A boiada invade a tela

Nos primeiros seis meses de 2021, a Amazônia perdeu uma área de 4.014 km². A taxa de desmatamento registrada pelo Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) é a maior para um primeiro semestre na última década e acompanha a tendência de aumento dos índices desde 2018. A despeito dos números, um documentário lançado em junho, que conta com participação de membros do alto escalão do governo, afirma que há “muito alarde” sobre queimadas e desmatamento na floresta amazônica. Os entrevistados argumentam que um sobrevoo na região demonstra que ela é uma “floresta preservada”.

A responsável pelo filme que nega o cenário atestado por monitoramentos geoespaciais é a empresa gaúcha Brasil Paralelo. A produtora conservadora se coloca como “contrária à ideologização na produção de conteúdo” e é conhecida pelo documentário 1964: O Brasil entre armas e livros, que tenta recontar a história do golpe militar de cinco décadas atrás, além de outras produções apontadas como revisionistas.

Em 2021, a produtora que se pretende uma “Netflix da direita” lançou dois documentários focados nas questões ambiental e indígena: Cortina de fumaça e A esperança se chama liberdade. Investigação da Pública revela que os filmes contam com participação, auxílio e divulgação de integrantes do governo federal, além de investimento de um ruralista que já foi pego em fiscalização contra uso de mão de obra escravizada.

O documentário Cortina de fumaça, disponibilizado no YouTube, baseia-se na tese de que organizações civis e agricultores dos Estados Unidos e de países europeus defendem o meio ambiente porque estariam interessados em frear o crescimento agrícola do Brasil. Já o documentário A esperança se chama liberdade, exclusivo para assinantes da produtora, faz uma defesa da exploração agrícola nos territórios indígenas como se essa fosse uma forma de garantir autonomia aos povos.

Em entrevista exclusiva para assinantes da Brasil Paralelo, o diretor e fundador da produtora, Lucas Ferrugem, afirmou que a empresa “sempre” quis fazer um documentário sobre ambientalismo, mas estava esperando um “timing legal”. O momento esperado chegou, quando são promovidas discussões de projetos de lei (PL) no Congresso Nacional, como o “PL da Grilagem”, o da mineração em terras indígenas, o licenciamento ambiental, além do julgamento da tese do Marco Temporal no Supremo Tribunal Federal (STF).

Questionada, a Brasil Paralelo disse que o timing não foi proposital. “A BP foca em temas perenes com razoável durabilidade no debate público. Por isso buscamos o ‘macro’ da questão que, inclusive, permite compreender melhor os acontecimentos do dia a dia político, jamais o contrário”, disse o diretor de relações institucionais da empresa, Renato Dias. “Com a ascensão da personalidade midiática Greta Thunberg e o aumento nas notícias sobre queimadas na Amazônia, achamos que era um bom momento para entrar na pauta e levar este conteúdo às pessoas”, completou.


Capa do documentário “Cortina de Fumaça” na plataforma de assinantes da Brasil Paralelo. Créditos: Reprodução.

Organização não governamental mais criticada no documentário, o Greenpeace rechaça a narrativa apresentada no filme. “O pseudodocumentário [Cortina de fumaça] faz jus ao nome, ao promover desinformação sobre o desmatamento no Brasil e tentar desqualificar o trabalho de ativistas, de organizações não governamentais e da mídia tradicional, que denunciam a destruição ambiental em curso no país. Tudo isso no momento em que o desmatamento segue descontrolado, as queimadas voltam a atingir níveis recordes e o país fica cada vez mais isolado e sob pressão internacional”, afirmou a Pública a porta-voz do Greenpeace, Carolina Pasquali.

Relações com o governo

“Espero que esse filme chegue principalmente nas pessoas que podem tomar alguma atitude, seja do ponto de vista empresarial ou político”, disse Ferrugem em entrevista ao portal Notícias Agrícolas no dia 30 de junho, depois do lançamento da obra.

Meses antes, na tarde de 7 de maio de 2021, a ministra Damares Alves recebeu em seu gabinete em Brasília quatro integrantes da produtora. A reunião fazia parte das gravações para o documentário Cortina de fumaça, que foi ao ar pouco mais de um mês depois. Cercada por pinturas e artesanatos indígenas, a ministra negou a existência de genocídio indígena – pelo qual o presidente Jair Bolsonaro foi denunciado em pedidos de impeachment e internacionalmente – e falou sobre sua identificação pessoal com a causa. “Nós temos áreas de conflito, mas o povo brasileiro na sua grande maioria ama os povos indígenas”, defendeu em entrevista gravada para o documentário.

Um dia antes, a equipe havia visitado a sede da Funai para entrevistar o atual presidente, Marcelo Xavier. Na conversa, disponível em versão estendida na plataforma da Brasil Paralelo, Xavier defendeu que o indígena deve “alcançar a sua dignidade através do auferimento de renda” proveniente da produção comercial em suas terras.

Também alegou que poucos indígenas morrem por conflitos agrários: “Há casos de indígenas que foram mortos por se envolverem com tráfico de drogas, atropelados, dentre outros casos, e algumas entidades insistem em jogar esses casos como conflitos fundiários”, disse o presidente da Funai, também delegado da Polícia Federal. A afirmação contradiz o levantamento da Comissão Pastoral da Terra (CPT), que demonstra que o assassinato de indígenas por conflitos no campo bateu recorde sob o governo Bolsonaro. Foram registrados nove crimes de homicídio somente em 2019, maior número em 11 anos – o que representou 28% do total de mortes por conflitos no campo no ano, 32. Além dos assassinatos, os indígenas sofreram nove tentativas de homicídio e 39 ameaças de morte, segundo os dados da CPT.

Xavier apareceu também no outro filme lançado pela produtora gaúcha, A esperança se chama liberdade. A produção – realizada pela organização Fé & Trabalho e distribuída pela Brasil Paralelo – acompanhou a agenda do presidente da Funai em viagem à Terra Indígena Sangradouro, da etnia Xavante, para promover o projeto Independência Indígena, criticado pela Associação Xavante Warã em nota de repúdio, mas exaltado na peça.