Correio da Cidadania

Ualid Rabah: "Lula falou por todo o Sul global"

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Ualid Rabah, presidente da Fepal (Federação Árabe-Palestina do Brasil).

Créditos: Vinicius Loures - Câmara dos Deputados

Considerando mortos e desaparecidos, as vítimas palestinas na Faixa de Gaza já somam 37.398 nesta segunda-feira (19), segundo dados do Ministério da Saúde de Gaza divulgados pela Fepal (Federação Árabe-Palestina do Brasil). Isso equivale a 1,68% da população do enclave palestino, que era de 2,223 milhões de pessoas em 7 de outubro de 2023, quando teve início a última ofensiva genocida de Israel em Gaza.

Aplicado à população mundial, ou seja, em caso de um conflito total, o percentual de mortos representaria 136 milhões de mortos em 135 dias. Ou seja, se semelhante morticínio fosse planetário, seriam mais de 1 milhão de vítimas diárias.

Nesta escala de extermínio, aponta Ualid Rabah, o presidente da Fepal, 4,75% da população de Gaza seria eliminada ao ano. Ou pior, se pegarmos o período de 6 anos, duração da 2ª Guerra Mundial, desapareceria quase 28,5% da população do enclave palestino.

Entre os mortos e desaparecidos (muitos já dados como mortos) desde 7 de outubro, estão 16.450 crianças – ou 44% das vítimas. Em Gaza, nestes 135 dias de ataques israelenses, foram assassinadas 7.377 crianças para cada 1 milhão de habitantes. São quase 130 crianças assassinadas ao dia. Mais de duas por hora, ao vivo nos noticiários de todo o planeta. Os números estão na mesma faixa da mortalidade infantil em plena Segunda Guerra Mundial: 127 por dia em toda a Europa, que à época tinha uma população mais de 200 vezes maior do que a da atual Faixa de Gaza.

Mas o que realmente chocou a mídia hereditária e os “especialistas em Oriente Médio” ouvidos por ela aparentemente foram as declarações do presidente Lula (PT), na Etiópia, que denunciou justamente essa correlação entre a barbárie nazista de ontem e o massacre de palestinos de hoje.

Levando esse contexto em consideração, a Revista Fórum conversou com Ualid Rabah, o presidente da Fepal, que comentou as declarações de Lula que comparam Benjamin Netanyahu a Adolf Hitler, as reações israelenses ao mandatário e ainda fez uma extensa exposição da realidade palestina sob o regime colonial israelense. Para ele, Lula fala em nome de todo o Sul global.

"A fala de Lula é a do chamado Sul Global, dos BRICS, de todos os países do mundo que cansaram do unilateralismo dos EUA e da OTAN, de seus desmandos, de suas guerras bélicas e econômicas. China e Rússia, por exemplo, se sentem representadas por Lula em sua manifestação. Todo o continente africano. Todos os países árabes. Todos os países de maioria islâmica. E é a da esmagadora maioria da opinião pública do mundo, inclusive a dos cidadãos dos países cujos líderes apoiam o genocídio em curso. Lula falou por pelo menos 7,5 bilhões de habitantes deste planeta", declarou.

Leia na íntegra a seguir.

Como você avalia a fala de Lula sobre o genocídio em Gaza?

O presidente Lula já havia afirmado que se tratava de um genocídio. Disse isso, textualmente, poucos dias de iniciado o genocídio. Neste particular, Lula segue sua posição e a de seu governo, notadamente de sua equipe para as relações exteriores.

Lula chegou a falar, quando recebeu os repatriados brasileiro-palestinos, que o Brasil tanto se empenhou para resgatar do campo de extermínio em que Gaza foi transformada, que a ação israelense se tratava de terrorismo de Estado. Naquele momento houve, basicamente, a mesma reação artificial, viciada e deturpadora da fala presidencial que vemos agora, e feita pelos mesmos atores, isto é, o extremismo racista da política doméstica, os grandes veículos de comunicação que seguem incitando ao genocídio na Palestina e televisionando-o, com sua forte defesa, ainda hoje, com a Globo à frente.

Há ainda os mercadores da fé que israelizam o cristianismo para torná-lo uma quinta coluna interna que chantageia partidos, parlamentares e governos e busca interferir em partidos e nos processos eleitorais. E, por fim, claro, os agentes de “israel” no Brasil, citem-se, as organizações ditas “israelitas” e a embaixada israelense, uma verdadeira máquina de interferência nos assuntos internos do Brasil.

A fala de Lula é a do chamado Sul Global, dos BRICS, de todos os países do mundo que cansaram do unilateralismo dos EUA e da OTAN, de seus desmandos, de suas guerras bélicas e econômicas. China e Rússia, por exemplo, se sentem representadas por Lula em sua manifestação. Todo o continente africano. Todos os países árabes. Todos os países de maioria islâmica. E é a da esmagadora maioria da opinião pública do mundo, inclusive a dos cidadãos dos países cujos líderes apoiam o genocídio em curso.

