Correio da Cidadania

O ano de 2020 finaliza como um dos mais dramáticos do século 21

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Em março deste ano o dr. Tedros Adhanom Ghebreyesus diretor-geral da Organização Mundial de Saúde (OMS), anuncia ao mundo a epidemia de um novo coronavírus, o covid-19, e a organização, responsável por comandar a resposta global à pandemia, recomendou aos países que comunicassem os riscos do vírus às suas populações e adotassem os protocolos de proteção; os governos, por sua vez, deveriam rastrear, testar e tratar pacientes infectados com covid-19, além de isolá-los até o fim do tratamento. Um protocolo comum e conhecido pelos serviços de saúde em todo o mundo, incluindo o Brasil, país que conta com uma massa crítica de especialistas e uma rede de instituições de excelência em saúde pública.

A gravidade da pandemia, entretanto, foi minimizada pelo presidente da República. Ao longo dos meses o presidente tem publicamente minimizado a gravidade da pandemia e ridicularizado as medidas de controle preconizadas pela OMS. No entendimento do presidente, as funções econômicas deveriam seguir normalmente, sem restrições. Isto impactou o comportamento de parcela da população e, consequentemente, a dinâmica da pandemia no Brasil. Se no início da pandemia o distanciamento social era praticado por quase metade da população, nove meses após o vírus chegar no país, menos de 10% continuam adotando estas medidas.

A interferência negativa do presidente da República teve impacto direto também nas ações do Ministério da Saúde e resultou na demissão de dois ministros da pasta e a nomeação, no auge da epidemia, de um militar sem familiaridade com a área médica, mas fiel às determinações de seu superior hierárquico. Assim que assumiu o Ministério, o atual ministro imediatamente autorizou o protocolo de tratamento da covid-19 do Ministério da Saúde para permitir a prescrição médica da cloroquina (medicamento comprovadamente inócuo para o tratamento do vírus), reduziu drasticamente o orçamento da pasta e desmontou o corpo técnico de especialistas.

A trágica marca de quase duzentas mil vítimas fatais provocadas por complicações pela covid-19 tem ligação direta com a maneira como o Estado conduziu a epidemia. O luto, entretanto, atingiu de forma desproporcional as famílias negras e indígenas, segmentos historicamente excluídos pelo Estado brasileiro e que o governo, deliberadamente, as manteve desassistidas. O veto presidencial a 22 trechos do Projeto de Lei 1.142/2020, que previa medidas de proteção às comunidades vulneráveis durante a pandemia, mostra que as vidas interrompidas não são uma fatalidade, mas uma opção política do atual governo.

Nestes últimos dias de 2020, como se não bastassem os índices alarmantes de mortes diárias, que insistem em subir em todo o território nacional, ouvimos as declarações absurdas do presidente que coloca em cheque a efetividade da vacinação contra a covid-19. Enquanto em todo o mundo os governos se mobilizam para imunizar suas populações o mais rápido possível e assim encerrar as mortes diárias causadas pelo novo coronavírus, o governo brasileiro mostra a sua incompetência em tomar medidas efetivas para sanar uma questão crucial para o país. Este é o retrato de um projeto político vazio moral e intelectualmente.

Maria José Menezes é bióloga e membro da Coalizão Negra por Direitos.