Correio da Cidadania

A criatura agoniza, mas a luta contra quem criou o monstro vai prosseguir


A notícia do momento é a pesquisa do Datafolha na qual 75% dos 2.016 entrevistados na terça (23) e quarta-feira (24) passadas apontam a democracia como o regime mais adequado e apenas 10% consideram uma ditadura aceitável em algumas situações. O placar anterior, em dezembro último, tinha sido de 62% contra 12%.

Desde 1989, quando o instituto começou a pesquisar tal questão, é o maior índice de aprovação obtido pela democracia.

Para evidenciar ainda mais o fracasso das pregações totalitárias de Jair Bolsonaro, 78% veem o regime militar por ele idolatrado e relativizado como a ditadura que realmente foi e só 13% discordam.

Ou seja, um ano e meio de mandato foram suficientes para Bolsonaro desacreditar de forma acachapante os valores ultradireitistas que ele professa, daí sua vexatória situação atual, de depender basicamente do velho e execrado fisiologismo para tentar (inutilmente) salvar seu mandato.

Mas, como ele saberia se não tivesse passado três décadas de parasitismo legislativo ocupando-se de miudezas, o centrão nunca salva quem está despencando: vende caro seu apoio durante a fase agônica e o retira quando o desfecho é iminente, para compor-se com os vencedores.

Este blog vinha cantando a bola de há muito e reiterou seus prognósticos na última 5ª feira (25): O Trump e o Bozo deverão comemorar o réveilloon como ex-presidentes, para alívio e regozijo da humanidade. Os acontecimentos continuam se encaminhando exatamente em tal direção:

— o palhaço estadunidense vê a Covid-19 voltar a crescer exatamente nos estados que lhe seriam eleitoralmente mais favoráveis, enquanto Joe Biden coloca 10 pontos de vantagem sobre ele nas pesquisas mais recentes;

— o palhaço brasileiro se mostra cada vez mais errático, caindo em profunda prostração com as más notícias, exagerando a importância das que lhe parecem boas (a decisão estapafúrdia que livrou Flávio Bolsonaro de um juiz de verdade tem fôlego curto e será derrubada adiante) e tentando agora projetar uma imagem de paz e amor que só serve para mostrar quão cínico ele pode ser e quão desesperada é sua situação.

Enfim, enquanto a Folha de S. Paulo faz uma edição dominical com a flagrante intenção de surfar na onda da derrocada do bolsonarismo, esforçando-se para aparentar estar reeditando seu papel nas diretas-já e, assim, poder colher o máximo de louros quando o Bozo for removido do poder, iremos noutra direção: passará a discutir o que virá depois e qual deve ser a nossa postura diante do novo quadro que já se esboça.

Não nos interessa colher louros de vitórias parciais, mesmo quando tão necessárias quanto a que se avizinha (Bolsonaro se mostrou de tal forma pernicioso e destrutivo que seu afastamento se tornou a prioridade máxima e mais urgente da esquerda, à medida que cada dia de permanência no poder agrava a tragédia humanitária da Covid-19, maximizando as mortes evitáveis).

Mas a retirada do bode da sala é só um passo do caminho que precisamos percorrer para resgatarmos o Brasil da desigualdade social e do autoritarismo político que nele sempre prevaleceram, ora escancarados, ora camuflados como o vêm sendo neste século pelo consumismo e pelas ilusões democrático-burguesas.

Bolsonaro logo será uma (deprimente) página virada da História, mas a luta contra o verdadeiro inimigo vai continuar. Seu nome é capitalismo.

Celso Lungaretti é jornalista.