Correio da Cidadania

Voltando à militância partidária

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Por uma série de circunstâncias, passei seis meses sem escrever para o Correio da Cidadania. Retorno para tratar de algo bastante pessoal: minha decisão de voltar à militância partidária. Essa partilha, porém, de alguma forma, pode somar no debate que tenho lido por aqui sobre o contexto político brasileiro.

 

Aos 19 anos, apostei na política partidária e parlamentar como um instrumento de transformação social, o que me deu a oportunidade de exercer dois mandatos e funções de direção partidária. Em 2002, acreditei no PV como um dos caminhos possíveis para a renovação da esquerda brasileira a partir da influência das ideias ambientalistas. Não fiz uma opção ingênua: conhecia as contradições e as limitações do partido, da representação política e também as minhas, mas queria tentar. De fato, algumas conquistas foram possíveis, mas decepções também não faltaram. Em 2012, participei de um projeto construído coletivamente no campo da esquerda como candidato a vice-prefeito e perdemos.

 

Resolvi cuidar da vida, de minha profissão, pois política não pode ser profissão. Passei a me dedicar integralmente à atividade acadêmica e a outras formas de intervir politicamente: pesquisar e discutir os problemas da democracia brasileira e as condicionantes que lhes são impostas pela estrutura econômica global; contribuir com a formação intelectual e política de meus alunos; e colaborar com movimentos e lideranças que atuam no controle social das políticas públicas.

 

Meu partido não me encantava mais como nos tempos do final da adolescência e início da juventude. E política sem encantamento, sonhos, paixão, não tem sentido. Permaneci filiado por simples falta de coragem de deixá-lo definitivamente, mas não era mais um militante de fato. Paralelamente, o contexto nacional se mostrava cada vez mais desanimador: quais os motivos para dedicar tempo e energia à política? Estou muito feliz com meu trabalho como professor, tenho esposa e filho com quem tanto estive em falta nos tempos da militância partidária... Melhor cuidar da vida?

 

No último dia 14 de julho criei coragem: desfiliei-me do PV. Para desistir definitivamente da política? Não, mas para me juntar a pessoas que, enquanto muitos, como eu inclusive, decidiram se afastar da luta coletiva, mantêm viva a chama da utopia de uma sociedade justa, em que a dignidade do ser humano seja mais importante do que a vontade do “mercado”, em que a Terra seja compreendida como “mãe e irmã” (e não como simples conjunto de recursos a serem explorados) e a democracia não seja mera retórica de legitimação de relações de dominação.

 

Filio-me e passo a militar no PSOL. Mais uma vez, o faço sem ingenuidade. Conheço os limites do partido, mas permanecer em busca de um partido “ideal” significaria apenas procurar por um espelho que refletiria nada mais que meus próprios limites e contradições. Estou consciente de que o contexto político é desfavorável. Ingresso nesse projeto sem ter as eleições no horizonte próximo, pois entendo que as urgências são outras:

 

1) manter acesa a chama da utopia;

 

2) resistir ao avanço reacionário de todos os lados, do governo, da oposição e de quem não tem posição, que ameaçam direitos e conquistas democráticas;

 

3) e, como tem insistido Frei Betto, ajudar a “organizar a esperança”.

 

A certeza que tenho é que ingressando no PSOL é possível ser parte da luta para enfrentar essas urgências e, por isso, o faço com o encantamento com a política reavivado.

 

 

Murilo Gaspardo, 32, é professor de Ciência Política e Teoria do Estado da UNESP/Franca e Doutor em Direito do Estado pela USP.

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