Correio da Cidadania

As revelações de Paulo Guedes

Vamos perder dinheiro salvando empresas pequenininhas", diz Paulo ...
Aproveitar a crise para ganhar dinheiro com grandes empresas, mais lucrativas, relegando um papel de fracasso às pequenas (que são a imensa maioria e geram a maioria dos empregos), em um raciocínio muito mais monopolista do que concorrencial. Liquidação do patrimônio público restringindo ainda mais as possibilidades de um Estado fraco (da periferia do capitalismo mundial) ser capaz de políticas financeiras na “área social” e na indução de desenvolvimento econômico. Mediação da contratação de jovens a 200 reais para trabalhar em obras de infraestrutura. Incentivar um turismo que “Deixa cada um se foder do jeito que quiser. Principalmente se o cara é maior, vacinado e bilionário”. Aproveitar a crise sanitária para “ir passando a boiada” das desregulamentações ambientais para expandir a destruição da natureza.

É claro que precisamos no mínimo desconfiar de qualquer liberalismo em um mundo dominado pela ideologia liberal e que aumenta o domínio dos imensos monopólios econômicos. Segundo estudo de 2018 da Global Justice Now, 69 das 100 maiores entidades econômicas do mundo eram empresas. O desemprego estrutural que lança a maioria da população, quando muito, em empregos precários sob baixos salários torna uma piada a perspectiva de uma negociação livre entre trabalhadores e patrões.

As desigualdades abissais e crescentes sob a dinâmica capitalista também impossibilitam uma crença séria na eficácia do liberalismo e de sua apologia à meritocracia. Vivemos em um mundo no qual 26 pessoas tinham a mesma riqueza que 3,8 bilhões de pessoas em 2019 (segundo dados da OXFAM), afirmando pobreza e miséria, por um lado, e uma dinâmica política completamente refém dos endinheirados, com condições incomparáveis de fazerem valer seus interesses.

E é cada vez mais necessário lembrar que a existência de todas as formas de vida está ameaçada pela lógica dos interesses capitalistas (legitimados pela ideologia liberal), dado termos chegado ao colapso do planeta em atender a dinâmica de lucro exigida pelas “necessidades” do atual padrão de desenvolvimento econômico.

Para apresentarmos apenas uma faceta disso, lembramos que as concentrações atmosféricas de CO2 atingiram 416,76 partes por milhão (ppm) em abril de 2020, o que aproxima o planeta de uma perspectiva de aumento de temperatura média de 2o C (largamente associado a uma concentração de 450ppm). O quadro de escassez hídrica dentre vários outros problemas como impactos na produção agrícola, tende a se agravar muito.

Mas se o liberalismo já é uma ideologia que não se sustenta no mundo frente o aprofundamento da crise do capitalismo e de sua incapacidade em garantir necessidades básicas de existência para a maioria das pessoas (que dirá liberdade), o liberalismo defendido no Brasil consegue “ir além”. As raízes escravocratas presentes no liberalismo brasileiro sempre surpreenderam pela obstinação em superexplorar a população mais pobre. E conseguem, como revela a fala do ministro da economia, a proeza de “regredir” o trabalhador à própria condição de escravo.

Porque aos escravos cabia a preocupação de que sobrevivessem. Mas que sobrevivência é possível com o “vale” de 200 reais, primeiro no contexto do auxílio na pandemia (inicialmente proposto pelo governo Bolsonaro e que por pressão virou 600) e agora como perspectiva para jovens que atuarão em obras públicas no futuro? Isso mostra que os liberais brasileiros, muito bem representados pela financista Paulo Guedes, tomam os trabalhadores e todo o povo pobre como descartável. O que também explica o genocídio dos jovens e crianças(!) negras nas periferias urbanas.

O conteúdo da reunião interministerial que veio a público em 22 de maio revela em primeiro lugar a face mesquinha de um governo que não se preocupa minimamente e até distorce a gravidade da crise sanitária que acomete o povo brasileiro. Revela também a articulação de Bolsonaro para livrar a si e sua família dos crimes em que estão envolvidos. E revela principalmente a disposição de Bolsonaro e seus ministros em aprofundarem os problemas estruturais do Brasil, que nunca superamos.

Suas falas anunciam um projeto de país com mais desigualdade, com maior exploração e sofrimento do povo, mais dependente de interesses externos e mais especializado economicamente na destruição da natureza para a exportação de algumas matérias-primas e em um turismo para “cada um se foder do jeito que quiser”.

São abutres dispostos a entregar o que resta do Estado brasileiro e das riquezas naturais do país (água, petróleo e minérios) para os privilégios de pequenos grupos locais e para os negócios das corporações imperialistas. Também são ressentidos e covardes que destilam sua ignorância e ódio para, através do incentivo à intolerância e ao preconceito, tentar evitar que o povo tome o destino do país em suas próprias mãos e construa uma história de verdadeira liberdade, com dignidade e muita luta.

Potiguara Lima é cientista social, biólogo, professor de Educação Básica, mestre e doutorando em Educação e filiado ao PSOL.