“A hegemonia da pequena política se explica pela ausência de projetos críveis de sociedade"

O Brasil supera as 3000 mortes diárias por covid-19 e a situação socioeconômica atinge o pior nível desde o início da pandemia. No meio disso, uma política marcada pelo domínio de um centrão tão desacreditado quanto fortalecido e o reaparecimento de Lula no jogo político. Na entrevista ao Correio, o sociólogo do trabalho Ruy Braga analisa os cenários sociais e as perspectivas, nada alentadoras, das disputas políticas nacionais.

“Como não há um projeto político que seja capaz de aglutinar as forças políticas (seja de centro, direita ou esquerda), predomina a pequena política, uma enorme imposição ao país dos interesses particulares, individuais. Assim, é evidente que quem tem a caneta, os recursos na mão, leva muita vantagem”, afirmou, ao explicar o esfriamento da possibilidade do impeachment de Bolsonaro após as eleições de Câmara e Senado.

“Tivemos mudanças agudas na sociedade. As classes populares mudaram bastante nos últimos 10 anos, em razão da crise, do aumento do desemprego, do subemprego, da precariedade, da marginalidade... Isso criou uma mudança aguda na estrutura das classes subalternas e, assim, algumas tendências que já se verificavam desde o início dos anos 2000. Ao serem empurrados para a informalidade, os setores populares se afastaram daqueles valores ligados à construção de uma sociedade salarial, da proteção do trabalho, valores associados a um capitalismo organizado, com sindicato, direitos trabalhistas, progresso material”.

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Sobre o retorno de Lula ao jogo, euforia à parte, não traria nada que de fato alterasse as dramáticas condições que esmagam o país. “Ao que tudo indica Bolsonaro estaria no segundo turno em 2022. Assim, ele ocupa aquele espaço que vai do centro à extrema direita. Provavelmente, teremos uma candidatura impulsionada pelo antibolsonarismo no segundo turno. Muito provavelmente, com um perfil de centro-esquerda. Imaginemos que essa centro-esquerda derrote Bolsonaro. Ainda assim, continuaremos com os mesmos problemas na esquerda brasileira. Em termos práticos, esse eventual governo seria refém do centrão e dos mesmos arranjos (...) Além disso, sabemos que Lula é Lula. Ele vai tentar uma frente com o centro e com a centro-direita ainda no primeiro turno, para a ‘decepção’ cínica de muitos petistas que retoricamente manifestam sua vontade de ter um candidato à esquerda no ano que vem”.

Em sua visão, o cenário imediato mostra que levará bastante tempo para a construção de um projeto alternativo e progressista de sociedade. Braga considera possível uma fascistazação das massas populares, ainda que improvável, uma vez que há uma série de “lutas de fronteira”, como define.

“As classes subalternas estão inertes, de fato, e tais lutas de fronteiras dependem fundamentalmente da construção de identidades coletivas, que digam quem somos nós, pra onde vamos, o que queremos. Vejo bastante tais questões em movimentos sociais urbanos, de moradia, da periferia, da cultura, no movimento negro, no feminismo. Há uma miríade de movimentos sociais que estão redefinindo as fronteiras da representação social. É possível que a gente perca esses campos para representações filo-fascistas, reacionárias, religiosas. É possível, mas não me parece provável”.

A entrevista completa com Ruy Braga pode ser lida a seguir.


Correio da Cidadania: Como enxerga o atual contexto político brasileiro à luz da eleição das casas legislativas, que terminaram com as vitórias de Rodrigo Pacheco e Arthur Lira?

Ruy Braga: Primeiro, o óbvio, que foi a relativa vitória do presidente Bolsonaro, nas duas casas. Foram eleições distintas: no Senado, o governo entrou mais como um fator político de adesão a uma candidatura que já aparecia como mais ou menos consensual do status quo. Nesse caso a vitória do presidente da República não foi tão exuberante, pois a correlação de forças internas já indicava a vitória de Rodrigo Pacheco.

O que chamou atenção foi a maneira como se deram as vitórias. Em números, foi fácil. A meu ver, isso é mais compreensível pelo naufrágio da candidatura de oposição. Para além de intervenções diretas do Executivo na liberação de verbas, houve um naufrágio da frente ampla ensaiada em torno de Beleia Rossi.

A vitória de Lira, impulsionada pelo apoio do governo, o que não é uma novidade de modo geral (tanto pra eleições como projetos, leis, liberação de emendas etc.), destacou a falência da Frente Ampla, o que demonstra os limites que tal Frente encontrou. Revelaram-se, propriamente, a incapacidade e a crise de direção política que perpassam os dois espectros, tanto de direita como de esquerda.

