O ludismo eletrônico
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- Nildo Ouriques
- 17/10/2018
O ludismo foi movimento dos trabalhadores no auge da revolução industrial inglesa (1790-1830) e que basicamente atribuía às máquinas grande parte dos males sofridos pelos trabalhadores. Ned Ludd (de onde derivou a expressão "ludismo") jamais existiu, contam os historiadores. Era apenas uma forma de resistência dos condenados da terra naquela grande transformação que levou a Inglaterra à condição de oficina do mundo, com todos os horrores correspondentes.
Agora, ouço todos os dias que esta campanha presidencial funcionou via whatsaap e, segundo o mesmo verso, a nota dominante teria sido as mentiras e falsificações (fake news) contra a "esquerda".
Observo pessoas inteligentes e críticas atribuírem ao celular um poder desmedido, quase que responsável pela imensa vitória que o protofascista Bolsonaro consolidou para a disputa do segundo turno.
É "tese" falsa, completamente falsa! O whatasapp não é a novidade desta eleição. A novidade, creio, é outra, mais difícil de reconhecer e menos ainda aceitar.
Não vejo ninguém disposto a reconhecer algo elementar: se as mentiras e falsificações do whatsapp funcionaram em favor do ultraliberalismo - em especial nas massas proletarizadas - é porque o SISTEMA ESCOLAR fracassou completamente ao negar conteúdo científico e crítico ao povo, pelo menos em doses elementares suficientemente fortes para rechaçar mentiras de quinta categoria que se tornaram artigos de fé ("o PT é comunista", "o Brasil será a Venezuela amanhã", "as universidades estão tomadas pela esquerda" etc.)
Eu também recebi dezenas delas e era bastante fácil identificar na absoluta maioria dos casos com apenas um minuto de atenção a origem e sentido fraudulento da mensagem.
Ao contrário do ludismo eletrônico que agora emerge como meio para evitar uma avaliação séria e rigorosa de nossa calamitosa situação, creio que cobrou seu preço o absoluto desprezo pela teoria no interior dos sindicatos e dos partidos de esquerda que abandonaram o estudo e a formação política há anos em nome de um pragmatismo e burocratização agora feridos de morte.
Ademais, se admitimos que as falsificações e mentiras eletrônicas (fake news) funcionaram, teremos que reconhecer que, no mínimo, funcionaram porque o terreno era fértil. Enfim, a capacidade imunológica dos corpos era muito baixa. Baixíssima!
A tecnologia - ensina Alvaro Vieira Pinto - está submetida a relações sociais de produção. Afinal, tornar o whatsaap um fetiche adicional não desvelará a realidade, mas, ao contrário, alimentará o monstro da alienação.
A imensa derrota eleitoral do primeiro turno não pode ser compensada com meias verdades, arremedos de explicações e menos ainda obscurantismo.
Enfrentar nossas debilidades é tarefa fundamental se ainda acreditamos que a História não chegou a seu término e batalhas futuras nos esperam em janeiro.
Nildo Ouriques é economista e presidente do Instituto de Estudos Latino-Americanos da UFSC.
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