Lula falou por pelo menos 7,5 bilhões de habitantes deste planeta. E pela maioria do povo brasileiro, seguramente. Sua fala abre a fila dos demais líderes mundiais. Lula tem apoio explícito da maioria e tácito de quase todos que não podem fazê-lo publicamente por medo dos EUA, já que este genocídio na Palestina apenas é executado por “israel”, mas é estadunidense.

É possível comparar o Holocausto com o genocídio palestino?

E por que não seria possível? Por acaso vamos ceder à chantagem sionista de que o “nunca mais” vale apenas para um grupo humano? Que excepcionalismo é esse?

De plano, todos os genocídios devem ser repudiados e não apenas um, que, aliás, não ocorreu senão na Europa, cometido por europeus não-judeus contra seus concidadãos europeus de fé judaica. E, mais, foram estes mesmos “ocidentais” que cometem todos os genocídios nos últimos 500 anos. Eles que inventaram o Apartheid, o colonialismo e suas dezenas de milhões de vítimas fatais, a escravidão, as duas guerras mundiais – Hitler e Mussolini são europeus, brancos, “ocidentais”, tal qual Netanyahu –, as duas guerras do ópio, as duas bombas atômicas, as populações dizimadas da América, para ficarmos em poucos exemplos. Isso tudo é genocídio. Isso tudo são holocaustos.

Depois há dados que o corroboram com o que falamos sobre a Palestina e que estão, em parte, em nossa nota oficial sobre o tema [veja ao final da entrevista].

A reação sionista pode causar problemas graves ao Brasil ou vai ficar só na bravata?

Os sionistas já desestabilizaram o Brasil noutras ocasiões e nos levaram a verdadeiras tragédias econômicas, sociais e políticas. Estiveram a linha de frente de desestabilização em reação a duas medidas importantes. A primeira, o reconhecimento da Palestina como estado por Lula, em final do seu segundo mandato, em 2010.

Logo em seguida atacaram a presidenta Dilma por ter se recusado a receber as credenciais do embaixador israelense indicado para o Brasil. Ele presidiu a associações dos colonos, que defendem a tomada de toda a Palestina e a eliminação dos palestinos dali. A recusa brasileira estava baseada nas obrigações internacionais frente às resoluções da ONU e do Direito Internacional para o tema (colonialismo, genocídio e Apartheid).

Depois temos as empresas de tecnologia da informação israelenses agora denunciadas como tendo atuado, por meios de seus sistemas de inteligência artificial e espionagem, não só na desestabilização, mas em todo processo de monitoramento de ministros do STF, parlamentares, líderes políticos e assim por diante, em claro desafio à democracia brasileira, ao Estado de direito. Foram estes softwares israelenses que foram utilizados para propagar os discursos de ódio e de intolerância no Brasil, que nos levaram a um extremismo que ainda não havíamos conhecido.

“Israel” é um perigo à segurança nacional do Brasil, à nossa segurança social e à paz interna, à nossa democracia e às nossas liberdades civis, ao nosso estado e às nossas forças de segurança interna e externa, portanto, um perigo até às nossas forças armadas e, de consequência, gravíssimo perigo à nossa soberania nacional.

O discurso do Netanyahu e dos seus aliados tem se tornado cada vez mais próximo do discurso de Bolsonaro. Por que?

Porque os extremistas se encontram naturalmente. Mas há outro elemento-chave nisso: “Israel” se tornou, faz tempo, a um certo público, o modelo ideal de racismo, supremacismo, controle social, eliminação de adversários, inclusive por meio de limpeza étnica. Esta sociedade totalitária, distópica, agrada a estes setores, que querem governar para pequenas elites, obter máximo benefício econômico da divisão da renda nacional e global, sempre excluindo amplas massas de suas populações.

E isso tudo exige um estado policial, que é policialesco tanto no uso das forças de segurança quanto dos aparelhos do judiciário, dos ministérios públicos e de outras carreiras do estado, que servirão apenas às elites nesta administração nacional excludente. E qual o modelo perfeito disso? Ora, “Israel”!

Além do mais, “Israel” é um paradigma, uma espécie de precedente, que estes extremistas de todo o mundo querem ver normalizado, em triunfo frente ao Direito Internacional e frente às resoluções da ONU. Caso se afirme, os direitos humanos deixam de ser regra a ser obedecida, seja na cena internacional, sena na nacional. “Israel” é esta tábua de salvação dos que não querem um novo mundo, em que os direitos humanos reais sejam a regra.

Ademais, se “Israel” e seu modelo fracassarem, fracassa o imperialismo e a possibilidade de no mundo seguirem realidade possível o colonialismo, as intervenções de EUA e seus aliados onde quer que desejem, destruindo países inteiros para roubarem suas riquezas, suas geografias estratégicas, sua história, tudo que é dos povos.

Por que a fala de Lula sobre o caso tem mais impacto do que os assustadores números da operação de Israel em Gaza?