Não existe um projeto da direita brasileira exceto limitar os gastos não financeiros do Estado, um rebaixamento em relação aos governos anteriores, de Lula a Temer, pois diante da crise social aguda esse neoliberalismo rude e tosco tem limites muito específicos. De outro lado, a esquerda tampouco articula seu projeto de país.

Correio da Cidadania: Uma ressaca dos últimos anos, se temos a noção de que os pactos sociais e políticos derreteram?

Ruy Braga: Sim, temos um momento de interregno, o colapso de uma situação anterior, basicamente aquilo que vinha sendo administrado por PSDB e PT até a vitória de Bolsonaro, quando lideravam setores mais atrasados representados pelo centrão etc. De outro lado, não há uma alternativa de fato unificadora de toda essa fragmentação. Como não há um projeto político que seja capaz de aglutinar as forças políticas (seja de centro, direita ou esquerda), predomina a pequena política, uma enorme imposição ao país dos interesses particulares, individuais.

Como não existe espaço para política grande – projeto de desenvolvimento, modelo econômico, ideias de reposicionamento do país na pandemia e no mercado mundial, inserção de milhões nos mercados de trabalho e de consumo – prevalece a pequena política, do toma lá dá cá. Assim, é evidente que quem tem a caneta, os recursos na mão, leva muita vantagem.

Foi neste contexto que saiu a articulação de Bolsonaro com o centrão, que se tornou hegemônica no parlamento – não na sociedade. Temos a hegemonia da pequena politica parlamentar. E o Poder Executivo tem os recursos, acesso ao orçamento, caneta para conceder emendas.

Tal hegemonia da pequena política se explica pela ausência de projetos críveis de sociedade, e também uma incapacidade muito aguda dos setores progressistas em articularem uma alternativa também crível.

Correio da Cidadania: O que segura Bolsonaro no cargo? O novo arranjo de entendimento com o Legislativo pode se mostrar frágil em curto prazo?

Ruy Braga: O problema do impeachment está no timing. Sem dúvida, como Dilma experimentou, qualquer aliança com o centrão se baseia em interesses fisiológicos. Sendo uma rede de partidos absolutamente pragmáticos cujo interesse é a própria sobrevivência, tanto faz em qual projeto de poder, o centrão pode aderir ao impeachment caso a popularidade do governo caia muito, caso haja mobilização de ruas, caso haja colapso econômico diante da incapacidade de retomar um projeto de desenvolvimento econômico e o crescimento, caso a segunda onda do coronavírus saia cada vez mais do controle. Como de fato tais coisas acontecem e o governo, que classifico como genocida, mostra incapacidade de administrar a situação, existe, apesar de tudo, chance de o centrão aderir à ideia de impeachment.

Mas não parece que possa acontecer a curto prazo. E isso significa um ano, um ano e meio, sendo que no ano que vem já tem eleição. O tempo ficou escasso para mudanças radicais como um impeachment. Portanto, o que me parece mais crível é um processo agudo de crise permanente, mas ao mesmo tempo um processo no qual o governo se desgasta cada vez mais à medida que não tem nada minimamente razoável a oferecer, exceto livrar os filhos do presidente da cadeia.

Não há tempo nem condições políticas para o impeachment. Eu penso que não basta a elite ou a classe política dizer basta ao governo. Observando os vários pedidos de impeachment, em especial os que prosperaram, o fator popular é decisivo. Precisa de gente na rua pra levar isso adiante, e pelas condições impostas pela pandemia não parece que teremos tal possibilidade.

Correio da Cidadania: Como enxerga as oposições ao governo neste contexto, tanto na postura nas casas legislativas como fora da institucionalidade e relação com seu público?

Ruy Braga: A esquerda é incapaz de recuperar um projeto que mostre as pessoas que pode fazer diferença no seu dia a dia. Tivemos o projeto lulista, flagrantemente derrotado na sociedade, pela simples razão de que o segundo governo de Dilma aderiu o projeto neoliberal que gerou uma crise de proporções inéditas, dado que nunca tivemos uma queda de cerca de 8% do PIB em dois anos e uma taxa de desemprego tão elevada. E, mesmo com toda a perseguição midiática, houve de fato uma identificação popular da corrupção com essa esquerda. Assim, ela foi devastada, ao mesmo tempo em que não tinha uma agenda identificável com os interesses das massas, principalmente quando Dilma aderiu à agenda neoliberal e sua política de terra arrasada.

