2020, ano de escombros. Que fazer?

Incêndio acirra debate sobre verba para Museu Nacional na busca por  culpados | Brasil | EL PAÍS Brasil
“Cuando el anzuelo se queda sujeto en el fondo, no te quejes. El llanto no me servirá de nada. Es preciso hacer algo”. Nicolai Gógol.

Difícil acreditar que, no último réveillon, alguém em sã consciência tenha brindado com expectativa sincera à 2020 mesmo porque, do cenário descrito em 2019, nada fazia crer que o novo ano seria diferente. Pois é.

Hora do balanço neste triste país que, dia após dia de um ano transbordante de tragédias, abrigou a insensatez, a maldade, a fraude, a indiferença. Começamos e terminamos da pior maneira possível. E não me refiro aqui apenas ao lamentável resultado das eleições municipais que confirmaram a tendência do voto na direita. Refiro-me também à recorrente brutalidade contra os alvos da insegurança pública e privada, outro caso a refletir – e que de algum modo completa o anterior - já que, entre nós, a barbárie, seja ela oficial ou não oficial, não consegue sensibilizar nem mobilizar como vem acontecendo nos EUA e França. Deixamos sós, com sua dor e indignação, os amigos e familiares de Anna Carolina, Kauan, Leonidas, Luis Antonio, Douglas, Italo, João Vitor, João Pedro, Rayane, Emily, Rebeca. As manifestações em frente ao Carrefour foram pontuais, no calor da hora e o comitê de midiáticos, não coincidentemente negros, foi criado pela tal rede de supermercados para integrar a onda empresarial-identitária. Mais uma voz a mitigar a força dos Direitos Humanos no país. Nada disso, porém, minimiza o suplício público de João Alberto Freitas.

Este é o Brasil que, em 2018, desenterrou de vez o submundo dos negócios “ilegais” e colocou as milícias no comando. Hoje somos o Brasil do tráfico, da pilhagem, do trabalho escravo, do crime. Brasil da ostentação, do luxo brega e da cultura lixo. Um Brasil que há muito se prepara para finalmente ter a polícia mais violenta do planeta. Brasil ostensivamente militarizado para controlar e reprimir os setores sociais mais vulneráveis. Brasil do novíssimo testamento que doutrina e assume o controle anímico e monetário das favelas, periferias. Brasil que renova seu pendor patriarcal, racista, homofóbico, campeão em feminicídios, em crimes contra negros e pobres. Brasil que violenta a comunidade LGBTI. Brasil do extermínio de indígenas e seus territórios sagrados para a prevalência das commodities. Brasil dos correntões que toca o fogo na Amazônia, Cerrado, Mata Atlântica, Pampas, Caatinga, Pantanal e que destrói os ecossistemas marítimos. Brasil da ignomínia, da legislatura sob a insígnia de uma rapa que afana o dinheiro público enquanto ataca direitos trabalhistas, previdenciários, socioambientais, que desmonta os sistemas públicos de Saúde e Educação. Este é o Brasil que retorna, em condições infinitas vezes mais degradantes, à sua histórica miséria quintomundista lançando famílias inteiras à situação de rua. Brasil dos 15 milhões de famintos, dos mais de 20 milhões de desempregados (14 milhões abertos e 5,9 milhões por desalento), dos 46% que compõem a economia informal, na sua maioria mulheres e seus filhos. Um Brasil destroçado e doente antes mesmo da pandemia chegar por aqui e ser recepcionada, aliás, com inacreditável irresponsabilidade pelos que desgovernam esse país. Brasil que, junto com Índia e Nigéria, integram a lista dos países mais afetados pela Covid-19.

Aqui submeteram-nos à imunização de rebanho, negaram-nos acesso à testagem em massa, enquanto os testes mofam nos galpões; impuseram a cloroquina às populações indígenas sabe-se lá a que custo, condenaram à morte, fora dos leitos hospitalares e sem qualquer assistência médica, pelo menos 40% dos seres humanos afetados e fragilizados pela doença e pela pobreza. Entramos numa segunda onda da pandemia a poucos dias dos festejos de final de ano. Até o fechamento deste balanço, nenhum deles foi suspenso. Nenhum programa de vacinação minimamente sério foi anunciado. Mas, a isenção de imposto para importação de armas sim. 

Se o mundo também entrou em colapso neste 2020, o Brasil mostrou ao mundo como se destrói um país e seu precário Estado de direitos sociais em tão pouco tempo. Possivelmente essa facilidade advém da nossa crise estrutural da política e do nosso decantado desenvolvimento dependente, conforme afirmou Florestan Fernandes. Talvez isso explique em parte o assento inabalável do governo Bolsonaro que, por mais obsceno se confirme, cumprindo com muita competência seu papel: abençoa as cinzas das florestas (a destruição ambiental) e os escombros sociais e institucionais. Celebra a morte deste nosso gigantesco e exuberante país. Para a burguesia transnacionalizada e fusionada pouco importa o caráter (i)moral do seu gerente, importa que ele honre o trato feito com o atual necroexpansionismo e as formas mais abjetas de acumulação de capital.

O quadro é de fim de mundo, por isso mesmo não há tempo para saudosismos, nem revitalização de um processo societal estruturalmente especista e desigual. Que as linhas de menor resistência não nos ocupem mais do que uma energia suficiente. Aos que não abandonaram o caminho da transição e a construção de uma existência substantiva, a energia maior deve ser despendida a repensar sua viabilização urgente, de impulsionar formas de ação que surgem das necessidades mais básicas de sobrevivência.

Grande parte da humanidade está sendo empurrada para o abismo. Precisamos encontrar um modo de encontrá-la, de compreender e respeitar suas formas de luta territorial e específica para burlar a peste, a fome, a servidão e a morte. Para isso penso que seja preciso refletir sobre o seguinte: de que adiantam belas ideias, belos programas para belas saídas sem acolher as urgências e as iniciativas da ação direta contra um mundo em ruínas?

Nota:

1) A melhor análise que li sobre isso foi Nota da Coalizão Negra por Direitos sobre o “Comitê Externo de Diversidade e Inclusão” do Carrefour Brasil. https://coalizaonegrapordireitos.org.br/2020/12/02/nota-da-coalizao-negra-por-direitos-sobre-o-comite-externo-de-diversidade-e-inclusao-do-carrefour-brasil/ 

Maria Orlanda Pinassi é socióloga e professora aposentada da UNESP Araraquara.

Comentários   

-1 #1 RE: 2020, ano de escombros. Que fazer?Daniel 28-01-2021 11:07
Estimada Professora, foi o Viveiros de Castro quem, comentando a foto que inaugura seu texto, opôs que "no brasil, governar é criar desertos". O deserto parece tão árido, a crise ética tão sem precedentes, que, por isto mesmo, difícil até saber daonde partir - ou continuar - com nossas ações individuais. Seria o nosso destino apenas testemunhar a História ou podemos realmente ajudar a levantar a âncora?
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