Correio da Cidadania

Eu e a pandemia – impressões da quarentena

BC diz que reduzir mortes por coronavírus é pior para economia
Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central, e o ex-ministro da saúde, Luiz Henrique Mandetta
Sergio Lima/AFP via Getty Images

“O que mais receamos é o que nos faz sair dos nossos hábitos.

Dostoiévski”, Memórias do subsolo

Respeito o mantra #fiqueemcasa porque compreendo a sua necessidade para conter o avanço da peste. Mas a aparente calmaria da minha reclusão pequeno-burguesa é muito angustiante porque prenuncia um tsunami gigantesco. Enquanto eu intuo, Henry Kissinger é categórico: “A pandemia de coronavírus alterará para sempre a Ordem Mundial”. (nota no The Wall Street Journal de 3 de abril) Assim começo minhas impressões de quarentena.

Desde cedo precisei trabalhar para me manter e vez ou outra aproveitei as oportunidades que a vida me ofereceu. Ralei bastante dentro e fora de casa para criar meus filhos, estudar e trabalhar. Depois de 35 anos de labuta me aposentei na carreira universitária como professora de sociologia em universidade pública. Fui das últimas da minha geração a privar de direitos extintos e reconheço que, no atual mundo do trabalho, sou privilegiada.

Submeto-me à internação forçada principalmente porque, pela idade, pertenço ao grupo de risco; nessa condição, sou “poupada” pelo isolamento vertical defendido por Bolsonaro e seu bando. Até aqui, pelo menos, me sinto protegida na comodidade do meu lar acolhedor. Me alimento bem e tomo vitaminas para melhorar a imunidade. Tenho livros ótimos e em quantidade suficiente para ler por duas ou três vidas mais. Meu gosto musical e minha cinefilia se refestelam pelas mídias alternativas. Não tem sido exatamente penoso o meu isolamento físico, até porque minha interação social com familiares e amigues querides, ainda que no plano virtual, é até mais intensa que antes de um tempo que não me pertencia. Os que de nós sobreviverem a tudo isso, certamente terão suas afinidades eletivo-ideológicas ainda mais sólidas.

A situação política recente no Brasil, afeita a polarizações das quais mantive distanciamento profilático, tornou meu temperamento mais arredio, por isso não costumo interagir muito com a vizinhança sempre muito gentil. Prefiro não me decepcionar com suas opções políticas e manter a cordialidade formal costumeira. Mas, gosto do silêncio que meu bairro residencial, arborizado, de classe média, proporciona neste momento de caos generalizado. Os serviços delivery funcionam aqui. E tomo todas as precauções sanitárias e distanciamento seguro ao receber os entregadores no portão. (Quase sempre eles estão muito apressados e exaustos pela sobrecarga de trabalho que tanto enriquece Bezos. Recebo a mercadoria com cautela e depois sou obrigada a desinfectar tudo o que foi tocado por eles. Esse ritual me incomoda demais.)

Após tanto tempo me dedicando à docência contaminada de um produtivismo insano, finalmente sobra-me tempo para cuidar das minhas plantas. Fiquei feliz com minha pequena horta que vingou lindamente. Arrisco também yoga pela internet, faço um esforço danado – sempre frustrado - para meditar, mentalizar imagens serenas e inventar alguma paz interior. Tenho tomado mais vinho que o habitual porque com ele consigo alguma leveza no corpo e na alma. Por conta disso durmo um pouco melhor, acordo tarde e fujo das tarjas pretas. Na companhia da minha gata Zazá, acho que finalmente supero uma antiga culpa cristã de sentir preguiça.

Neste meu quase estado de contemplação inusitada, penso nas ilusões e vaidades que deixei para trás, penso ainda nas esperanças que me reservo o direito de conservar, mas que, frente às completas incertezas destes tempos, sei que preciso rearticular e reaprender o que fazer com elas. Interrompo os pensamentos em busca de respostas. Pelos meios digitais, leio freneticamente a respeito da realidade trágica que assola o planeta. São muitos e bons os artigos que encontro sobre este presente inquietante! Atraem-me os mais radicais e os mais repugnantes, aqueles que trazem dados irrefutáveis sobre a necessidade de mudar absolutamente tudo. Definitivamente, a segurança que me rodeia é vã, o que transforma meu oásis num Grande Hotel Abismo.

Ligo a TV por inércia e, no insólito da situação, penso em Eduardo Galeano. Para ele, “A televisão, essa última luz que te salva da solidão e da noite, é a realidade. Porque a vida é um espetáculo: para os que se comportem bem, o sistema promete uma boa poltrona”. Por isso, a TV é a mídia mais popular e na imensa maioria dos casos a única fonte de informação dos “bons cidadãos”. Em situação de quarentena, a audiência explode. Desde março, a pandemia do Coronavírus mobiliza absolutamente toda a programação e se transforma num espetáculo mórbido a distrair pessoas em confinamento.

Com este intuito, há mais de um mês os telejornais tiram leite de pedra e se esmeram na arte de preencher o largo tempo de que dispõem para girar em torno do mesmo tema, repetir incontáveis vezes as mesmas coisas com as mesmas imagens e as mesmas pessoas. Os noticiários criaram uma rotina muito eficiente para atualizar os números de infectados e de mortos. Não há qualquer compaixão pelos que se vão solitários nos leitos de UTIs (se tiverem sorte) e que, igualmente solitários, sem seus entes queridos, são sepultados em valas comuns, como se usa nas guerras.