Ao mesmo tempo, tivemos mudanças agudas na própria sociedade. As classes populares mudaram bastante nos últimos 10 anos, em razão da crise, do aumento do desemprego, do subemprego, da precariedade, da marginalidade... Isso criou uma mudança aguda na estrutura das classes subalternas e, assim, algumas tendências que já se verificavam desde o início dos anos 2000 se firmaram, como é o caso da desindustrialização, que já vinha ocorrendo há décadas, mesmo nos governos petistas, e suas consequências no mundo do trabalho.

Ao serem empurrados para a informalidade, os setores populares se afastaram daqueles valores ligados à construção de uma sociedade salarial, da proteção do trabalho, valores associados a um capitalismo organizado, com sindicato, direitos trabalhistas, progresso material.

Enfim, trata-se, na percepção das pessoas, de questões de segurança: segurança das condições de vida, do mercado de trabalho, da estabilidade da renda e também a respeito da violência urbana das grandes cidades. Isso levou setores populares a dependerem cada vez mais de organizações como as igrejas neopentecostais do que dos sindicatos. Tal mudança do próprio perfil da classe trabalhadora, levando em conta as grandes tendências de precarização e informalização, provocou uma mudança da dinâmica política nela. Saem os sindicatos e entram em ascensão as formas territoriais das famílias trabalhadoras, com flagrante centralidade das questões sociorreprodutivas, valores familiares tradicionais, segurança da pequena propriedade do “empreendedor por necessidade”, segurança frente à violência urbana e social. Claramente, isso levou os trabalhadores a apoiarem políticas mais duras de segurança pública, ao passo que aumentou a dependência de tais setores das igrejas, em especial as neopentecostais, que estão nas periferias das grandes cidades.

De um lado, tivemos a destruição da agenda de esquerda, e de outro lado a base da sociedade se modificou, o que causou uma mudança de perfil da classe trabalhadora brasileira, longe daquele projeto que conhecíamos, mais relacionado com a industrialização, à formação de uma classe trabalhadora fordista, mais ou menos organizada em torno de sindicatos, com acesso a direitos, benefícios, conquistas garantidas. Isso é parte do passado, tem pouco a ver com o futuro.

A combinação dos dois elementos aponta um futuro bem sombrio para os setores progressistas e de esquerda no Brasil. Não vejo recuperação de curto e médio prazo. Podemos trabalhar e semear coisas que revertam isso, mas é coisa de anos. A candidatura de Boulos em São Paulo pode ser um embrião de uma nova configuração política de esquerda no Brasil. Ainda assim, as forças de direita é que foram vitoriosas nas eleições.

Teremos muitas dificuldades de reconstrução nas esquerdas brasileiras no futuro mais imediato. Em termos eleitorais, ao que tudo indica Bolsonaro estaria no segundo turno em 2022. Assim, ele ocupa aquele espaço que vai do centro à extrema direita. Provavelmente, teremos uma candidatura impulsionada pelo anti-bolsonarismo no segundo turno. Muito provavelmente, com um perfil de centro-esquerda. Imaginemos que essa centro-esquerda derrote Bolsonaro. Ainda assim, continuaremos com os mesmos problemas na esquerda brasileira. Em termos práticos, esse eventual governo seria refém do centrão e dos mesmos arranjos aqui debatidos.

Seria um governo melhor, sem dúvidas. No entanto, esse eventual governo teria muita dificuldade de desenvolver uma agenda progressista ou mesmo desenvolvimentista, por conta das mudanças sociais aqui colocadas, mudanças dos próprios representantes das esquerdas no país, um certo abandono das massas em relação a valores de solidariedade etc. Esse é o problema, as oposições democráticas carregam duas marcas: da derrota do modelo de desenvolvimento pilotado pelo lulismo e das mudanças das bases sociais, em especial, por meio de uma forte reconfiguração das classes subalternas.

Correio da Cidadania: Como a anulação das sentenças contra a Lula e seu parcial retorno ao jogo político eleitoral dialogam com este momento? É uma mudança de peso ou tais dificuldades que você menciona continuam quase insuperáveis?

