“Não há estrutura material e políticas públicas adequadas para os profissionais da saúde; o sofrimento aumenta”

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Coronavírus: trabalhadores da saúde lutam contra medo, riscos | Saúde
O Brasil parece conviver cada vez mais tranquilamente com as dezenas de milhares de cadáveres que a pandemia do coronavírus empilha. Enquanto as pessoas morrem, os governos tentam normalizar o cotidiano, sem conseguir achatar a chamada curva de contágio, coisa prevista para o início da quarentena. Dessa forma, aumenta a pressão sobre o sistema de saúde e seus profissionais. Para analisar a situação e contar um pouco mais do dia a dia dos profissionais da saúde, o Correio entrevistou Paulo Spina, trabalhador da saúde mental em São Paulo.

“Este governo deve ser responsabilizado pelas milhares de mortes que poderiam ser evitadas. O governo federal coloca o lucro acima da vida. Prioriza as grandes empresas, ao invés das pessoas de carne e osso. Agora os governos municipais e estaduais nas últimas semanas estão aderindo à pressão do governo federal, das empresas e de parte da sociedade para relaxar as medidas de distanciamento físico. As pessoas obviamente estão cansadas, todas e todos querem logo terminar essa quarentena. Mas é preciso política pública para salvar vidas no momento”.

Apesar do reconhecimento maciço da população a respeito do papel do SUS, Spina afirma que os projetos privatistas continuam avançando, além de o mau uso de recursos públicos no combate à pandemia começar a se evidenciar em muitos casos.

“Os governos deveriam aproveitar o momento para estruturar o SUS e não para destinar recursos à iniciativa privada. Os casos de corrupção na pandemia já estão aparecendo e, se aprofundarem investigações, será descoberta uma onda de irregularidades com o dinheiro público”.

Dessa forma, Spina, que também é membro do Coletivo Horizontes e tem doutorado em estudo de movimentos sociais de direita, destaca que o sofrimento aumenta progressivamente entre os profissionais da área, uma vez que se tenta retomar a normalidade sem que se tenha conseguido atingir padrões minimamente satisfatórios de contenção do contágio.

“O sofrimento com a vida cotidiana aumentou exponencialmente. O medo real de se contaminar e levar a doença para familiares e a pouca estrutura de EPIs de qualidade têm levado a diversas trabalhadoras e trabalhadores a optarem por se distanciarem das famílias. É muito sofrimento. Eu mesmo fiquei 15 dias longe da minha esposa e dos meus filhos por ter tido uma situação de alto risco de contágio e foi um período dificílimo”.

A entrevista completa com Paulo Spina pode ser lida a seguir.

Correio da Cidadania: Como avalia a evolução do número de casos e óbitos do Coronavírus no Brasil? O que devemos esperar para o mês de julho?

Paulo Spina: É um verdadeiro caos o que estamos vivendo no Brasil nestes últimos meses. É inaceitável termos 60 mil mortes por esta doença e quase 1,5 milhão de casos. A parte mais pobre da população é que sofre as consequências do descaso, do despreparo, da ignorância do governo federal. A doença é grave, mas milhares de mortes poderiam ter sido evitadas se tivéssemos realizado de maneira eficaz as medidas de distanciamento físico.

Quando comparamos com outros países, como Índia e Rússia, vemos o quão grave é a nossa situação. Estamos sendo bombardeados por notícias ruins nos deixam atordoados, mas não podemos normalizar o que está acontecendo no Brasil.

Vemos em diversos locais do mundo que a doença não segue necessariamente uma evolução piramidal, no qual ela subiria, atingiria um platô e depois desceria. O que vemos – a exemplo de lugares como os EUA – é que o relaxamento de medidas de distanciamento físico pode fazer os casos voltarem a subir rapidamente.

Portanto, no Brasil, e especificamente em São Paulo, querem promover notícias de normalidade e criar expectativa de descidas dos casos e mortes, mas com o relaxamento sistemático que vemos por aqui das medidas de distanciamento o cenário ainda pode piorar, principalmente para os setores mais vulneráveis da população.

Correio da Cidadania: O que comenta da postura do governo brasileiro e seu reflexo no cotidiano? Nas esferas estaduais e municipais a diferença de atitude dos governantes é o bastante?

Paulo Spina: É um governo tenebroso, completamente paralisado e, pior, incentiva seus seguidores a colocarem todo a população em risco. Declarações como “é uma gripezinha”, “e daí?”, são tapas na cara das trabalhadoras e trabalhadores da saúde que estão arriscando a vida para salvar outras. Este governo deve ser responsabilizado pelas milhares de mortes que poderiam ser evitadas. O governo federal coloca o lucro acima da vida. Prioriza as grandes empresas, ao invés das pessoas de carne e osso.

Agora os governos municipais e estaduais nas últimas semanas estão aderindo à pressão do governo federal, das empresas e de parte da sociedade para relaxar as medidas de distanciamento físico. As pessoas obviamente estão cansadas, todas e todos querem logo terminar essa quarentena. Mas é preciso política pública para salvar vidas no momento. Falta coragem destes governantes e criatividade para tomar medidas concretas não apenas de distanciamento físico, mas de garantia de que as pessoas mais pobres possam viver dignamente neste momento. E a volta vai prejudicar justamente as mulheres mais pobres, pois como vão fazer com a volta do trabalho presencial sem as escolas e creches?

E ainda temos casos absurdos em diversos locais de destruição do SUS, com a privatização de serviços. Só para citar um exemplo, em Osasco, na grande São Paulo, a péssima gestão do prefeito Rogério Lins aproveitou da pandemia para privatizar serviços de saúde.

