Da revolução invertida ao lulismo invertido?

Centrão e Bolsonaro: Casamento é selado na troca de cargos; veja nomeados -  Política - iG
Ao redor do mundo, muita gente se entediou na quarentena. Mas não no Brasil. Neste país, a política se acelerou, conduzida por um presidente potencialmente suicida, guiado pelo lema: “nóis capota mas não breca”.

Diferente de Orbán ou Erdogan, Bolsonaro não aproveitou a pandemia para concentrar poder e restringir liberdades. Sua pretensão original foi radicalizar um horizonte de refundação moral e política: uma revolução invertida, à moda do fascismo.

Seis meses depois, mais de mil brasileiros morriam vítimas de covid-19 por dia e o país sequer tinha um ministro da saúde. No entanto, a popularidade do presidente atingiu seu nível mais alto. Em setembro, o país flertava com uma nova normalidade, assentada sobre uma pilha de 130 mil mortos. Como entendê-la?

Entre os de baixo, duas constatações se impunham. De um lado, o presidente não era responsabilizado pelas mortes. Por outro lado, o auxílio emergencial sustentava sua popularidade, inclusive no Nordeste, cativado anteriormente pelo Bolsa Família lulista. O valor por beneficiário e a extensão dos programas de transferências de renda quadruplicaram durante a pandemia.

Enquanto isso em Brasília o presidente comprara o amor do “Centrão”, maior bancada no Congresso Nacional. Desde 2019 o presidente não tem partido, mas com três mil militares no governo é provável que seja este o seu partido. Ao mesmo tempo, Bolsonaro ensaiava uma versão menos ideológica de si mesmo, pacificando as relações com o Supremo Tribunal Federal e com a mídia corporativa. O grande capital acolheu o movimento com simpatia, apostando em deslanchar a agenda que lhe interessa.

O paradoxo era notável. No passado, o PT se empenhou em vender a conciliação, sob a liderança de um “Lulinha Paz e Amor”. No entanto, o sonho de consumo burguês parecia se realizar na figura de um “Bolsonaro paz (com a mídia e o STF) e amor (com o Centrão)”. Se o militar deixasse de lado a ideologia – como outrora fez o PT – para governar a senzala e negociar em Brasília, poderia em troca, ganhar a reeleição. A burguesia que anseia um “bolsonarismo sem Bolsonaro”, se contentaria com um “Bolsonaro sem bolsonarismo”?

O paradoxo vai além. Para compensar a queda no apoio burguês, Bolsonaro seguia a trilha do lulismo: fortalecer a ligação direta com os de baixo, enquanto rendia-se ao pragmatismo político, visando a estabilidade almejada pelo capital. O presidente que mergulhou o país na pandemia visando uma “revolução invertida”, à moda do fascismo, se converteria a uma espécie de “lulismo invertido”?

Dificuldades diversas se colocam nesta rota. A principal delas é a intransigência em relação à disciplina fiscal. É preciso esclarecer que nem Paulo Guedes nem o mercado financeiro se opõem a uma renda mínima, desde que não comprometa o teto de gastos. Conciliar o fundamentalismo neoliberal com uma renda mínima universal é a quadratura do círculo colocada para um governo que não pode, por ora, dispensar o seu fiador junto às finanças e ao grande capital.

É certo que há setores da burguesia desconfortáveis com a dinâmica do país. Porém, essa oposição se limita a diferentes tons de bolsonarismo sem Bolsonaro. Além do temperamento indócil, da tentação autoritária e dos valores reacionários – o desafio que Guedes descreveu como “domar a fera”, o presidente e seus filhos são acossados por escândalos de corrupção. Porém, o impacto destas denúncias depende do clima político geral, e dos humores do Congresso em particular – aquele que Bolsonaro queria fechar.

Mas este humor tende a piorar. Se o lulismo foi impulsionado pelo boom das commodities, Bolsonaro se defronta com a pandemia. Entre o primeiro e o segundo trimestre de 2020, o PIB brasileiro despencou 9,7%, e o consumo das famílias, 13,5%. Em outubro, o desemprego se elevara para 14,4%, (sem contar os que desistiram de procurar trabalho) e a inflação subia. A pandemia ceifara 9 milhões de empregos e 160 mil de vidas. É difícil falar em “segunda onda” em um país onde a peste jamais foi controlada.

Neste contexto, emergem sinais de desgaste. Nas eleições municipais em novembro, quatro de cada cinco candidatos apoiados por Bolsonaro não se elegeram. Tampouco o apoio de Lula foi bem-visto. As tensões tendem a se agravar com o fim do auxílio emergencial, previsto para dezembro. Quando o tapete da renda mínima for puxado, é possível que muitos se percebam sem chão, o que terá consequências imprevisíveis para a paz social e a violência urbana. As respostas de uma sociedade em sofrimento e de uma economia em recessão agravada pela peste ainda estão por serem vistas.

Fabio Luis Barbosa dos Santos é autor de Uma história da onda progressista sul-americana (Elefante: 2019) entre outros livros.

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