Brasil se aproxima do recorde de mortes da pandemia


O número diário de pessoas infectadas no Brasil se manteve acima de 50 mil casos no mês de janeiro de 2021 e a curva epidemiológica de mortalidade, em ascensão, está com uma média diária acima de 1.000 vidas perdidas, aproximando-se dos montantes ocorridos no pico dos óbitos registrados em julho de 2020. Mesmo com o início da vacinação – que por sinal caminha em ritmo muito lento – tudo indica que a mortalidade pelo SARS-CoV-2 ainda vai piorar antes de apresentar tendência de significativa melhoria.

A vacinação avança de maneira rápida em alguns países, em ritmo lento em outros e nem começou na maioria das nações do mundo. Em pouco mais de um mês, Israel já vacinou 54% da sua população. Os Emirados Árabes Unidos e Seychelles já vacinaram 31% dos seus habitantes. O Reino Unido – que foi o primeiro país a aplicar doses da vacina de Oxford, a partir do dia 8 de dezembro – conseguiu imunizar 13% da população até o dia 29/01. Os EUA vacinaram 8,4% e o Brasil – que começou a vacinação no dia 17/01 – chegou em 29 de janeiro com cerca de 0,8% da população imunizada. A média mundial está em 1,2%, conforme mostra o gráfico abaixo.

 

Não há dúvida de que a vacina protege a pessoa vacinada. Porém, os estudos científicos dizem que levaria meses até que as pessoas sejam imunizadas, em número suficiente, para permitir a retomada da vida normal. A chegada de vacinas altamente eficazes em dezembro aumentou a esperança de que elas acabem retardando ou contendo a disseminação da doença pelo conjunto da população. Mas somente as vacinas não são suficientes e as medidas preventivas não podem ser abandonadas.

Além do mais, a despeito do grande esforço do desenvolvimento de vacinas, o grande perigo atual são as novas variantes do coronavírus. Vários países já estão sofrendo com as novas cepas do SARS-CoV-2 que possuem maior grau de transmissibilidade, podem reinfectar as pessoas e se espalham rapidamente, como no caso das mutações da Inglaterra (B.1.1.7) e da África do Sul (B.1.351). Ainda não se conhece o real potencial da cepa surgida em Manaus, mas os relatos clínicos indicam que a deterioração dos pacientes é maior e mais rápida.

Pesquisadores de dez instituições, incluindo a Imperial College, a Universidade de Oxford e diversas instituições brasileiras, publicaram artigo no site Virological descrevendo casos da nova variante que recebeu o nome de “P.1”. As conclusões iniciais são de que essas cepas, que estão se espalhando pelo mundo, podem tornar inúteis os anticorpos monoclonais que estão sendo desenvolvidos como tratamento e devem ameaçar de forma significativa a eficácia das vacinas.

O perigo é que a propagação destas novas cepas se transforme em um tsunami que amplie a pandemia no Brasil e na América Latina. Na semana passada, o ex-ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, disse que a nova mutação pode ser mais difícil de lidar e que a decisão de transferir os pacientes com covid-19 de Manaus, sem o menor cuidado, deve ter plantado mudas da nova cepa em todo o Brasil e que poderemos ter uma “mega epidemia” daqui a 60 dias.

O panorama da covid-19 no Brasil

Segundo o Ministério da Saúde, o Brasil chegou ao dia 30 de janeiro de 2021 como 9,23 milhões pessoas infectadas e 224,6 mil vidas perdidas, com uma taxa de letalidade de 2,4%. O mês de janeiro bateu todos os recordes mensais anteriores em número de casos e o número de mortes está em ascensão e já se aproxima do recorde ocorrido em julho de 2020.

O gráfico abaixo mostra os valores diários dos casos da covid-19 no Brasil nas 22 quinzenas de 1 de março a 31 de janeiro de 2021. Nota-se que, na quinzena de 1 a 15 de março, houve uma média diária de apenas 13 casos, passou para 8.856 casos na primeira quinzena de maio e deu um salto para o pico da 1ª onda de 43.641 casos na primeira quinzena de agosto. Nas quinzenas seguintes os números caíram até 21,8 mil casos de 1 a 15 de novembro. Todavia, a segunda onda ganhou força e os números voltaram a subir e chegaram a 44,1 mil casos na segunda quinzena de dezembro de 2020, batendo o recorde de 52 mil casos na última quinzena de janeiro de 2021.