Estes governos deveriam aproveitar o momento para estruturar o SUS e não para destinar recursos à iniciativa privada. Os casos de corrupção na pandemia já estão aparecendo e, se aprofundarem investigações, será descoberta uma onda de irregularidades com o dinheiro público.

Se estes governos realmente colocassem a vida acima do lucro e o bem viver da população antes da preocupação com seus projetos eleitorais, tomariam medidas como ampliação da testagem e medidas efetivas para garantir o distanciamento físico, com ampliação do suporte financeiro para as pessoas – principalmente mulheres - e os pequenos comerciantes; criariam núcleos de crise por bairro, painel de informações detalhadas sobre a evolução da doença e valorização efetiva dos SUS e de todas as trabalhadoras e trabalhadores da saúde.

Correio da Cidadania: Quanto ao Ministério da Saúde, o que comenta de sua atuação? O que falar da troca de ministros?

Paulo Spina: É uma vergonha. A militarização do Ministério da Saúde neste momento de crise sanitária e de crise de saúde mental tornou-se uma forma de colocar em prática a paralisia, o retrocesso e a completa subordinação a Bolsonaro. O mínimo que as pessoas esperam de um governo são informações confiáveis e transparentes, mas nem o básico é realizado.

É uma forma de governar que não é baseada na ciência e nas evidências científicas e que se diminui para atender delírios governamentais do presidente, como incentivar pessoas a invadir unidades de saúde ou atacar a Organização Mundial de Saúde.

Correio da Cidadania: A população realmente entendeu o que deve ser feito? Qual a importância de se manter a quarentena?

Paulo Spina: A população é sempre algo muito diverso. O que podemos problematizar é que há dois campos que, inclusive, estão relacionados com a avaliação do governo. Uma parte expressiva da população consciente dos perigos da Covid-19 se esforça para se cuidar de acordo com as poucas possibilidades oferecidas, principalmente para os setores mais populares. E outro campo minoritário, mas ainda assim relevante, que relativiza o perigo da pandemia para si e coloca outros em risco, incentivados pelo discurso de Bolsonaro.

Mas o que dificulta a realidade de boa parte da população é o que o Galo - líder dos entregadores de aplicativos que fizeram uma paralisação nacional na quarta, 1 – falou muito bem recentemente: no meio da pandemia tem o pandemônio de injustiças e opressões que atingem a vida das pessoas mais pobres, obrigando diversos setores dos trabalhadores a ter de colocar sua própria vida em risco para sobreviver.

Correio da Cidadania: Como está o dia a dia do profissional da saúde?

Paulo Spina: O suicídio da enfermeira Mariana Polizeli, de 35 anos, que trabalhava em um serviço de saúde na cidade de Diadema é emblemático do profundo caos em que as trabalhadoras da saúde (que são maioria) e trabalhadores da saúde estão enfrentando. A pandemia piorou o que já era muito ruim. Os processos de trabalho não levavam em conta uma saúde de qualidade, mas uma pressão por número de procedimentos que, além de não melhorar a vida do povo, são justificativas para inúmeras situações de assédio moral e adoecimento no trabalho.

As formas neoliberais de administração, com privatizações dos serviços, terceirizações, inúmeras divisões existentes entre os trabalhadores, o processo de transformar médicos em pessoa jurídica, a hierarquização dos serviços, o pouco espaço para a participação popular têm resultado em uma crise do serviço público.

Os trabalhadores da saúde ganham pouco, tem péssimas condições de aposentadoria e sofreram nos últimos anos um ataque ao seu direito de adicional de insalubridade. Resultado para a vida prática: carga horária de trabalho altíssima, por vezes em diversos locais.

E o sofrimento com a vida cotidiana aumentou exponencialmente. O medo real de se contaminar e levar a doença para familiares e a pouca estrutura de EPIs de qualidade têm levado a diversas trabalhadoras e trabalhadores a optarem por se distanciarem das famílias. É muito sofrimento. Eu mesmo fiquei 15 dias longe da minha esposa e dos meus filhos por ter tido uma situação de alto risco de contágio e foi um período dificílimo.

Correio da Cidadania: Há estrutura à altura das necessidades para estes profissionais?

Paulo Spina: Não. Nem nos serviços com materiais e estrutura de trabalho adequada, nem nas políticas com condições materiais.

Duas coisas governantes e a sociedade em geral precisam entender sobre a classe trabalhadora da saúde: 1) ela não é composta só de médicos. Há um discurso que tenta diferenciar os trabalhadores que supostamente estão na linha de frente do combate a Covid 19. Todos que estão trabalhando em uma unidade de saúde, seja o porteiro, o trabalhador da limpeza, do refeitório, administrativo, da gestão, de diversas áreas da saúde estão numa situação de grande risco;

2) as pessoas gostam de aplausos, mas precisam de reconhecimento efetivo com medidas que aumentem seus rendimentos de forma real.

Por isso o manifesto A Vida Acima do Lucro lançado por sindicatos que representam a categoria e diversos grupos de trabalhadores da saúde é fundamental.

Correio da Cidadania: O que você prevê para os sistemas público e privado de saúde nas próximas semanas?

Paulo Spina: Uma situação difícil, pois os casos estão ainda em um nível alto e preocupante, ao mesmo tempo em que vemos o relaxamento do distanciamento físico sendo colocado em prática. Um dilema que os sistemas estão enfrentando é a decisão de retomar atendimentos de pacientes com outros problemas de saúde, pelo risco de estes serem contaminados pela Covid-19. Aqui em São Paulo o governo também precisa explicar com detalhes e transparência o fechamento do hospital de campanha do Pacaembu e a utilização destes recursos.

Gabriel Brito é jornalista e editor do Correio da Cidadania.

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