Bem, porque os que reagem são os que provocam estes números. Falar dos crimes em Gaza tendo por termo comparativo algo que no tal “ocidente” é reconhecido como um crime leva as pessoas a prestarem mais atenção ao que acontece. Se as pessoas prestarem atenção, verão os dados que temos passado. Afinal, fomos a primeira organização brasileira – talvez no ocidente – a falar em genocídio, já no dia 7 de outubro, bem como que se tratava de um genocídio midiatizado, isto é, em que os veículos de comunicação lhe davam início, demonizando a população palestina e, com isso, autorizando “israel” ao genocídio programado. E falamos de primeiro genocídio televisionado. E depois trouxemos os dados comparativos. É por isso.

E porque, fundamentalmente, o sionismo e “Israel” precisam seguir beneficiários da chantagem que promovem como o holocausto euro-judeu, isto é, como licença permanente para que cometam seus crimes. Como questionar as vítimas divinizadas? Se você afirmar que “Israel” comete crimes de lesa-humanidade o terão como alguém que “nega o holocausto”. Ou seja: estão até ultrapassando a vulgaridade da acusação de “antissemitismo”. Veja onde chegamos!

Dados de 18 de fevereiro da Fepal

• TOTAL DE MORTOS (considerando desaparecidos): 37.398
• Isso equivale a 1,68% da população palestina de Gaza, de 2.223.000 em 7 de outubro de 2023, quando teve início o genocídio na Palestina

Este percentual aplicado às populações:

• Mundial, 136 milhões de mortos em 135 dias
• Europeia, levaria à morte de 12,6 milhões nos mesmos 135 dias)
• Brasileira, a quase 3,44 milhões

Ao dia (135 dias), 0,013% da população foi assassinada, o que levaria a:

• No mundo, quase 1,1 milhão de mortos diariamente
• Na Europa, 100 mil mortos ao dia
• No Brasil, a quase 27 mil mortos todos os dias

Nesta escala de extermínio, 4,75% da população de Gaza eliminada ao ano, ou, nos mesmos 6 anos de duração da 2ª GM, desapareceria quase 28,5% da população de Gaza.

Isso levaria à morte de:

• No mundo, estratosféricos 2,3 bilhões de mortos em 6 ano
• Na Europa, 214 milhões de mortos, 3 vezes mais que na 2ª Guerra Mundial, ou quase 2,7% da população mundial
• No Brasil, a quase 58,5 milhões de mortos em 6 anos

Quando falamos das crianças assassinadas por “israel”, temos:

• Total de crianças mortas (consideradas as desaparecidas sob os escombros): 16.450 (44% do total de mortos)
• Conforme dados da Save The Children, considerando todas as guerras de 2019 a 2022, morreram 1 criança por 1 milhão de habitantes.
• Em Gaza, nestes 135 dias de genocídio israelense, foram assassinadas 7.377 crianças para cada 1 milhão de habitantes.
• Ou seja: “israel” mata 7.377 vezes mais crianças palestinas que em qualquer outra guerra no mundo atual. Sim: “israel” assassina 7.377 mil vezes mais crianças palestinas que em qualquer canto do mundo sob guerra!
• São quase 130 crianças assassinadas ao dia. Mais de 2 por hora!
• Na 2ª GM, em toda a Europa, à época 236 vezes a população de Gaza (525 milhões de habitantes, incluindo URSS e toda Europa do Leste, área em que esta guerra se desenvolveu), morreram, em média, 127 crianças ao dia.
• Isso quer dizer que “israel” mata em Gaza no mínimo 236 vezes mais crianças que na 2ª GM.
• Em Gaza, 10 crianças sofrem amputações diariamente, em média, de um ou mais membros, na maior parte das vezes sem anestesia ou estrutura hospitalar adequada, ainda que mínima.

E as mulheres assassinadas, temos este quadro:

• Mulheres mortas: 8.000
• Mulheres desaparecidas: perto de 700 (sob escombros)
• Total mulheres mortas: 8.700 ao menos (23,26% dos mortos)

Crianças, mulheres e idosos totalizam 70,1% dos mortos. Todos, claro, civis e desarmados.

Civis assassinados

Em nenhuma hipótese não são ao menos 70% dos homens assassinados também civis. Logo, os homens (não idosos) assassinados em condição de civis desarmados perfazem os outros 21% dos civis assassinados.

Assim, no mínimo 91% de todos os assassinados são civis. O percentual deve ser maior, mas concedamos aos sionistas 9% de não civis, o que não significa combatentes, mas, apenas e tão somente, alvos (ilegitimamente) buscados por “israel” sob algum pretexto, contrário ao Direito Internacional e às Leis de Guerra.

Civis mortos na Alemanha na 2ª GM e Palestina/Gaza em 2023/24

A Alemanha, em 6 anos (1939/45) perdeu 14,5% de sua população, perto de 11 milhões. Os civis foram 600 mil, ou seja, 5,5% dos mortos na Alemanha foram civis.
Na Palestina, crianças, mulheres e idosos totalizam 70,1%. No todo, os civis são ao menos 90%, 16,5 vezes mais que os civis assassinados na Alemanha. Então temos que “israel” mata civis palestinos em escala 1.650% superior.

Yuri Ferreira e Raphael Sanz são jornalistas da Revista Fórum, onde esta entrevista foi originalmente publicada.

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