Tudo o que é sólido termina em exploração
- Detalhes
- Sergio Domingues
- 19/12/2017
“Capitalismo sem capital” é o nome de um recente livro publicado pelos britânicos Jonathan Haskel e Stian Westlake. Ainda sem edição no Brasil, a obra foi comentada por John Harris, em artigo reproduzido pelo portal IHU-Online.
Harris cita a famosa frase “tudo o que é sólido desmancha no ar” para explicar o fenômeno que dá nome ao livro. Segundo ele, a nova economia dos aplicativos seria a melhor demonstração daquela passagem do Manifesto Comunista.
Afinal, a Airbnb não tem imóveis, o Alibaba não tem estoque e a Uber não tem automóveis, diz o artigo. Seriam exemplos perfeitos de capitalismo sem capital. Da crescente economia de bens intangíveis.
Mas, se realmente Haskel e Westlake utilizam como referência Marx e Engels, não entenderam nada de sua obra.
Primeiro, quando o Manifesto afirma que tudo que é sólido desmancha no ar, está se referindo à consolidação do capitalismo, não a seu desaparecimento. Airbnb, Alibaba e Uber são radicalizações dessa tendência, não sua negação.
Em segundo lugar, em “O Capital”, Marx deixou claro: “O capital não é uma coisa, mas uma relação social”.
A mercadoria mais valiosa na produção capitalista é a força-de-trabalho. Integrada à massa de forças-de-trabalho do conjunto dos trabalhadores, ela torna-se o mais intangível dos bens.
É exatamente esta intangibilidade da força-de-trabalho que permite esconder sua exploração como fundamento maior da sociedade atual.
Na verdade, a única coisa realmente sólida no capitalismo tem sido a exploração de uma maioria que só aumenta por uma minoria cada vez menor.
Mas Harris tem razão numa coisa. A atual fase do capitalismo “provavelmente disseminará incerteza e agitação como nunca”.
Leia também: Marx e Engels 4.0
Sergio Domingues é sociólogo e servidor público federal.
Blog: Pílulas Diárias.