 

O gráfico abaixo mostra os valores diários dos casos da covid-19 no Brasil de março de 2020 a janeiro de 2021. Nota-se que no mês de março houve apenas 184 casos diários em média, passando para 2.655 casos diários em abril e saltando para o pico da primeira onda em julho de 2020 com 40,7 mil casos diários.

Houve queda nos meses de agosto, setembro e outubro. Porém, uma segunda onda começou em novembro, sendo que o mês de dezembro apresentou o pico de 2020 com 43.229 casos diários e o primeiro mês de 2021 manteve média recorde em torno de 50 mil casos. Os números de janeiro foram maiores do que o montante de casos de todo o primeiro semestre do ano passado.

 

O gráfico abaixo mostra os valores diários do número de óbitos no Brasil nas 21 quinzenas de 16 de março de 2020 a 31 de janeiro de 2021. Nota-se que, na quinzena de 16 a 31 de março, houve uma média diária de apenas 13 óbitos. Na segunda quinzena de maio o número médio diário de mortes pulou para 906 óbitos e continuou aumentando até o pico de 1.069 óbitos na segunda quinzena de julho. A partir de agosto o número de mortes diminuiu até o mínimo de uma média diária de 394 óbitos na primeira quinzena de novembro. Porém, as cifras voltaram a subir no restante do ano e continuou subindo em janeiro de 2021. A média diária de 1.025 óbitos na segunda quinzena de janeiro de 2021 está próxima do valor máximo de 2020. Tudo indica que, em fevereiro de 2021, infelizmente, o recorde diário de óbitos deva ser atingido.

O gráfico abaixo mostra os valores diários dos óbitos da covid-19 no Brasil nos 11 meses de 2020. Nota-se que no mês de março houve apenas 6 vítimas fatais diárias em média, passando para 190 óbitos diários em abril e saltando para o pico da 1ª onda de 1.061 óbitos diários em julho de 2020. Houve queda nos meses de agosto a novembro, mas um novo aumento em dezembro, com média de 704 mortes e um valor ainda maior de 958 vidas perdidas em janeiro de 2021. A média diária de vidas perdidas foi de 490 óbitos no 1º semestre e saltou para 731 óbitos no segundo semestre do ano passado. O primeiro mês de 2021 começa com a curva epidemiológica com números elevados e em ascensão.



As curvas epidemiológicas estavam subindo no primeiro semestre, atingiram um pico em julho e iniciaram um período de redução até o início de novembro. Mas houve uma reversão das curvas que passaram a apresentar uma tendência de alta. O pico da média móvel de casos da 2ª onda superou o pico da 1ª onda na semana de 13 a 19 de dezembro de 2020 e atingiram o auge em janeiro de 2021 A média móvel de mortes também apresenta tendência de alta, sendo que o ajuste polinomial indica que as curvas epidemiológicas começam o mês de fevereiro de 2021 com tendência de alta.

O panorama global da pandemia

O mundo chegou a 102,6 milhões de pessoas infectadas e a 2,2 milhões de vidas perdidas para a covid-19 no dia 30 de janeiro, com taxa de letalidade de 2,2%, segundo a Universidade Johns Hopkins.

O gráfico abaixo mostra a evolução da média diária dos casos da covid-19 no mundo, nas 24 quinzenas de 1 de fevereiro a 31 de janeiro de 2021. Nota-se que, na quinzena de 1 a 15 de fevereiro, houve uma média diária de 3,9 mil casos. Na quinzena 16 a 31 de março, o número de casos deu um salto para 44,2 mil e continuou subindo até 272,5 mil casos na quinzena de 1 a 15 de setembro.