No ramerrão jornalístico viramos números e a crescente renovação dos índices é noticiada com a mesma consternação mecânica com que se ensina a lavar as mãos, a espirrar no antebraço, a usar máscaras, luvas, álcool em gel e evitar qualquer contato humano. De um lado, reportagens mostram panelaços arrependidos em prédios, cujas sacadas revelam talentos no bel canto e espíritos atléticos. De outro, imagens das enormes filas formadas para cadastro de CPF e para obtenção do auxílio emergencial em agências da Caixa Econômica Federal, assim como focos em bairros das periferias, em geral, servem para ilustrar o desrespeito pelo isolamento social. Cria-se com isso uma espécie de Alienação Virtuosa, compulsória e darwinista, onde cada um se vira como pode frente a ela. Portanto, classista.

No meio disso tudo, a TV nos mostra os rolês pestilentos do miliciano e ainda nos dá a opção de escolher o lado das “contendas” entre Bolsonaro e a China, entre Bolsonaro e a OMS, entre Bolsonaro e Witzel, entre Bolsonaro e Dória, entre Bolsonaro e Guedes, entre Bolsonaro e o general Santos Cruz, entre Bolsonaro e Mandetta e, por fim, entre Bolsonaro e Moro. Os “oponentes” parecem beatos frente a mais nova e burlesca personificação do Mefisto. Todos, no entanto, fazem parte da mesma trupe do mal. Afinal, mal é mal... menor, maior, médio na República da Necropolítica.

Pois bem, a crise do coronavírus, que conforme as grandes mídias “há de passar logo”, tenta ocultar a crise maior na qual se insere e que, por conta daquela, há de se agravar ainda mais profundamente: a crise estrutural sistêmica que, há décadas, se agudiza pelo acúmulo das contradições sociais e ambientais inevitáveis à sua lógica de funcionamento essencialmente destrutivo. No segundo semestre de 2019, cresceram manifestações massivas por vários países da América Latina e da Europa contra o neoliberalismo. Onde estarão todos esses manifestantes agora? E os refugiados na Europa, nos EUA, as crianças separadas dos pais e confinadas em gaiolas?

Na telinha o mundo parou, a economia estacionou, as ruas das grandes cidades estão vazias e a costumeira poluição de Xangai evanesceu. Com exceção dos feminicídios que ganham algum destaque pelo aumento brutal em função dos confinamentos, pouco ou nada se fala dos assassinatos de ambientalistas, de indígenas, camponesxs, moradorxs de rua e até mesmo o nosso racismo impenitente saiu de cena; zeramos as queimadas, os desmatamentos, zeramos a reforma trabalhista, previdenciária, tributária, zeramos a pedofilia, o tráfico, o trabalho infantil, o trabalho escravo. Da quarentena em frente à TV é até possível imaginar que o moinho satânico reconhece a derrota e abdica de sua dinâmica infernal. Que a vida pode finalmente se redescobrir sem o seu controle. Mas, isso não é verdade. É óbvio!

A barbárie está só começando. Porque nas sombras desse vírus assustador, o capital nos quer guardados para nos cegar do fato de que está mais ofensivo de nunca. Por todas as partes, matanças, incêndios, violências de toda ordem rolam soltos e são o contraponto da hipocrisia governamental em todo mundo que “quer preservar a vida” depois de décadas atacando e monetizando sem dó nem piedade todo o sistema de saúde pública.

Neste quadro, são eles, os mais pobres, os 40 milhões de trabalhadores sem carteira e os 12 milhões de desempregados atingidos pela política econômica brasileira a sofrer as consequências mais trágicas dessa doença. A quarentena adicionará mais 2,5 milhões de pessoas desempregadas, segundo estimativas do mercado financeiro” (2). A desigualdade social no Brasil vai ficar mais escancarada do que em qualquer outra época da história. Daí o clima geral de responsabilização e criminalização dos indivíduos que violam a ordem de recolher e uma vez mais, são eles a pagar tributo por suas próprias desgraças (assim mesmo como acontece durante a crise do abastecimento com o desperdício da água do banho e da lavação de calçadas pela senhorinha do bairro.)

São eles também que habitam o cérebro perverso de Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central, que superou o avô quando, em uma live organizada pela XP Investimentos, defendeu a ideia de que REDUZIR MORTES POR CORONAVÍRUS É PIOR PARA A ECONOMIA! (3) Política claramente genocida com verniz de (ir)racionalidade teórica neoliberal. Trump e Bolsonaro não são malucos quando gritam contra a quarentena. Para eles, que morram pobres, que morram velhos. Que se enxugue o que a ciência fomentou: o aumento da expectativa de vida da população mundial e o que isso significa em termos de cobertura do Estado para a previdência social.

Passada a crise do coronavírus, estaremos em menor número neste mundo, isso quer dizer que o controle social será mais factível. O Estado ficará mais aliviado das políticas públicas e disporá de mais recursos para o grande capital. Os pobres mais miseráveis e os ricos muito, mas muito mais ricos.

Minha quarentena segue firme e cada vez mais inquieta diante do mundo que encontraremos quando sairmos da toca. Precisamos urgentemente encontrar ferramentas de combate!


Notas:

1) http://esquerdadiario.com.br/Criminoso-37-criancas-imigrantes-infectadas-com-Covid-19-em-abrigos-de-Chicago?fbclid=IwAR03zP58mmUS0IPM3Bb5ajJGYq3zPgrJtPsqlTITa15wcYLjOKTb7e4Vi7U 

2) https://oxfam.org.br/blog/desigualdades-e-coronavirus/ 

3) https://theintercept.com/2020/04/16/banco-central-presidente-coronavirus-economia/ 

Maria Orlanda Pinassi é socióloga e professora da UNESP aposentada. Autora de Da miséria ideológica à crise do capital: uma reconciliação histórica.