Correio da Cidadania

Jamais seremos os mesmos

 

 

 

Escrevo para mim mesmo e alguns milhões que comungam a mesma impotência – pelo menos por ora - perante o golpe impetrado no Brasil e seus desdobramentos.

 

Não tivemos chance de defesa. Falo dos 54 milhões de brasileiros que tiveram seus votos sequestrados por trezentos e poucos calhordas da Câmara e depois 60 senadores. Agora, todas as mudanças constitucionais que vão sendo operadas de costas para o povo.

 

Não se trata de defender os erros e até crimes do PT ou de petistas. Mas também não se trata de cegar para a fantástica hipocrisia nacional, cabalmente demonstrada no avanço das investigações sobre outros partidos.

 

Agora já se questiona o resultado do golpe. A recessão econômica projetada no governo Dilma era de 3,5% do PIB. Com Temer está projetada em 7%. A indústria caiu, o agronegócio também e o desemprego saltou de 10 milhões com Dilma para 12 milhões com Temer. Portanto, aquela promessa mágica que o golpe prometia não se realizou. Agora, até Fernando Henrique já fala em eleições diretas para dar alguma credibilidade a quem vai enfrentar o abismo em que nos lançaram.

 

A fratura social do Brasil cravou na alma e vai durar muitas gerações. Vamos continuar nos cuspindo, nos enfrentando em manifestações de rua, restaurantes, nos ofendendo nas redes sociais, alimentando discriminações étnicas, sexistas, classistas, regionais e todas de outros naipes. Talvez nunca tenhamos sido uma nação, mas um aglomerado de pessoas que ocupam o mesmo território (Leonardo Attuch).

 

Quem tem fome e sede de justiça não pode aceitar um ajuste fiscal e econômico às custas da subtração de direitos e da miséria do povo. A verdadeira reconciliação só se dá em cima da justiça e com um passo a mais na misericórdia, que pressupõe a justiça. E o golpe está aprofundando todas as injustiças históricas do país. O ajuste não é apenas impopular, como diz a grande mídia, mas anti-humano.

 

Não se trata de nos alimentarmos de ódio. Ele paralisa e mata. Mas da contínua indignação perante as injustiças estruturais e estruturantes que são impostas secularmente às vítimas de nossa história. A distância entre o ódio e a indignação é um piscar de olhos.

 

Jamais seremos os mesmos. Essa é a frase que mais ouvi nos últimos tempos, de pessoas tão diferentes, que nem se conhecem. Ou nos reconciliamos na justiça, ou jamais nos reconciliaremos.

 

 

Roberto Malvezzi atua na Comissão Pastoral da Terra na região do rio São Francisco.