Nas quinzenas seguintes houve uma aceleração com a média diária ultrapassando 600 mil casos em dezembro de 2020. O pico de toda a série ocorreu na primeira quinzena de janeiro de 2021, com praticamente 700 mil casos diários. Felizmente, o número de casos teve uma queda expressiva na segunda quinzena de janeiro, ficando abaixo de 600 mil casos diários.

O gráfico abaixo mostra os valores diários dos casos da covid-19 no mundo nos 12 meses de 2020 e janeiro de 2021. Nota-se que no mês de janeiro houve menos de 1 mil casos diários em média (quase todos na China), passando para 2,6 mil casos diários em fevereiro, 25 mil casos em março e 283 mil casos em setembro.

Nos últimos quatro meses do ano houve uma aceleração da pandemia chegando a 623 mil casos diários em dezembro de 2020. No primeiro semestre a média diária de pessoas infectadas foi de 57 mil casos e passou para 394 mil casos no segundo semestre de 2020. Lastimavelmente, os números médios de janeiro de 2021 foram ainda maiores (embora a 2ª quinzena de janeiro tenha números menores do que na 1ª quinzena).

 

O gráfico abaixo mostra a evolução do número diário de óbitos no mundo nas 24 quinzenas de 1 de fevereiro a 31 de janeiro de 2021. Na quinzena de 1 a 15 de fevereiro, houve uma média diária de apenas 97 vidas perdidas, dando um salto para 2,4 mil óbitos na segunda quinzena de março e para o pico da 1ª onda com 6,6 mil óbitos na primeira quinzena de abril. Este pico não foi superado até a segunda quinzena de outubro. Mas a 2ª onda trouxe números elevados em novembro e dezembro, com o pico de mortes diárias do ano sendo atingido entre 16 e 31/12 com 11.419 óbitos. Lamentavelmente, os números continuaram subindo em janeiro de 2021 e chegaram ao cume de 13,6 mil mortes diárias entre 16 e 31 de janeiro de 2021 (mais do que o dobro do pico da primeira quinzena de abril de 2020).

O gráfico abaixo mostra os valores diários dos casos da covid-19 no mundo nos 12 meses de 2020 e janeiro de 2021. Nota-se que nos meses de janeiro e fevereiro houve menos de 50 mortes diárias em média (quase todos na China), passando para 1,3 mil óbitos diários em março e chegando ao pico de 6,4 mil mortes diárias em abril. Entre maio e outubro os números foram menores. Mas em novembro a média diária de vidas perdidas passou para 9,1 mil óbitos diários e para 11,3 mil óbitos diários em dezembro de 2020. No primeiro semestre do ano houve uma média de 2,8 mil mortes diárias, passando para 7,1 mil no segundo semestre. O que estava ruim piorou ainda mais em janeiro de 2021 com 13,2 mil vidas perdidas diariamente.


 

Os números internacionais da pandemia são realmente preocupantes, pois a covid-19 já atingiu 218 países e territórios e o mundo já ultrapassou 100 milhões de pessoas infectadas pelo novo coronavírus e houve mais 2 milhões de vítimas fatais. O ano de 2021 começou com números muito superiores aos de janeiro de 2020. No dia 1 de março, havia somente 1 país com mais de 10 mil casos confirmados de Covid-19 (a China) e havia 5 países com valores entre 1 mil e 10 mil casos (Irã, Coreia do Sul, França, Espanha, Alemanha e EUA). No dia 1 de abril já havia 50 países com mais de 1 mil casos, sendo 36 países com montantes entre 1 mil e 10 mil casos, 11 países com números entre 10 mil e 100 mil e 3 países com mais de 100 mil casos. No primeiro dia de 2021 já havia 175 países com mais de 1 mil casos e 18 países com mais de 1 milhão de casos.

Os números continuaram aumentando e no 1 dia de fevereiro de 2021 já se registra 182 países com mais de 1 mil casos, sendo 46 entre 1 mil e 10 mil casos, 55 países entre 10 e 100 mil casos, 61 países entre 100 mil e 1 milhão de casos e 20 países com mais de 1 milhão de casos.