Ruy Braga: Em primeiro lugar, é importante entender que as eleições de 2022 serão completamente diferentes das eleições de 2018. Quando Bolsonaro foi eleito presidente, o “espírito da época” era basicamente movido pelo antipetismo tendo em vista tanto a crise de 2015-2016 quanto o escândalo de corrupção instrumentalizado politicamente pela operação Lava Jato. No ano que vem teremos seguramente o antibolsonarismo como eixo vertebrador do debate eleitoral.

Nesse provável cenário, qualquer candidato com um perfil antibolsonarista que for para o segundo turno terá boas chances de ser eleito. É evidente que Lula é o candidato mais competitivo devido a sua enorme popularidade, sobretudo, no Nordeste. E, hoje, desenha-se em disputa Bolsonaro versus Lula nas eleições. Porém, o cenário é ainda muito incerto e não arrisco previsões de vitória ou derrota. De qualquer maneira, caso Lula saísse vitorioso em 2022, os mesmos problemas que elenquei antes estariam mantidos.

Além disso, sabemos que Lula é Lula. Ele vai tentar uma frente com o centro e com a centro-direita ainda no primeiro turno, para a “decepção” cínica de muitos petistas que retoricamente manifestam sua vontade de ter um candidato à esquerda no ano que vem. Mas isso tudo é conversa pra boi dormir. Lula irá compor com todo mundo, em especial com a direita, isto é, com o chamado “Centrão”.

Correio da Cidadania: O que avalia das condições socioeconômicas terminado o auxílio emergencial de 600 reais, haveria condições de manter o auxílio no mesmo valor? Como analisa a situação do mundo do trabalho após anos de reformas de recorte liberal/patronal?

Ruy Braga: As condições econômicas são desastrosas. O PIB de 2020 registrou queda de 4,1%, vindo de +1,4% em 2018. Esse ano a situação será menos pior, mas, ainda assim devemos ter um crescimento negativo devido ao caos sanitário e ao recrudescimento da pandemia. Teremos um auxílio escandalosamente baixo e por poucos meses de, em média, R$ 150,00, o que impulsionará a taxa de desemprego para outro recorde histórico. Não temos uma taxa de investimento a contento há vários anos, até porque não tem projeto. Só há investimento na construção civil por conta da conjuntura dos fundos financeiros que precisam se remunerar de forma satisfatória, o que os faz investir na construção de imóveis em centros urbanos, pois é dinheiro mais rápido de girar. Mesmo isso, tem limites muito estreitos se não houver crescimento econômico. Terminaremos esse ano com uma pequena “crise de superprodução” na construção civil.

Todos os demais setores, com exceção do agronegócio, estão paralisados. Indústria de transformação, pesada, metalúrgica, etc. Tudo parado com enorme capacidade ociosa. Assim, é claro que não teremos uma recuperação significativa do emprego e da renda num futuro previsível. O governo vem de um aumento exponencial do déficit público, diante dos gastos com auxílio emergencial e a queda de arrecadação fiscal. Se observamos os principais fatores que poderiam garantir algum tipo de recuperação da atividade econômica ao Brasil, os rendimentos das famílias continuam depreciados, o investimento privado quase inexistente, o gasto público sob enormes dificuldades por conta do aumento do déficit e do teto de gastos não financeiros. E o setor internacional não dá provas contundentes de recuperação em um ou dois anos, a tendência de recuperação do mercado mundial é lenta.

A rigor, o cenário é de pasmaceira econômica. Mesmo considerando um parâmetro bem rebaixado, como em 2020, vamos seguir a andar para os lados. O mercado fala em crescimento de 3%, 3,5%. Os mais realistas falam em 2,5%. Vendo os dados de hoje, não é possível crescer nem 2%. Teremos um número abaixo, talvez como 2018. No entanto, teremos tal número debaixo de uma comparação covarde, que é com a queda de 4%, 4,5% de 2020, portanto, seria bem pior que 2018 mesmo repetindo o número.

Do ponto de vista econômico, a situação brasileira é desastrosa. E se é desastrosa na economia tende a ser na política. Queda de rendimentos do trabalho, desestruturação do mercado de trabalho, aumento da fome nas cidades, aquilo que alguns chamam de crise sociorreprodutiva, isto é, incapacidade das famílias trabalhadoras se reproduzirem. Teremos uma deterioração do tecido social, mais aguda que no ano passado, até porque o auxílio deste ano não chegará perto do de 2020.

Só posso prever um ano muito conturbado do ponto de vista social, seja pela crise econômica, seja pela transformação da crise econômica em crise política. Não consigo imaginar iniciativa a ser tomada pelo governo federal capaz de articular um plano nacional de salvação, de recuperação econômica. Nada disso está em pauta, não há projeto. Só o rame-rame de sempre, reforma tributária, reforma administrativa, nada que mexa de fato nas bases do investimento capitalista do país.

