O que já foi e o que pode ser

Chapa Guilherme Boulos-Luiza Erundina anima a militância do PSOL em SP -  CartaCapital
O Juan Arias que transparece neste artigo (aqui) é um jornalista que, aos 88 anos, escreve otimamente e se revela um ser humano admirável. Espanhol, após duas décadas morando e trabalhando em nosso país parece ter-se imbuído do espírito dos brasileiros cordiais de outrora, que conheci no seu ocaso e até hoje admiro e adoto como exemplo.

Mas, se considero este artigo 100% correto no que tange ao PT, não assinaria embaixo de todas as opiniões emitidas por Arias a respeito do PSOL. Otimista por natureza, até dei-lhe um voto de confiança em 2012, quando fui convidado a filiar-me e a disputar uma vereança que jamais estivera nos meus planos.

A experiência acabou sendo decisiva para eu desistir de vez da política convencional, embora considerasse e ainda considere o PSOL o partido menos pior que disputa as eleições inócuas e de cartas marcadas da democracia burguesa.

Hoje tenho total clareza quanto a que não será pelo caminho das urnas que os explorados chegarão ao paraíso da verdadeira igualdade e da liberdade plena.

Portanto, levo em conta o texto de Arias não por expressar a posição deste blog (não a expressa), mas porque coloca em discussão um tema crucial após as recentes eleições municipais decretarem a falência definitiva do PT enquanto partido idealista de esquerda.

Trilha o mesmo caminho que conduziu o PTB, o (P)MDB e o PDT à sua atual irrelevância, fantasmas do que foram, hoje entregues ao fisiologismo explícito.

Arias vocaliza o receio, muito disseminado na esquerda, de que o PSOL reedite a ascensão e queda do PT. É, talvez, a discussão mais importante para nós neste final de ano e de década.

A minha opinião é de que o PT se acomodou e aburguesou, com parte dos seus integrantes empenhados sobretudo em enriquecerem e procurar cargos na burocracia, num contexto bem diferente do atual, quando ainda nem saímos da pior crise sanitária de nossa existência como nação e temos pela frente a pior depressão econômica idem, capaz de ser tão devastadora quanto a Grande Depressão o foi para os estadunidenses na década de 1930.

Ou seja, se o PSOL não salvar-se pelo caráter, se salvará como instrumento da História, porque períodos tão turbulentos quanto o que se avizinha não admitem lideranças de esquerda conciliatórias e vacilantes.

A crise do capitalismo é terminal. E a necessidade de superá-lo, até para assegurar a sobrevivência da espécie humana, levará o PSOL e outras forças de esquerda cujas raízes não apodreceram a assumirem compulsoriamente a revolução – que, quanto mais é adiada, mais urgente e necessária se torna.

Celso Lungaretti é jornalista e ex-preso político.

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