A lista dos 20 primeiros colocados do ranking, com a data em que chegaram à marca de 1 milhão, são: EUA (27/04), Brasil (19/06), Índia (16/07), Rússia (01/09), Espanha (15/10), Argentina (19/10), França (23/10), Colômbia (24/10), Turquia (28/10), Reino Unido (31/10), Itália (11/11); México (15/11), Alemanha (26/11), Polônia (02/12), Irã (03/12), Peru (22/12), Ucrânia (24/12), África do Sul (26/12), Indonésia (26/01) e República Tcheca (01/02).

A pandemia atingiu todos os países e todos os continentes do mundo, se transformando no primeiro acontecimento global na história humana, como afirmou Branko Milanović, em artigo recente. Mas o impacto foi muito diferenciado nas regiões e nas variadas nações.

O Instituto Lowy de Sydney publicou estudo analisando as políticas adotadas contra a covid-19 e o desempenho obtido em 98 países de acordo com seis critérios, como casos confirmados, mortes, capacidade de detecção da doença, etc. Confirmando o que temos afirmado repetidamente aqui, os três países com melhor desempenho e no topo do ranking são Nova Zelândia, Vietnã e Taiwan.

Estes países fizeram uma excelente barreira sanitária, testaram, rastrearam e monitoraram os doentes e estabeleceram uma forte sinergia entre o Poder Público e a Sociedade Civil, praticamente, eliminando a transmissão comunitária do vírus. Já a gestão pública brasileira da pandemia foi considerada a pior do mundo entre as 98 nações analisadas.

A cada dia fica claro que o Brasil poderia ter reduzido o número das quase 10 milhões de pessoas doentes e ter evitado muitas das mais de 220 mil vidas perdidas. Se o Brasil tivesse controlado a doença teria evitado uma queda do Produto Interno Bruto de cerca de 4% em 2020, uma redução da renda per capita de 5%, um desemprego e uma subutilização da força de trabalho algo em torno de 30 milhões de pessoas, um déficit público de R$ 743 bilhões e uma dívida pública que se aproxima de 100% do PIB. Em síntese, o Brasil falhou no controle da emergência sanitária, falhou na gestão macroeconômica e falhou na solução dos problemas sociais.

Evidentemente, as causas do sofrimento brasileiro são complexas e são muitos os culpados pelo agravamento da pandemia no território nacional. Mas como mostramos no dia 24/01, aqui no Diário da Covid, uma pesquisa recente constatou que o principal vetor do descontrole pandêmico ocorreu em função das políticas e atitudes equivocadas promovidas pelo “Governo brasileiro sob a liderança da Presidência da República”.

Indubitavelmente, a sociedade brasileira precisa conquistar a liberdade de pensamento e a autonomia para contornar a heteronomia governamental.

Frase do dia
“Nenhum poder na Terra é capaz de deter um povo oprimido, determinado a conquistar sua liberdade”
Nelson Mandela (1918-2013)

Referências:
ALVES, JED. Diário da Covid-19: Brasil vive rápida expansão da pandemia e lenta vacinação, # Colabora, 24/01/2021
https://projetocolabora.com.br/ods3/brasil-vive-expansao-da-pandemia-e-lenta-vacinacao/ 
BRANKO MILANOVIĆ. O primeiro acontecimento global na história humana, IHU, 29/01/2021
http://www.ihu.unisinos.br/606472-o-primeiro-acontecimento-global-na-historia-humana-artigo-de-branko-milanovic 
LOWY INSTITUTE. Covid Performance Index. Deconstructing Pandemic Responses, January 2021
https://interactives.lowyinstitute.org/features/covid-performance/ 
NUNO R. FARIA et al. Genomic characterisation of an emergent SARS-CoV-2 lineage in Manaus: preliminary findings, Virological, 13/01/2021
https://virological.org/t/genomic-characterisation-of-an-emergent-sars-cov-2-lineage-in-manaus-preliminary-findings/586 

José Eustáquio Diniz Alves, sociólogo, mestre em economia e doutor em Demografia pelo Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional (CEDEPLAR) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). É colunista do Portal Colabora, onde este artigo foi originalmente publicado.

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