Crivella se baseia em pesquisa de opinião para encaminhar cariocas à morte

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Não é novidade que o Brasil é um caso ímpar na gestão da pandemia da Covid-19. Porém, até neste aspecto o Rio de Janeiro de Marcelo Crivella consegue se destacar como protagonista do pesadelo fantástico que se abate sobre o país.

De acordo com uma fonte do Sistema de Regulação da Secretaria de Estado de Saúde, estima-se que 20% da população da cidade do Rio, ou seja, 1,3 milhão de cariocas já esteve em contato com o vírus da Sars-CoV-2. Em dado momento da pandemia, a fila para acessar um leito do SUS chegou à proporção 1,5 mil/1 na cidade. Até a semana passada, as informações indicavam que esta mesma fila já não era tão grande, cerca de cinco pessoas para cada leito, número considerado razoável do ponto de vista do serviço de saúde pública.

Ainda assim, seria hora de reabrir a economia e relaxar o isolamento, uma das poucas formas de se precaver da verdadeira roleta russa que é a Covid? Na opinião de epidemiologistas, a curva de contágio, apontada para o céu, e o aumento diário do número de mortos indicam que não.

Mas para Marcelo Crivella (Republicanos/RJ), a resposta é diferente. E aparentemente o critério para a decisão não foi científico, e sim de cunho eleitoral.
O desespero

A pandemia trouxe enormes transtornos socioeconômicos ao Brasil. Famílias mais vulneráveis e pequenas e médias empresas foram abandonadas à própria sorte. Todos os dias, vemos notícias de brasileiros sem receber o auxílio-emergencial – além das fraudes no sistema – e de estabelecimentos comerciais quebrando sem uma política eficiente de socorro.

O isolamento fez as pessoas reverem seus anseios de consumo. Mas protegida a classe rica e boicotada a ralé, o que o país assiste hoje é o risco e o medo aumentarem exponencialmente. A população, desesperada, foi colocada entre aquilo que poderia ser um falso dilema se a vida valesse mais que o lucro e a politicagem: correr o risco de se infectar com a Covid-19 nas ruas ou permanecer desamparada em casa e morrer de fome?

O mundo mostra diariamente que brasileiros, e especificamente os cariocas, não precisavam passar por essa questão. Mas, aparentemente, foi em cima dela que se deu a decisão de Crivella pela reabertura econômica.
A pesquisa

Para quem não acompanha a política carioca de perto, Marcelo Crivella é considerado um prefeito claudicante desde o início de seu mandato, em 2017. Já foi, inclusive, ameaçado de impeachment pela Câmara dos Vereadores, em 2019. Na ocasião, se safou cedendo a acordos.

A pandemia veio para desestabilizar ainda mais uma gestão frágil em vários aspectos, da percepção de abandono nas áreas periféricas, passando pelo paternalismo envolvendo sua denominação religiosa – quem se lembra da Márcia? – até a ausência de quadros técnicos para tocar a máquina pública.

Ameaçado pelo cenário de crise sanitária e de saúde, mas também pela possibilidade de caos social que prejudicaria seus planos de reeleição, o prefeito deixou de lado os argumentos científicos e partiu para a solução mais fácil: realizou uma pesquisa de opinião com uma população sujeita a qualquer risco para retomar uma vida normal que na verdade não existe.

Foi o que fez entre os dias 18 e 22 de junho, quando pessoas ligadas ao prefeito encomendaram uma pesquisa com 1.200 entrevistados de todas as regiões da cidade. Como os dados não foram registrados, o nome do instituto não será revelado. A pesquisa foi disponibilizada por uma fonte que também terá seu nome preservado. A margem de erro é de três pontos para mais ou para menos.

Ao todo foram doze perguntas. As cinco primeiras, relacionadas à gestão da pandemia, você lê a seguir, com os respectivos comentários.


Neste primeiro quadro vemos que a soma de ótimo/bom do governo Crivella é de 21,5% dos eleitores. O percentual pode ser considerado baixo para um governo apenas em fim de primeiro mandato.

Outro percentual que merece destaque é o índice de ruim/péssimo, 52,9%, na região da Barra/Recreio, onde vive boa parte da população considerada emergente economicamente, e reduto eleitoral do principal rival de Crivella no próximo pleito municipal, o ex-prefeito Eduardo Paes.

A questão 2 busca a percepção do eleitorado especificamente para a atuação de Crivella durante a pandemia. Somente 22,3% dos entrevistados consideraram as ações do prefeito como positivas até a data final da pesquisa.

E aqui é importante destacar: a alta rejeição nas regiões consideradas polos comerciais, como Centro (33,3%), Penha/Bonsucesso/Ramos (30,3%) e Cascadura/Grande Méier (29,4%).

Além disso, é importante atentar para o percentual de ruim/péssimo na área da Barra/Recreio, que como citada acima, é uma região emergente, onde vive parte dos médios comerciantes da cidade. Somados, esses dados chegam a 53,7%.


Os quadros 3 e 4 tratam dos impactos causados pela pandemia na rotina e na vida financeira dos entrevistados. Nestes, vale destacar dois pontos no que tangem à rotina: 8,8% dos ouvidos na Zona Oeste e 5,4% na Zona Sul responderam que nada mudou.

A Zona Oeste, desde o começo da pandemia, é a mais resistente ao isolamento social. O bairro mais populoso, Campo Grande, é um dos recordistas de casos de Covid-19 no município, e salvo a classe média mais remediada, o restante da população local demonstra levar a vida praticamente no mesmo ritmo desde os primeiros casos da doença. Outro dado relevante na região é a forte influência das denominações neopentecostais e das milícias.
Já a Zona Sul é a região mais nobre, onde vivem as famílias mais tradicionais e abastadas, logo menos impactadas.


No quadro 5, temos aquela que é a questão fundamental para entender a reabertura da economia, a despeito do aumento do número de casos e mortes pelo Coronavírus. Somente 18,8% dos entrevistados acreditam que o fechamento acabou rápido, ao passo que 45,6% dos entrevistados consideraram que a abertura ocorreu de forma devagar.

Novamente, vale ressaltar o alto percentual desfavorável à manutenção do fechamento econômico nas áreas de comércio intenso, como Centro e Penha/Bonsucesso/Ramos. Para este índice, podemos apontar a forma ímpar como o Brasil escolheu literalmente abraçar a pandemia, como o boicote do Governo Federal às políticas emergenciais, a minimização das mortes, a campanha de descrédito da ciência, entre outros.

Dados, como os desta pesquisa e as decisões do prefeito tomadas a seu reboque, mostram, outra vez, o desamparo que a população, ou a maior parte dela, vem vivendo ao longo dos últimos cem dias. A curiosidade é que o prefeito que se elegeu dizendo que iria “cuidar das pessoas” é o mesmo que se aproveita do desespero para jogá-las ao encontro de um vírus mortal.

Em nome de uma tacada eleitoral, tudo parece valer. A voz do povo, neste caso, não é a de Deus.


* A Prefeitura do Rio foi procurada para comentar a pesquisa, mas não retornou aos contatos até a publicação do texto.

Fagner Torres é jornalista e um dos apresentadores do podcast Lado B Rio, em cujo site este texto foi originalmente publicado.

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