Correio da Cidadania: Em artigos e livros você descreve o “modo lulista de regulação social” como esgotado. O que se tem como sucessão disso no horizonte? A desorganização coletiva do mundo do trabalho, o incessante rebaixamento das condições de vida e as mudanças de perfil da base social aqui descritas são elementos perigosos no sentido de facilitar uma possível fascistização de grandes massas de trabalhadores?

Ruy Braga: Uma derrota de Bolsonaro em 2022 representaria, de fato, uma vitória do campo popular, independentemente de quem fosse o vencedor. Até o Doria representaria isso. No entanto, uma vitória de alguém comprometido com valores democráticos não irá resolver o problema principal do país, que é o processo de esboroamento social. É uma degradação tão acentuada da estrutura de classes sociais e populares, uma fragmentação tão intensa, uma crise de representação política da sociedade, de reprodução da vida das classes populares que nenhuma vitória eleitoral poderá dar conta de responder a tamanha crise.

Num cenário como este, pode ocorrer qualquer coisa, inclusive a fascistização dos setores populares. Não me parece o mais provável. Acho o mais provável a intensificação do que chamo de lutas de fronteira, isto é, lutas de redefinição de quem somos nós, de quem são as classes sociais. As classes subalternas estão inertes, de fato, e tais lutas de fronteiras dependem fundamentalmente da construção de identidades coletivas, que digam quem somos nós, pra onde vamos, o que queremos...

Vejo bastante tais questões em movimentos sociais urbanos, de moradia, da periferia, da cultura, no movimento negro, no feminismo. Há uma miríade de movimentos sociais que estão redefinindo as fronteiras da representação social. É possível que a gente perca esses campos para representações filo-fascistas, reacionárias, religiosas. É possível, mas não me parece provável. Aos poucos, haverá uma redefinição de tais fronteiras em direção progressista, o que em algum momento recolocará a esquerda no jogo político.

Correio da Cidadania: O que fazer para sair dessa encruzilhada histórica? A via eleitoral não parece a menos promissora para as esquerdas?

Ruy Braga: Sem dúvida, a esquerda brasileira precisa apresentar um projeto radical de sociedade. Aquele projeto “neoliberal de esquerda”, de viés progressista, que o lulismo incorporou, está completamente desacreditado. Esse projeto fez mal para o país e muito mal para as esquerdas.

Na minha opinião, deve ser um projeto socialista. Mas minha opinião não conta muito. Minha preocupação principal é saber como os grupos sociais subalternos conseguirão se rearticular em torno de um projeto radical, que não irá sair de uma cabeça. Sairá da prática política radicalmente democrática de tais grupos. E essa é a grande dificuldade: reinventar a democracia desde baixo, fazer a miríade de movimentos emergir num projeto coerente, comunitário, de democracia radical, capaz de reorganizar as forças de representação política.

Enquanto não houver tal radicalidade nas bases, uma coerência em comum nas lutas, nos movimentos sem teto, das periferias, da cultura, das mulheres, a tendência é que a gente reproduza esse enorme vazio político que se tornou o debate hegemônico da esquerda brasileira, em especial o PT, o maior partido político das esquerdas. O PT hoje é um vazio político, um vazio de ideias. O PT é um partido que serve para disputar a segunda secretaria da Câmara dos Deputados, a prefeitura de Araraquara (nada contra a cidade, é só um exemplo). Vive um vazio existencial de ideias porque como projeto político “neoliberal progressista” morreu.

Mas não surgiu uma alternativa factível, o mais próximo disso é o PSOL, mas é frágil. E por que o PSOL ainda é frágil? Porque não há reorganização radical das bases da sociedade, o que efetivamente pode oferecer um projeto de país. Não há como o partido surgir como grande alternativa nacional quando as classes subalternas ainda vivem enorme fragmentação e incapacidade de colocar todos os setores em diálogo no sentido de criar essa opção radical.

Enquanto não acontecer tal movimento, fica a pasmaceira. E vai demorar muito tempo para conseguirmos superar o legado perverso do “neoliberalismo progressista” do PT e colocar no lugar um projeto socialista alternativo, capaz de galvanizar massas populares no país e oferecer um futuro para a sociedade como um todo.

Gabriel Brito é jornalista e editor do Correio da Cidadania.