em prol da população.

O democrata Franklin Roosevelt nos anos 30 enfrentou o conservadorismo do Superior Tribunal que dificultava a implementação das políticas sociais do New Deal. No fim, os três poderes chegariam a um acordo.

Correio da Cidadania: A conflitividade social, ressaltada recentemente pelos protestos antirracistas, deve aumentar?

Virgílio Arraes: Depende de como o governo democrata se situará na questão do enfrentamento ao racismo como política pública e no curto prazo em face dos efeitos deletérios persistentes da pandemia do vírus corona – a vacinação seria, por exemplo, gratuita? Além disso, a reforma do sistema policial irá avançar no Congresso, vez que Trump fez pouco?

Correio da Cidadania: Como enxerga este resultado na política externa?

Virgílio Arraes: Biden será menos conservador que Trump, mas não se situa na socialdemocracia tradicional. Pessoalmente, Biden e Harris se comportarão com mais compostura que Trump, mas a China continuará a ser a grande rival do país. O repúdio ao bolivarianismo continuará, porém, sem a fanfarronice.

No Oriente Médio e adjacências, a postura se alterará pouco, mas com mais disposição para negociar com o Irã. Com a Coreia do Norte, a distensão deve ser maior. O enfrentamento ao terrorismo deve ser mantido dentro dos atuais parâmetros.

Com Cuba, há mais possibilidades de diálogo. Quanto à África, os Estados Unidos continuarão a disputar com a China áreas de influência econômica. De maneira similar, isso ocorrerá com a América do Sul.

Correio da Cidadania: Como ficará o Brasil diante do presidente do Partido Democrata e seu programa de governo?

Virgílio Arraes: O governo apostou no ‘trumpismo’, ao identificá-lo similar ao ‘bolsonarismo’ e antes mesmo das eleições presidenciais de novembro já havia perdido, vez que a tentativa de aproximação nada trouxe, a não ser corrosão política. O nacionalismo aludido lá não existe aqui. Há muitos anos o comércio bilateral é deficitário para o Brasil.

Guardadas as devidas proporções, o comportamento de bajular dirigentes de grandes potências não é novo na nossa política; no início da ditadura militar, com o governo de Castelo Branco, ou no começo da própria República, ao cabo do século 19. Há raízes dessa mentalidade na época do marquês de Pombal, quando a primeira potência era a Inglaterra.

Vale a pena a menção ao visconde de Palmerston, quando à frente da chancelaria britânica no século 19, quando afirmou que a Grã-Bretanha não tinha nem aliados eternos, nem inimigos perpétuos; eternos e perpétuos eram os interesses do país. Este dito aplica-se sem problema algum aos Estados Unidos, dado o pragmatismo histórico do país.

Biden como Trump vai defender os interesses do seu país. Deve ter mais êxito, visto o abatimento do Brasil diante do mundo por causa da improficuidade no combate à pandemia, da ineficiência da política ambiental e dos atritos diplomáticos desnecessários com a China e eventualmente com países da América do Sul.

Gabriel Brito é jornalista e editor do Correio da Cidadania.

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