Amapá: os impactos do apagão na população periférica; “me sinto um nada”

Agência Pública busca contribuições para financiar reportagens em ...

“Vai normalizar 100%” foi a frase mais ouvida pela auxiliar de serviços gerais Francilene Medeiros, de 46 anos, em relação à ativação de geradores termoelétricos para suprir o fornecimento de energia no Amapá. Contudo, mesmo com o funcionamento dos equipamentos, a promessa do Governo Federal não se concretizou e os moradores permaneceram convivendo com os prejuízos provocados pelo apagão que atingiu o estado por um mês - desde o dia 3 de novembro.

Os geradores foram ativados no sábado (21), durante a visita do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) ao Amapá. Acompanhado do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM), e do governador do estado, Waldez Góes (PDT), o presidente da República foi recebido por apoiadores e também por manifestantes que gritaram “fora, Bolsonaro” e outras palavras de insatisfação.

“Disseram que ia ser 100%, mas eu não sei o que aconteceu que continua no rodízio”, disse a auxiliar de serviços gerais sobre o sistema de racionamento de energia implantado pela Companhia de Eletricidade do Amapá (CEA).

O Ministério de Minas e Energia (MME) chegou a informar três prazos para a normalizar a situação, mas nenhum deles foi cumprido. Com isso, os maiores impactos do apagão são sentidos pela população periférica, que vive em meio a fiações velhas e estruturas – como cabos de alta tensão e transformadores – danificadas.

Reportagem da Pública registrou curto-circuito na rede elétrica em uma rua da cidade

Na maioria dos bairros, a energia era oferecida em intervalos de 3h e 4h. Em algumas regiões, o fornecimento se tornou mais frequente e chega a permanecer mais de 12 horas. Porém, ainda há reclamações sobre interrupções constantes e falhas na distribuição.

Após o início do racionamento, algumas atividades no estado normalizaram. Os moradores passaram a conseguir abastecer os veículos, fazer compras e sacar dinheiro sem enfrentar longas filas. Além disso, os sinais de internet e das operadoras de celular também melhoraram. Mas a medida não conseguiu evitar a continuação dos prejuízos e transtornos.

As dificuldades provocadas pela crise energética refletem no sentimento de impotência da Francilene sobre a situação dela e dos três filhos. “Eu me sinto mesmo, assim, no meio disso tudo? Me sinto um nada, não sei o que que eu faço”, lamentou.

Aguardando por um fornecimento normal, uma região da Zona Norte de Macapá começou a semana com um susto durante um curto-circuito. Vídeos compartilhados nas redes sociais mostram o desespero dos moradores. “Gente, socorro! Meu Deus do céu, tá estourando tudo aqui (…)”, disse a autônoma Ane Caroline Lobato, de 28 anos, em uma das gravações.

Os moradores acreditam que o problema tenha sido causado pelas interrupções constantes na alimentação dos transformadores do bairro. A Companhia de Eletricidade do Amapá (CEA) alega que o curto-circuito foi provocado por uma ventania que ocorreu na capital.

A ventania a qual a empresa se refere teria acontecido após as chuvas fortes que atingiram o estado no último domingo (22). Várias ruas de Macapá ficaram alagadas. A Defesa Civil e o Corpo de Bombeiros registraram mais de 30 pontos de alagamento.

“Acontece sempre, sempre. (...) Na última vez chegou energia de meia-noite, que era o racionamento, aí quando chegou quase todo mundo ligou [os eletrodomésticos] e quando todo mundo ligou estourou de novo [a rede elétrica]”, contou a autônoma Ane Caroline Lobato, de 28 anos. “O rodízio não funciona, praticamente. (...) A gente tá no pico do esgotamento físico e mental”, ressaltou.

Na mesma região, mora a dona de casa Maria de Jesus Carvalho, de 62 anos. Ao levantar as mãos e apontar para os postes de iluminação, ela recorda os momentos de pânico que passou temendo pela segurança da família. “A gente tá sofrendo as consequências desse rodízio”, disse a aposentada, acrescentando ser comum ficar um dia inteiro sem luz.

À noite, devido a temperatura do estado – que tem um clima quente e úmido – é comum encontrar famílias reunidas em frente às casas pela ausência de um ambiente refrigerado. Mas o desconforto continua mesmo em alguns locais abertos devido ao “carapanã”, que é o nome regional dado a um mosquito sugador de sangue, conhecido em outras regiões como pernilongo.

Os relatos de noites mal dormidas passaram a fazer parte do cotidiano dos amapaenses. Algumas pessoas dormem de janelas abertas, outras deitam em cima de toalhas molhadas como alternativa para a amenizar o calor durante a madrugada. Mesmo assim, ter uma noite de repouso é quase impossível para quem não tem condições financeiras de ter um gerador ou de pagar por um hotel com sistema próprio de energia.

“A gente sai do serviço ‘pra’ ter o descanso né, mas chega em casa e não tem luz. Passo três [horas] com energia e três sem. E aí, chega em casa e não tem como descansar”, contou o serviços gerais Guilherme Bastos, de 57 anos, em um ponto de ônibus totalmente no escuro, no Centro de Macapá. Ele mora no bairro Vale Verde, uma área periférica onde boa parte dos moradores residem sobre palafitas em casas de madeira construídas em uma região alagada.


Ponto de ônibus no Centro de Macapá totalmente no escuro
Créditos: Dyepeson Martins/Agência Pública

Além da tranquilidade, pequenos estabelecimentos comerciais também perdem dinheiro. As quedas frequentes de energia provocam a queima de equipamentos e transformam a rotina de trabalho dos donos e funcionários, que precisam se adequar aos horários do rodízio. Em alguns locais, o cronograma de racionamento não é cumprido e os comerciantes contam com a sorte para trabalhar.

Em uma padaria na Zona Norte da capital, por exemplo, os pães eram preparados durante o dia. Mas agora, a dona do estabelecimento conta que a produção está “parcelada”. Os funcionários trabalhavam de sobreaviso e as vendas caíram substancialmente.

“Eles [funcionários] tão trabalhando no horário da noite quando chega a energia. E às vezes, quando chega de dia, eles trabalham e ‘pow’ vai embora a energia de novo”, descreveu Natana de Cássia, de 28 anos, que abriu o pequeno negócio em 2015. “Antes a gente tinha o horário certo: dormia de noite ‘pra’ trabalhar de dia. Agora a gente tá tendo sono de 3 horas só”, explicou.

A tranquilidade e a rotina do Dorenildo Albuquerque também foram afetadas devido ao “liga e desliga” da rede elétrica. O comerciante, de 26 anos, disse ter perdido três freezers desde o dia 3 de novembro. Apesar da distribuidora dele continuar de portas abertas, boa parte das bebidas – como sucos e refrigerantes – são vendidas quentes em decorrência da falta de dinheiro para consertar os equipamentos. O valor do prejuízo, segundo ele, ultrapassa R$ 5 mil.