Haverá vacina?


 Covard-17: peça de arte urbana ironiza o presidente Bolsonaro e suas respostas à pandemia no Rio de Janeiro. Créditos: Fabio Teixeira (NurPhoto/PA Images)

O ano recém terminado já vinha surfando as péssimas ondas dos anos anteriores, que armaram as bases da ampla tragédia que chegou a um momento mais agudo a partir de março com a pandemia. E o que poderia desembocar numa ampla mobilização contra essa conjuntura anterior acabou ficando para depois, com a justificativa - justa mas não infalível, dada a quarentena sabotada por cima - do combate à pandemia.

A extrema desigualdade, a militarização, a judicialização, a miséria, a perda de direitos, a destruição do planeta, o racismo, a misoginia, a venda dos bens públicos e comuns, e muitos outros sintomas facilmente identificáveis já estavam dados. A novidade em 2020 foi justamente a pandemia: diferentemente dos que acreditam que monopoliza o debate público, vemos que escancarou todos os temas de relevância supracitados. E mais, seu uso biopolítico, em especial aqui no quintal da familícia presidencial, transformou o vírus em uma arma de destruição em massa, sobretudo dos mais pobres e com menos acesso a recursos em geral.

Não por acaso, 72% dos brasileiros declaram ter tido um ano ruim de acordo com pesquisa do Instituto Ipsos, divulgada pela Revista Época na última semana do ano. Na mesma pesquisa, 81% declararam esperanças em um 2021 melhor do que foi 2020. Eu conto ou vocês contam?

Ainda que Kafka já tenha dito que “há esperança, mas não para nós”, não precisamos de nenhum gênio para dizer que 2021 nos trará, de uma maneira mais ampla, ‘mais do mesmo’ de todos os dramas, problemas, crimes sistemáticos, tragédias e desafios que em 2020 foram jogados na cara de quem insistia em não enxergar. Piorar é difícil, mas sempre dá, não duvidem!

Já em termos positivos, o que pode ter de especial neste ano pode ser justamente a vacina para o novo coronavírus, caso não fique para a campanha eleitoral de 2022 ou, pior, para além disso por pura incompetência. Lembremos que em ano ímpar os estímulos para se colocar qualquer mão em qualquer massa caem vertiginosamente.

Pois bem, eis que em 27 de dezembro o excelentíssimo presidente da República cometeu mais uma das suas declarações públicas. Em linhas gerais, jogou aos dois ventos [já foram quatro, antes da Terra tornar-se plana] que as vacinas do coronavírus podem vir a trazer “impactos” que precisariam ser “esclarecidos” antes de uma campanha em massa. A informação foi publicada pela Agência Brasil.

O indicativo presidencial a quatro dias da mais triste virada de ano das nossas vidas é de que a grande estrela de 2020, o uso biopolítico da pandemia, continuará em ‘viés de alta’ – pra liberal nenhum botar defeito.

E da mesma forma como em 2020 sabíamos que a quarentena seria sabotada mais cedo ou mais-cedo-ainda; temos todos os indicativos para desconfiar da capacidade do Estado brasileiro, com seus aventureiros e sociopatas de ocasião, de organizar uma campanha de vacinação minimamente razoável.

Alguém precisa avisar aquela figura de invejável intelecto que ocupa o Palácio do Planalto que ‘é claro que haverá impactos decorrentes das vacinas’.

Por exemplo: um monte de gente imunizada podendo ir pra rua contra o governo.

Além disso, poderemos também desafogar um pouquinho os sistemas de saúde. Não só os particulares, que o ex-ministro Mandetta representou por anos no Congresso, mas especialmente os públicos. “Mas poxa, como faremos para vender o SUS se ele não estiver completamente destruído?”, perguntou o mesmo guru da ‘nova era’ que fazia as contas previdenciárias para o caso de idosos pararem de morrer no mesmo ritmo que se registrou em 2020. Um bom gestor calcula seus riscos, não é mesmo?

É preciso se mexer, se movimentar, pois nem aquilo que se conhece como direita envergonhada (há quem chame ‘moderada’) está parada. Alguns setores dela já ensaiam suas próprias figuras grotescas que, ao longo do ano, devem ser alçadas a novos salvadores da pátria. Mesmo para o Congresso, que dribla melhor que Garrincha, as ‘dificuldades’ crescentes com a turma verde-amarelista vão ganhando contornos mais nítidos diante de todos nós. O ‘bolsonarismo sem Bolsonaro’ deve ser o horizonte dessa turma toda daqui pra frente.

Isso sem falar, é claro, da insatisfação e incerteza gerais em relação a uma pandemia que deveria ter hora pra acabar, mas não tem.

Em um 2021 sem eleições e com vacina deverá bater um instinto em muitos seres humanos, quase natural, como que de comer ou beber água, mas dessa vez de sair às ruas pedir as cabeças da camarilha de mafiosos e impostores que se apoderou do poder. Exemplos temos na vizinhança. E não haverá mais desculpas para sair da reta ou pedir calma.

O problema é que tudo só se desenharia com toda essa nitidez em um mundo hipotético, se por algum milagre divino conseguirmos vacinar o país antes de acabar o ano ímpar que se inicia. Esforços contrários não faltarão.

E mesmo que as vacinas fossem uma tecnologia completamente nova, sem muita pesquisa realizada em cima do assunto, sem inúmeros exemplos de sucesso, de populações inteiras imunizadas, de doenças erradicadas e com uma taxa pouco mais que irrelevante de reações alérgicas e coisas parecidas, ainda assim não seria nada mal transformar-se em um crocodilo. Ao menos seríamos ‘híbridos’, como nos pedem os piores empregadores da internet e adjetivam as piores teorias da conspiração da atualidade. Ah, sim, teorias da conspiração: com certeza muitas devem aparecer nos próximos doze meses.

Haja desfile de moda presidencial e startup do Zero-Quatro pra desviar o assunto.


Raphael Sanz é jornalista e editor do Correio da Cidadania.

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